A Mulher Sem Palavras, de Marcelo Barbão

Capa de A mulher sem palavras

No Himalia, em 1970, uma americana de 45 anos procura o esquecimento entre as montanhas. Ela simplesmente chegou lá, sem dizer nada nem nada fazer. Procurou um canto para ficar e, assim, viver enquanto se prende em um transe que a torna um mistério no lugar. A Mulher Sem Palavras, romance de Marcelo Barbão, relata a vida de uma pessoa que, mesmo sem falar – por escolha própria –, tem muito a dizer. Sua protagonista não tem nome, o que faz dela um mistério também para o leitor, mesmo sendo ele o alvo dos seus relatos. Essa aura enigmática está presente no próprio texto, um relato cortado entre os tempos que aos poucos monta sua história.

O livro é narrado por essa mulher, mas Barbão construiu o romance de uma forma que permite dizer o contrário. A história inicia com sua chegada ao Nepal e seu voto de silêncio. Nesse momento, uma terceira pessoa assume o relato, seguindo o raciocínio lógico de que, se ela não tem palavras, ela não tem como narrar. Mas esse trabalho é feito por ela mesma, se referindo a si como outra pessoa. Nesse estágio, Barbão faz sua protagonista relembrar o que fez no seu momento de silêncio, externar tudo o que ela pensou e viu enquanto não podia falar. Alternando a narrativa em primeira e terceira pessoa, o autor conduz a história pelos vários países visitados pela protagonista e situações de descoberta e de inserção na nova sociedade em que vive.

A protagonista quer esquecer seu passado e se integrar ao novo povo que conhece, mas o que o leitor vê na verdade é um comparativo entre o que ela vive e o que já viveu. No longo período em que esteve no Nepal, ela relembra principalmente momentos da sua infância, com uma família que lhe conferia pouca atenção e não compreendia seus problemas. Ela é de origem norte-americana e rica, e o livro trabalha nesse grande contraste entre a vida de luxo sem carinho à qual ela dava pouca importância e o estado miserável em que vive no Himalaia. O leitor percebe que, assim como ela narra de duas maneiras, ela também tem dois lados distintos que constantemente se alternam: o de santa, contemplativa e quieta, e o de pervertida, com excessos sexuais.

Depois do Nepal, o livro muda o foco para o Tibet em plena ocupação pelos chineses. Durante anos de convivência entre os monges nepaleses, ela volta a ter palavras, logo também retorna a narrativa em primeira pessoa. Assim como na primeira parte do livro, ela mistura o passado ao presente fazendo inserções na trama muitas vezes bruscas, voltando a um assunto deixado de lado sem aviso prévio, mas que não complica a leitura e nem atrapalha seu andamento. Essa abordagem do passado é feita de forma cronológica para, no fim, chegar ao momento em que ela decide abandonar os Estados Unidos e rumar para a Ásia, revelando finalmente o mistério por trás da mulher.

Marcelo Barbão consegue deixar o leitor curioso o bastante para que prossiga na leitura sem interrupções. A Mulher sem Palavras é um livro que propõe mais do que um mistério acerca dos acontecimentos da vida de uma mulher. Ele levanta a reflexão sobre se sentir estrangeiro, fora de um contexto social, isolado das outras pessoas, o que é constantemente relatado pela protagonista. E no meio dessa rejeição social, ela fala da vontade de se tornar ainda mais invisível, de viver em paz e sem perturbação, de conviver com a própria estranheza.