O futuro do mercado editorial pelos olhos dos editores

Na semana passada, o curso de extensão A Trajetória do Livro e da Ediçãodo qual participo –, promovido pela Unisinos, levou até os alunos os editores Paulo Lima, da L&PM, Tito Montenegro, da Arquipélago, e Carlos Gianotti, da editora da Editora Unisinos. Com conversa transmitida via webconferência – é um curso à distância –, eles foram questionados pelos alunos acerca das funções de um editor e, principalmente, sobre questões do mercado editorial, o principal assunto abordado no curso. Do que foi discutido nesse encontro, o que mais me chamou a atenção foi realmente a opinião dos editores sobre o livro digital e a importância da internet para a divulgação de lançamentos.

Tito Montenegro, editor da Arquipélago, que recentemente lançou o livro As Melhores Entrevistas da Rascunho, deu grande ênfase para a divulgação de livros na internet. “Não consigo imaginar uma pequena editora fazer marketing sem usar internet. Toda mídia em veículos tradicionais é muito cara. Na internet, você foge das massas e consegue achar as pessoas que se interessam por aquele tipo de livro”, declarou. Paulo Lima também colocou a internet como uma das ferramentas principais para o marketing da editora, em especial as redes sociais. A L&PM já vem há algum tempo mantendo um blog com conteúdo relevante sobre escritores, lançamentos e obras publicadas pela editora que, segundo Lima, tem 90% das vendas vindas de sua coleção pocket.

Achei interessante também a preocupação dos editores em monitorar a rede para ver o que se fala sobre os livros e a empresa. “Não adianta ficar postando sem pesquisar o que estão falando sobre a editora, ter um feedback”, alegou Tito. Concordo bastante com essa fala dele, e considero que editoras, via suas assessorias ou falando diretamente com os editores, devem manter um diálogo com quem fala de seus livros, sejam em blogs sobre resenhas ou com seus leitores “consumidores”. Nada melhor que o leitor poder tirar dúvidas e sugestões recebidas diretamente, e o Twitter e Facebook são os melhores lugares para promover essa comunicação. Claro que isso também depende da disponibilidade de responder a milhares de requisições feitas pelos leitores – e quem trabalha com assessoria concorda que isso chega a ser um saco –, mas é uma ideia que deve ser adaptada à rotina das editoras.

Sobre o mercado digital, os editores tiveram muito a dizer. Perguntei à Gianotti, da Unisinos, se e-books e publicação de livros via internet eram vistos como uma boa oportunidade para uma editora acadêmica ampliar o seu mercado. Ele respondeu que sim, o mercado digital é visto com bons olhos, e a Unisinos já trabalha inclusive em dois projetos nesse meio: a publicação de e-books e o desenvolvimento de uma loja online. Não ter uma plataforma online de comércio já é um fator negativo para as vendas, pois se fica muito limitado a um espaço físico. Ainda mais para uma editora acadêmica, que já não possui tanta procura no mercado e é bem segmentada, e por isso não entra no catálogo de vendas de grandes livrarias online.

Tito Montenegro também vê com otimismo esse mercado digital, pois tornaria os livros disponíveis em outros sites além das grandes livrarias brasileiras, como Cultura e Saravia. Segundo ele, passar pelo “filtro” dessas lojas não é fácil, e o livro digital abre uma porta importante para a editora conquistar mais espaço. E como a oferta de livros estará facilitada, o editor da Arquipélago previu que a importância das editoras seria maior nesse mercado por orientar o leitor em meio à tantos títulos através da marca. Um fortalecimento também previsto por conta do selfpublishing, prática intensificada pela possibilidade de qualquer escritor poder publicar online. A editora atuaria como o “controle de qualidade” das obras.

Já Paulo Lima lembrou da DLD, uma distribuidora de livros digitais formada por seis editoras que juntas ocupam 40% do mercado nacional, entre elas a L&PM. Para ele, a grande questão do mercado digital é manter o livro fora da exclusividade de plataformas de leitura como acontece nos EUA, onde as vendas de e-books são feitas predominantemente pela Amazon e a loja de livros da Apple. Para ele, isso aconteceu porque o mercado editorial americano não se preparou para essa nova realidade. Por isso, ele diz que as editoras brasileiras estão procurando seguir o modelo espanhol, onde as vendas não se concentram apenas em duas ou três lojas que ditam em que aparelhos os livros serão lidos. “Criamos a empresa para nos defender desses grandes sites. A DLD não dá preferência para nenhum e-reader”, disse. Apesar do otimismo com o mercado, Lima revelou que as editoras estão tendo problemas em se adaptar às tecnologias para a edição de livros digitais.

Comparado com o mercado norte-americano, a venda de e-books por aqui ainda está só no começo. Não temos um acesso amplo aos leitores digitais – um e-reader brasileiro é mais caro que um importado – e por uma questão de tecnologia e adaptação, as editoras não possuem grandes catálogos de livros digitais. Penso que ainda vá demorar um pouco até os e-readers se popularizarem tanto quanto aconteceu nos EUA, até porque o Brasil não tem um histórico muito bom de baixar o preço de seus produtos. Mas é bom ver que as editoras estão planejando como entrar definitivamente nesse mercado, sem querer favorecer um aparelho ou outro. Afinal, o cliente, nós leitores, tem que sair ganhando.