Nunca vai embora, de Chico Mattoso

Capa de Nunca vai embora

Depois de passar por Tokyo, Cairo, Lisboa, Buenos Aires e outros lugares mais, a série Amores Expressos desembarca em Havana, Cuba. O amor dessa vez é retratado por Chico Mattoso no livro Nunca vai embora, e diferentemente do que se pode pensar sobre uma história de amor, não há carinhos e beijinhos que a sustente. Amor, nesse caso, é só um sentimento que inicialmente liga duas pessoas muito diferentes e é pano de fundo para outros conflitos que surgem entre elas, até atingir ares de obsessão.

Nesse novo volume da série que isola escritores em várias cidades do mundo para que escrevam sobre amor, surgiu Renato Polidoro, um dentista sem ambições e de baixa autoestima, que trabalha no consultório do pai para pagar a dívida de sua faculdade. A vida de Renato, nosso protagonista e narrador, muda ao conhecer Camila, estudante de cinema, em uma gravação feita em seu consultório. Desse primeiro contato surge um romance aberto, pouco convencional, intenso e paranóico. Terminada a faculdade, Camila decide ir para Cuba para realizar seu primeiro trabalho autoral, e Renato aceita o convite de com ela viver algum tempo na ilha.

As mudanças na rotina do casal provocadas por essa viagem apenas aumentam as paranoias e insatisfação de Renato quanto ao relacionamento. Com esses sentimentos lhe ocupando a mente, ele não consegue apreciar a paisagem de Havana, deixa de lado as visitas aos pontos turísticos que havia planejado depois do escárnio de Camila, se irrita com sua constante obsessão pelas filmagens, enquanto ele mesmo começa a se mostrar possessivo por ela. Chico Mattoso descreve tudo isso diretamente, sem rodeios para enfeitar o texto, e transmite ao leitor aquilo que seu protagonista sente e vive. Mesmo acompanhado, se vê sozinho em um país desconhecido, ou então rodeado de pessoas que não compartilham a sua visão de arte, trabalho ou vida.

Nesse fluxo narrativo repleto de aflições e angústias, o leitor compartilha das mesmas opiniões do protagonista, pois ele não tem outra perspectiva para ver essa história além da de Renato. Mattoso o faz odiar Camila quando ela deve ser odiada, e persegui-la em busca de respostas quando Renato se vê perdido em meio a um relacionamento mal explicado, ausente. Durante todo o romance, é esse relacionamento que Renato tenta entender: os motivos de se sentir tão atraído por Camila, o porquê de, sem ela, voltar se considerar um homem sem talentos ou chances de conseguir alguma coisa na vida. Enquanto roda pelas ruas de Havana atrás dessas respostas, e atrás de Camila, Mattoso coloca no caminho de seu protagonista outras personagens que habitam esse lugar de tantos contrastes, que procuram transmitir ao leitor como é o comportamento dos cubanos, mostrar a sua pluralidade. É a partir desse momento que Renato, e o leitor, realmente enxerga Havana.

Nunca vai embora passa longe das histórias de amor de finais felizes e emocionantes como podemos imaginar ao nos defrontarmos com uma livro que se diz falar sobre esse sentimento. Isso porque a própria intenção dessa série é mostrar os diferentes lados e problemáticas por trás do amor, provando que ele não é preso a nenhum estereótipo ou que deva ser clichê.


 

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