Milagrário Pessoal, de José Eduardo Agualusa

Capa de Milagrário pessoal

Ao ler qualquer obra cuja edição data de antes dos anos 1970, percebe-se muita diferença entre a gramática utilizada no texto e a atual. Assim como acontece nos clássicos da literatura em língua portuguesa que contém termos que não usamos mais. Uma prova mais do que certa de que a língua muda, não importa qual. Da mesma forma, hoje utilizam-se palavras que aparecem em algum texto obscuro nos jornais ou na internet que naquela época não existiam. Os neologismos de cada dia que preenchem e modificam o vocabulário. Essas novas palavras são o tema central de Milagrário Pessoal, livro do angolano José Eduardo Agualusa, que é uma viagem pelos países da língua portuguesa e uma homenagem ao próprio idioma.

Um professor angolano com seus mais de 80 anos de idade narra essa história. Tudo começa quando Iara, sua aluna, funcionária de um instituto que recolhe neologismos para dicionarizá-los com auxílio de um programa de computador, encontra palavras perfeitas em vários artigos de jornais. Perfeitas em sua sonoridade, seus significados. Palavras que embelezam qualquer sentença que as contiver, sem a grosseria de muitos termos estrangeiros com os quais Iara geralmente se depara. Palavras que parecem familiares, mas que não se encontram em dicionário algum. A origem desses neologismos é um mistério, e juntos, o narrador e Iara partem de Portugal para uma viagem ao Brasil a fim de encontrar a fonte dessas palavras.

Com um texto leve, bonito e envolvente, Agualusa cria uma história permeada de mitos para explicar a origem dos neologismos perfeitos e colocar ainda mais mistério em Milagrário Pessoal – nome, deve-se explicar, do diário do em que o protagonista anota seus pequenos milagres diários. Em volta de manuscritos antigos, uma viagem à Olinda atual e à Angola do passado, de onde surge o mito das palavras perfeitas e nunca antes ouvidas, forma-se o mistério de Agualusa. Mitos que dizem que elas partem da linguagem dos pássaros, ou de uma meretriz que as sussurrava no ouvido de seus clientes. Histórias que datam dos tempos de Cabral, que evocam nomes da literatura de língua portuguesa e exaltam o idioma. Iara não se convence desses contos-de-fadas, e a vigem perpetrada pelo protagonista procura abrir a mente de sua aluna para a fantasia e também para o amor.

Agualusa coloca em Milagrário Pessoal um pouco da cultura brasileira, portuguesa e angolana, citando escritores, lendas e músicas de cada lugar, tratando-os como pura arte da língua portuguesa. Um pouco dos conflitos de Angola também tem espaço no livro, episódios em que o protagonista participou direta ou indiretamente e contribuíram de certa forma para a saída de seu país natal e para a discussão sobre patriotismo presente no livro. Apesar de críticas fortes de seus personagens aos estrangeirismos, como lhes chamar “neologismos feios” ou então quando são diretamente atacados pelo poeta nordestino Anhanguera, não se percebe uma posição ferrenha do autor contra esses termos que partem principalmente do inglês e integram nosso vocabulário moderno.

Milagrário Pessoal conquista logo nas primeiras páginas, o que deixa a leitura ainda mais delicada, pois as chances de se decepcionar com o desenrolar da história tendem a ser maiores. O desfecho do mistério da origem das palavras, ou melhor, do porquê elas virem à tona apenas agora, não é dos melhores, mas consegue pelo menos manter um pouco da magia e fantasia construída por José Eduardo Agualusa durante toda a narrativa. O livro conclui-se, enfim, como uma leitura cujo desenvolvimento compensa o final pouco lisonjeiro. O autor escancarou belezas do nosso idioma que hoje parecem estar escondidas embaixo de uma camada de palavras brutas, e fez dessa descoberta um pequeno milagre do qual todos se beneficiam. É só escavar na literatura para encontrar.


 

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