O relato de uma amadora na FLIP

Ruas de pedras dos tempos coloniais, que cansam os pés e provocam tropeços. Casas brancas com grandes janelas e portas de madeira, de batentes coloridos e telha de barro. Espera-se que o Centro Histórico de Paraty, no Rio de Janeiro, continue assim, antigo, por muito tempo. E também espera-se que em todos os anos a literatura e a arte voltem a ocupar as ruas de pedras e casarões brancos da cidade. Esse é o lar da Festa Literária Internacional de Paraty, ou a FLIP, o maior evento de literatura do país que traz grandes autores para discutir livros e histórias.

Esse ano tivemos a oitava edição do evento adiada por conta da Copa do Mundo. Geralmente organizado em junho, o início de agosto caiu como uma luva para que eu pudesse visitar a tão falada FLIP sem perder minhas provas ou aulas. Convidada pelo Ambrosia a cobrir o evento, fui feliz da vida conhecer um novo lugar, sair pela primeira vez do Sul do Brasil e me aventurar em terras mais quentes. E, claro, fazer meu tão sonhado vôo de avião.

Até então, o único evento de literatura que presenciei foi a Feira do Livro de Porto Alegre, um ambiente maravilhoso para quem adora comprar livros, e torturante para quem tem pouco dinheiro. Felizmente, o forte da FLIP são as mesas com autores e outras personalidades do meio literário, e não a comercialização de livros em si. Mas é óbvio que um evento sobre livros tem que ter lojas vendendo-os, e não deixei de me sentir tentada a gastar todo o dinheiro das contas neles. Mas me segurei. Só não posso dizer o mesmo quanto a uma tal lojinha de roupas que tinha lá.

Como primeira viagem à FLIP, posso dizer que me senti deslumbrada e desapontada ao mesmo tempo. Deslumbrada por ver tantos autores, editores e jornalistas caminhando em meio ao povo, e também por conhecer várias pessoas cujo contato era feito exclusivamente pela internet. Desapontada por ver que muitos estão lá “just for the lulz”, só querendo festa. Mas gente assim se encontra em qualquer lugar, né? Porém, isso não ofuscou em nada estar em Paraty, ver os autores, ver as pessoas.

Assisti apenas 3 mesas inteiras, as com o Robert Darnton, Peter Burk e John Makinson, e a com os escritores Azar Nafisi e Abraham B. Yehoshua. Havia muitas outras que gostaria de ver, mas ou você passeia e escreve, ou você assiste a todas as mesas que há na FLIP. Sem falar no valor dos ingressos que, como comentou o Tauil lá no Artilharia Cultural, estão cada vez mais caros. Mas também vi coletivas, e apesar do meu péssimo inglês, entendi alguma coisa.

Nas coletivas, vi de perto Isabel Allende, Robert Crumb e Gilbert Shelton. Vi também o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e o escritor Salman Rushdie, que até passou do meu ladinho na pousada onde estava hospedado se dirigindo para a piscina. E eu naquela de tímida, sem conseguir cumprimentar ninguém, apenas maravilhada por ver tantos nomináveis na minha frente. Conheci Humberto Werneck e batemos um papo curto, porém ótimo. E, claro, conheci todos aqueles com quem falava (pouco ou bastante) na internet (Salvador, Dib, Tauil, Diana), e também novas figuras que me fizeram rir horrores.

Fico feliz em dizer que não torci o pé nas ruas de Paraty, o que foi um grande feito, se tratando do ser estabanado que sou. E que também não me desesperei ao ver o avião decolando e ficando cada vez mais longe do chão, o que também é de se comemorar. Até fui em uma festa cubana promovida pela Saraiva, mas meu espírito caseiro não foi capaz de me fazer sair de casa em um sábado à noite. Levantei cedo e dormi tarde quase todos os dias, ficando o dia todo carregando meu notebook para todos os cantos do Centro Histórico de Paraty. Mas apesar do cansaço que sinto até hoje – não pude recarregar as energias ainda –, repetiria tudo de novo.

Deu aquele aperto ao ver as lindas paisagens do Rio de Janeiro e Paraty ficando para trás. As pessoas, a FLIP e a literatura com certeza me conquistaram e, espero, me farão voltar para lá no ano que vem. Quero me programar para assistir todas as mesas possíveis, pois literatura é sempre algo bom de discutir, e há muito o que se ouvir sobre ela. E claro, vou procurar ler os autores que estavam lá, e conhecer definitivamente suas obras, não só suas imagens. Foi bom estar na FLIP, e com certeza será bom voltar.

Fotos por Lívia e Dib, os com câmera decente.