Duplo Fantasia Heroica

Capa de Duplo Fantasia Heroica

Quando vem a tona o assunto fantasia, os livros citados desse gênero são predominantemente estrangeiros. Todos lembram do maravilhoso mundo tolkeriano, seus monstros e magias, ou de grandes romances que misturam história às lendas nórdicas, gregas ou egípcias, de civilizações extintas, antigas ou lendárias. São temas que mexem com o imaginário e são recorrentes na fantasia. Porém, não vemos que a própria cultura brasileira e suas misteriosas matas podem ser ótimos cenários para histórias igualmente mágicas. O livro Duplo Fantasia Heroica, um projeto publicado pela Devir, mostra que o Brasil é sim um ótimo lugar para ambientar fantasias repletas de encantos, tormentos, monstros e mistérios.

O livro traz duas novelas de autores distintos que colocam as terras tupiniquins e suas lendas como pontos centrais das narrativas. O primeiro texto é O Encontro Fortuito de Gerard van Oost e Oludara, do norte-americano que há mais de 10 anos vive no Brasil Christopher Kastensmidt. O segundo é A Travessia, novela que dá seguimento a série de histórias sobre um Brasil pré-descobrimento de Roberto de Sousa Causo. Ambas utilizam a floresta brasileira como cenário das histórias fantásticas e cheias de heroísmo, incluindo o folclore brasileiro nas aventuras de seus protagonistas.

O Encontro Fortuito de Gerard van Oost e Oludara conta a história de Gerard, um holandês que vem ao Brasil em busca de aventuras, querendo fazer parte de uma “bandeira”, os grupos que desbravavam o território para descobrir o que ele ainda escondia. Não sendo aceito por um dos chefes dos bandeiras de Salvador, encontra-se com Oludara, um escravo recém-chegado da África que se mostra forte e astuto e lhe chama a atenção. Essa novela dá início a série A Bandeira do Elefante e da Arara, que narra as aventuras de Gerard e Oludara em busca de desafios para se consagrarem como grandes herois. E como o próprio autor sugere, aqui não é a força, mas sim a inteligência que salva e ajuda os protagonistas a enfrentarem seus problemas. O primeiro capítulo dessa série fala desse encontro repleto de magia, como quando Oludara narra sua vitória sobre um mítico ser africano, e a aparição do famoso Saci-Pererê. Uma história narrada de forma leve que consegue fazer o Brasil parecer realmente mágico.

Já A Travessia adota uma linguagem mais “arcaica” – “dela” se transforma em “de ela”, por exemplo. Com história datada por volta dos anos 1020, Causo trabalha a magia de forma bem específica, e coloca os vikings como “primeiros visitantes” do país. Sjala é uma sacerdotisa mandada à região amazônica para liberar o deus Loki, supostamente preso aqui. Ao ser capturada por Tajarê, nativo da região, os dois começam uma relação. Tajarê é o heroi dessa terra, e Sjala usa sua magia para enfrentar as criaturas mágicas que vivem na floresta. Essa novela, no entanto, é a continuação de uma outra narrativa sobre o heroi, em que Sjala é raptada por amazonas e, ao ser libertada, estabelece-se o caos na floresta. Mas como a própria apresentação das personagens diz, a não leitura da primeira parte não afeta o entendimento da segunda. Aqui, Sjala e Tarajê devem resgatar seu povo que está ameaçado por um monstro, e para isso devem realizar a travessia pelo Grande Rio além de enfrentar a própria fera.

Por conta da linguagem diferenciada do modo de falar atual, a leitura pode se mostrar um pouco confusa e cansativa, porém logo o leitor se acostuma com a troca de palavras nas sentenças e os termos indígenas utilizadas pelo autor. Dos dois contos, é o que mais se aprofunda na fantasia, na apresentação de um mundo praticamente novo, totalmente diferente do Brasil como conhecemos ou o imaginamos antigamente. É diferente, principalmente, pela data escolhida pelo autor ao ambientar a história: bem anterior ao “descobrimento” do Brasil, como se antes disso não houvessem histórias para serem contadas ou imaginadas. É importante notar também que os protagonistas dessas tramas não são daqui, assim como as fantasias estrangeiras colocam um estranho para descobrir um novo mundo. Gerard, o holandês, e Sjala, a viking, desembarcam em um lugar totalmente novo e diferente de suas culturas e facilmente se integram e se apaixonam pelo ambiente fechado e verde daqui e, claro, pelas suas aventuras.

Duplo Fantasia Heroica traz, além das duas novelas, um ensaio introdutório que coloca no leitor a dúvida: por que não se faz fantasia ambientada no Brasil? Escrito pelo próprio Roberto de Sousa Causo, ele lista diversos autores desconhecidos para mim que são, segundo ele, ótimos exemplos de que o Brasil pode ser sim uma terra mágica e fantástica como imaginamos que a Europa seja. E as duas histórias presentes nesse volume provam que nosso país tem características que lhe garante o papel de ambiente curioso e interessante para se trabalhar lendas de maneiras diferentes do tradicional folclore que aprendemos quando criança.