Me Roubaram Uns Dias Contados, de Rodrigo de Souza Leão

Logo se percebe que há uma relação de amor e ódio entre Rodrigo de Souza Leão (1965-2009) e a escrita em Me roubaram uns dias contados. Publicado postumamente, o livro surgiu por intermédio do jornalista e poeta Ramon Mello, que organizou as novelas do autor e as transformou em romance. Essa foi a última obra de Rodrigo, falecido há dois anos em uma clínica psiquiátrica, e nela se vê as dores e perturbações de um autor sem a pretensão de ser lido, que se mistura às personagens e faz dele mesmo o principal foco da narrativa.

Organizado em quatro livros, Me roubaram uns dias contados se inicia com a primeira de todas as personagens enclausuradas em suas casas pelo autor: Weimar, um homem que se relaciona apenas pelo telefone, freqüentador assíduo de chats onde encontra amigos e parceiras. Recluso e com pouco contato pessoal, é incentivado a se suicidar pelos seus amigos já mortos, fantasmas que se apresentam em sua TV. Weimar pode ser Rodrigo e com ele se assemelha, mas o caráter ficcional fala mais alto, e a personagem se rebela contra o autor que lhe conferiu vida tão medíocre. Rodrigo permeia essa parte do livro com descrições de relações sexuais que Weimar mantém pelo telefone, as conversas com seu analista e amigos, e tenta dar a ele uma vida mais digna fazendo-o sair de casa e conhecer pessoas de verdade. Manter relacionamentos de carne e osso.

O sexo está presente na linguagem de Rodrigo em todas as partes. Seja o de verdade, o virtual, uma metáfora ou o ato solitário de dar prazer a si mesmo que tanto é adorado por uma das personagens que se confundem com o autor. O segundo livro é dedicado apenas a ele, uma narrativa sobre a própria condição de escritor que odeia e ama escrever, que quer e não quer ser escritor. Que admira a leitura e abomina os intelectuais. Rodrigo se refere a si mesmo como pessoa que se ama e não se suporta, uma mistura de personalidades e sentimentos contraditórios que o coloca no papel de louco. Contudo, um louco bem racional, que mesmo ao sentir estar preso pelas letras, vê nelas a única maneira de se manifestar. “Escrevo por causa da esquizofrenia”, diz ele. Com referências a obras clássicas e à cultura pop nacional, Rodrigo de Souza Leão faz de diálogos do cinema, literatura e letras de música parte de sua própria criação. Com frases curtas, pausadas e parágrafos também pequenos, afunda-se em depressão, um abismo que insiste em abrir abaixo de seus pés para engoli-lo de vez junto com suas obras.

A narrativa é densa, pois Rodrigo não diferencia os diálogos, os joga no meio das frases e a dedução de quem fala o que deve partir do leitor. Sem falar do próprio conteúdo do livro, a procura por um sentido de viver, escrever, ser alguém. Um livro que exige atenção e também reflexão, tentar entender e encontrar semelhanças nas histórias para formar a sua unidade. A terceira parte coloca o autor na pele de outras personagens: o “Van Gogh” brasileiro, idoso e artista, e o Sósia, mais jovem e igual a ele, que lhe sabota e irrita, mas sem se abandonar. Traços de Rodrigo estão cravadas nas personagens, referências ao seu primeiro livro publicado, Todos os cachorros são azuis, aparecem vez ou outra confirmando a sua identidade, mostrando as fantasias que Rodrigo veste.

No fim todas essas personas se unem em um pitoresco Big Brother, em que ainda não se sabe se Rodrigo está conversando com ele mesmo ou com o leitor. Rodrigo parece querer se entender, se curar das paranóias, ou então se afundar ainda mais na ideia de que a vida não vale lá muita coisa e que escrever é um ato solitário do qual os leitores não fazem parte. Em várias passagens ele afirma que o livro é dele, para ele, como um diário para colocar qualquer coisa que lhe perturba e vem à cabeça. Essa é a palavra que melhor define Me roubaram uns dias contados: perturbação. Se diminuir diante de si mesmo, desprezar seu trabalho, suas frases e parágrafos, mas ao mesmo tempo amar cada nova letra posta no papel, cada parte de seu próprio corpo e sua rotina monótona, o que aumenta a confusão que se instala dentro de si mesmo.


 

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