Resenha de Jogos Vorazes, de Suzanne Collins

Capa de Jogos vorazes

Em um mercado onde as editoras exploram romances com amor e seres sobrenaturais para atrair o público jovem, chega uma história onde não há nem vampiros, nem anjos, nem zumbis. E muito menos um casal meloso. Jogos Vorazes, da norte-americana Suzanne Collins, conquistou críticos e leitores por fugir do clichê editorial da vez usando uma sociedade futura que sofre com a escassez e a arbitrariedade. Com uma sinopse que promete sangue, violência e morte, é até estranho encontrar no livro, primeiro de uma trilogia, o selo Rocco Jovens Leitores, mas é para esse público mesmo que ele se destina. Uma violência adaptada.

Panem é uma região situada na antiga América do Norte, desolada depois de séculos de exploração. O “país” possuía 13 distritos e uma Capital para a qual cada um deles cedia seus recursos. Mas o governo abusivo da Capital levantou protestos, e os distritos se rebelaram contra ela. O resultado foi uma guerra que deixou na miséria 12 dos distritos e destruiu completamente o último, onde a vida se torna impossível por conta da radiação. Para punir seus súditos pela rebelião, a Capital estabeleceu que a cada ano ocorreriam os Jogos Vorazes, que consiste em um embate até a morte entre 24 jovens dos distritos rebelados.

Em Jogos Vorazes acompanhamos pelos olhos de Katniss, de 16 anos, mais uma edição desse evento sanguinário transmitido à toda Panem há mais de 60 anos. Moradora do Distrito 12, Katniss sobrevive caçando ilegalmente na floresta, sustentando também sua mãe e irmã mais nova. Quando essa é escolhida para ser um “tributo” dos jogos, Katniss se oferece para substituí-la, partindo rumo à Capital para os preparativos. Junto com ela vai Peeta, um garoto da mesma idade que antes havia lhe salvado a vida.

Katniss narra todo o sofrimento pela qual sua família passou depois da morte de seu pai nas minas de carvão, e como o seu distrito vive na miséria, onde diariamente homens e crianças morrem de fome. Aqui Suzanne Collins monta a personalidade forte de sua protagonista, diferente de outros adolescentes. Mas apesar de seu jeito frio, ela se surpreende ao chegar na rica Capital e ser tratada como uma celebridade. Pois se vencer os jogos, é isso que ela vai se tornar. Jogos Vorazes é um evento de entretenimento para a Capital, mas uma lembrança de submissão para os distritos, e isso é lembrado pela protagonista a todo tempo. Cada passo dos tributos são seguidos pelas câmeras, e há todo um espetáculo que antecede os jogos na arena. A aparência física e o carisma são recursos que todo participante deve ter, pois devem conquistar patrocinadores para auxiliá-los na arena. Eles são fisicamente preparados e orientados para chamar a atenção do público. Impossível não comparar os jogos do livro com um reallity show qualquer da televisão brasileira. A diferença está na eliminação: morte.

Por ser voltado para um público jovem, Jogos Vorazes não leva essa violência que a trama emite para um patamar bem detalhado. Katniss é uma personagem forte, mas sensível, que procura ajudar a todos com os quais simpatiza. Logo, a narração que o leitor tem dos jogos é branda, nem um pouco impactante. E para conquistar realmente o seu público, o livro não pode deixar de conter as habituais questões adolescentes e, claro, um romance. Mesmo dentro de um ambiente opressor, Suzanne Collins consegue explorar isso, mas fazendo com que tudo pareça uma estratégia para vencer a competição. Felizmente, essa fórmula funciona dentro da trama e não fica acima da questão dos jogos.

A autora mostra a Capital como uma cidade fútil, onde a população se importa apenas com luxo e beleza, e passa os dias consumindo entretenimento. Seria isso um alerta aos jovens de hoje? Mas ao mesmo tempo, se apresenta o deslumbramento por toda essa pompa, narrando como qualquer adolescente se sentiria ao conhecer o luxo. E aqui Jogos Vorazes passa a sensação de ser mais um livrinho que coloca na cabeça adolescente desejos de consumo que nunca poderão ter. Felizmente, essa sensação dura pouco, e logo o livro se volta para a questão da sobrevivência: vence aquele que pensa, não o que tem força ou dinheiro.

Com certeza Jogos Vorazes seria uma história melhor explorada se fosse voltada ao público adulto. O fato de se destinar aos jovens limita a narrativa, o relato dos jogos fica muito preso às revoltas pessoais da protagonista, e não explora muito um lado reflexivo sobre a submissão e pobreza que engloba toda a questão dos jogos. Por ser infantojuvenil, muitos aspectos que deixariam a história mais completa foram deixados de lado. Contudo, já é um alimento diferente no cardápio literário para os jovens. Um livro que pode colocar nessas cabeças trabalhadas em romances platônicos um pouquinho de ação e questionamentos de verdade.


 

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