Morrer é Divertido: O Original de Laura, de Nabokov (Amálgama)

Capa de O original de Laura

O mundo literário teve a chance de apreciar mais uma obra daquele que chocou ao narrar em um livro um caso de pedofilia. Lolita fez do russo Vladimir Nabokov um dos maiores autores do século XX, surpreendendo não só pelo seu enredo perturbador, mas pela maestria com a qual ele o montou. Os agradecimentos vão para Véra, sua esposa, que o impediu de queimar Lolita. Agora outra obra foge do destino que o autor lhe concedeu, e desobedecendo às ordens dadas por seu pai, Dmitri Nabokov publica seu último romance, O original de Laura. Atrás de dinheiro ou não, Dmitri fez bem, ressaltando que uma história merece ser lida mesmo sem estar pronta.

Escrito no final dos anos 70, enquanto Nabokov vivia em hospitais por conta da frágil saúde, o romance trata de morte, adultério e indiferença, abordadas com a secura e ironia próprias do autor. Antes de falecer, em 1977, ele delegou a sua mulher a tarefa de destruir o manuscrito de Laura caso morresse antes de terminá-lo. E foi o que aconteceu. Como era de se esperar, Véra o manteve intacto, guardado no cofre de um banco suíço. Depois de sua morte, a responsabilidade pelas fichas catalográficas com linhas escritas à lápis passaram para Dimitri.

Após 30 anos, as mais de 100 fichas que compõem O original de Laura finalmente foram publicadas, chegando ao Brasil pelo selo Alfaguara da editora Objetiva. Em 304 páginas, Dmitri organizou a obra do pai colocando as fichas originais seguidas de suas transcrições, tais como eram escritas originalmente. Aqueles que esperam páginas cheias de parágrafos se decepcionarão ao ter o exemplar nas mãos, pois cada uma não contém mais que 10 linhas. Fato que pode ser facilmente deixado de lado, pois essa característica faz parecer que o leitor tem as fichas verdadeiras em mãos.

A personagem principal é Flora, uma mulher que despreza o marido e se envolve em diversos casos amorosos sem escondê-los. A narração é feita por um de seus amantes, um escritor que retrata sua história em livro, porém chamando-a de Laura. Enquanto sua vida nos é apresentada desde a infância até seu casamento com o neurologista Philip Wild, Nabokov insere na trama personagens de outros livros, como Hubert Hubert, de Lolita.

Não só sobre traição é o enredo. A humilhação sofrida por Wild, infringida pelos casos de Flora, toma espaço. Do adultério o tema muda para o suicídio, mostrando um homem que aos poucos vai causando a própria morte, de forma lenta e prazerosa. Traz-se ao livro o foco dado pelo seu subtítulo, Morrer é divertido. Aqui Nabokov transporta para a história algumas de suas próprias dores e desejos que poriam um fim a seu sofrimento.

O início da trama é fácil de acompanhar, mas assim que Nabokov troca de narrador, deixando inacabadas várias passagens e reescrevendo outras, dificulta-se sua compreensão. É necessário, então, reler diversas vezes uma mesma sequência de fichas para retomar o enredo. O livro mostra o último suspiro da genialidade de Nabokov, em uma história que certamente alcançaria o sucesso de Lolita caso fosse terminado. Talvez até mais.

O original de Laura é fundamental para a literatura, mas não pela polêmica gerada pelo dilema que envolveu sua publicação. Nem sempre teremos chance de acompanhar o nascimento de um romance, muito menos de um grande escritor como Nabokov. Devemos lamentar, assim como Dmitri, a janela deixada aberta por uma enfermeira resfriada que tirou de seu pai, e da literatura, outra obra que confrontaria a sociedade. Uma janela que deixou em branco as últimas fichas de Nabokov.