Contra o Caminho das Índias: o que a literatura revela

Certo, a tal novela das oito acabou, mas ainda é tempo de falar sobre ela. Isso porque a última trama de Glória Perez deixou uma nova marca nos brasileiros, que durante meses acompanharam Maya, Raj e Bahuan na mais nova ponte aérea novelística: Brasil-Índia. Assim, o “inshalá” de O Clone foi substituído pelo “are baba” de Caminho das Índias, e um pouco daquele grande país foi apresentado aos brasileiros que só ouviram falar da Índia na escola (e nem se lembram).

Porém, logo no início da novela, algumas pessoas já familiarizadas com a cultura indiana, além dos próprios, declararam que a novela de Glória Perez estava há pelo menos 50 anos atrasada. Principalmente por conta de alguns costumes e crenças apresentados no folhetim que, segundo eles, já haviam sido superados. E aí fica a dúvida: Caminho das Índias foi mais uma novelinha para entreter ou realmente ensinou alguma coisa nova para o telespectador?

Como ex-noveleira, que cresceu na frente da TV vendo clássicos como Torre de Babel e A Próxima Vítima, digo que não. Porque eu não aprendi nada relevante das novelas, e duvidava de praticamente tudo que nela passava. Então se alguém se interessou pela Índia por conta da Globo, mas ficou só nisso, indico um livro que não só vai mostrar mais do país mas também provar que realmente Glória Perez se baseou em costumes ultrapassados para montar Caminho das Índias.

a-distancia-204x300Um livro que trata da Índia e que fez sucesso antes mesmo da novela ir ao ar. A Distância Entre Nós, da jornalista indiana radicada nos EUA Thrity Umbrigar. O confronto entre pobres e ricos demonstrado na novela global faz parte da história contata por Umbrigar também. Se bem essa relação é mais “liberal”. A Distância Entre Nós é sobre a amizade entre Sera a Bihma, patroa e empregada, respectivamente. Separadas pela classe social, as duas nutrem há anos uma amizade que vai contra o usual modo de se tratar os empregados. Porém, a diferença entre as duas ainda pesa na sua relação, mostrando que os costumes indianos tão rígidos ainda não foram totalmente quebrados.

E, em comum com a novela, também há um caso de gravidez fora do casamento, envolvendo Maya (coincidência?), neta de Bihma. Uma trama menos romantizada que envolve muito mais as personagens do que a velha história da mocinha que engravidou e não quer quebrar os costumes porque a sua deusa correspondente não gosta. Aí é que está um progresso cultural. Casamento ainda é importante, mas não é tudo. As mulheres trabalham, como a própria novela mostrou, e estudam. Porém, em A Distância Entre Nós isso é muito mais presente, pois essas “novas” atividades para mulheres são fortemente incentivadas.

A relação entre homem e mulher também é retratada de forma mais aberta. A trama de Umbrigar tirou dos ombros das personagens femininas aquele fardo de se demonstrar sempre submissa aos homens. Eles ainda são o grande alicerce da família indiana, mas as tomadas de decisões envolvem mais as mulheres.

Contudo, nem tudo é maravilhoso no que se trata dos costumes. O próprio desdobrar da história mostra que o passado ainda pesa sobre a Índia, e a diferença entre castas, que no livro parecem mais representadas mesmo como classe social (poder financeiro), ainda ditam o destino das relações interpessoais. Embora Sera se considere amiga de Bihma, ela foi incapaz de aceitar uma verdade dita por ela para não colocar a paz da família em risco. Por mais que Bihma tenha se mostrado fiel e companheira. Mas isso não é característico apenas da Índia, mas o preconceito em relação a pessoas de classes mais baixas existe em todo lugar.

Como avaliação geral do livro, é uma leitura que vale mais para mostrar outra realidade daquela mostrada pela novela. Me decepcionei um pouco com ele por conta da amizade entre as duas mulheres constantemente alardeada que no final não serve para nada. Confesso que esperava uma “revolução” comportamental que desse mais prova da quebra de antigos paradigmas que aqui abominamos. Mesmo assim, acaba valendo à pena. Muito melhor ter uma referência além de Caminho das Índias. E mais: sem danças e músicas que surgem do nada.