Sobre a questão do spoiler

O ato de contar para uma pessoa o que acontece em uma história é um dos mais rechaçados pelos amantes de livros, filmes e séries. O tal spoiler, quando invade uma conversa, pode destruir amizades. O sentimento que ronda o ambiente, depois cometida tal gafe, é a indignação. Exagero? Eu acho, em certos momentos. Não me importo em saber o final de uma história. Às vezes, saber como termina um livro me deixa mais interessada ainda em lê-lo. Afinal, na maioria dos casos, não é o último ato que consagra o livro. É o desenvolvimento da trama. Mas concordo com aqueles que exigem respeito quanto a querer ou não ouvir antecipadamente desfechos das histórias.

Levanto esse assunto pelo seguinte acontecimento. Semana passada, na resenha de Crime e Castigo que publiquei, uma leitora do Meia Palavra disse que não leria meu texto. O motivo alegado era que, como ela ainda não havia lido o livro – coisa que iria fazer em pouco tempo –, não queria ver spoilers da trama. Não que havia realmente um comentário “estraga prazer” na minha resenha, mas alguns leitores xiitas poderiam considerar a citação da cena em que Raskólnikov fala com Porfíri sobre um artigo publicado em uma revista um spoiler. E quem conhece meus textos sabe que eu não conto o livro nas resenhas. Entendo perfeitamente o ponto dela, e explico.

Quem lê resenhas literárias apenas em jornais ou revistas – ou de cinema, essa minha crítica vale a todos os ramos da cultura que envolvam contar histórias – nunca vai encontrar um resumo da trama nessas páginas. Nunca. Isso porque o dever da resenha não é contar a história ou resumi-la, mas sim levantar pontos negativos e positivos da obra e explicar seus motivos. Mas isso não implica que o texto deva conter verdadeiros relatos do conteúdo do livro. Infelizmente, não são todos que tem essa visão.

Nem todo spoiler é legal. Na verdade, acho que só esse é.

Na procura por blogs e sites de resenhas literárias topamos com os mais diversos estilos de escrita. Do jornalístico ao pessoal e técnico, e também um que fica em um limbo, entre esses três modelos. Mas não importa qual o estilo do blog, todos tem que ter certo profissionalismo. E o profissionalismo está justamente no fato de não contar ao leitor o desfecho da trama – e em outros aspectos, mas isso já é outro assunto. Muitos blogs de literatura, cinema e séries fazem isso. Simplesmente usam três ou quatro parágrafos para detalhar cada passo das personagens na história até o seu final e apenas cinco linhas dando uma opinião sobre a obra. E isso é mais comum do que se imagina. Por isso, certamente, a leitora do Meia Palavra ficou com o pé atrás com minha resenha. Experiências ruins respingam em todos os lugares.

Eu realmente não me importo com spoiler. Quando foi lançado, lá na Inglaterra, Harry Potter e as Relíquias da Morte, a primeira coisa que fiz foi pesquisar quem morreu no livro e o que aconteceu com Harry no final. Mas eu entendo a reação de muitos leitores ao se depararem com uma resenha que conte toda a história do livro. Até porque namoro um que abomina pessoas que alardeiam finais pelos quatro cantos do mundo – e acreditem, tenho que me segurar muito para não fazer isso com ele. O que o blogueiro tem que ter em mente é que o leitor foi atrás de uma resenha sobre determinada obra para procurar motivação para lê-la, e não para encontrar ela transcrita do começo ao fim. Isso é desestimulante, até quando se trata de resenhas negativas.

Elaborar um texto que contenha apenas informações objetivas sobre o livro já basta. Não é necessário usar cada detalhe dele para explicar um ponto de vista. O texto até pode mencionar alguma cena – como fiz em Crime e Castigo –, mas em hipótese alguma deve apresentar o desfecho dela. Se o spoiler não puder ser contornado, avisar isso antecipadamente no texto é o melhor a fazer. O leitor do blog ou site merece respeito. Ele merece continuar curioso quanto à história. Os blogueiros devem entender que o leitor que descobrir por ele mesmo o que acontece nela.

PS.: Se em algum momento eu “spoiliei” algum livro aqui, meu mais profundo perdão. Eu realmente não queria fazer isso. Tanto que nem me lembro.