A felicidade é fácil, de Edney Silvestre

Capa de A felicidade é fácil

Muito mais que uma estrutura policial, Edney Silvestre usa a sensibilidade para narrar a história de um sequestro em São Paulo no ano de 1991, em pleno governo de Fernando Collor. O Brasil passava pela crise do congelamento de poupanças em bancos, pela instabilidade dos preços dos itens mais básicos, pelo caos que levou ricos à pobreza, pobres ao desespero, quando pessoas se viram com pouco ou quase nada. Em uma época como essa, o título do novo romance do jornalista, A felicidade é fácil, vai totalmente contra ao que os brasileiros viviam. Não, a felicidade não é nada fácil.

Na tarde de 20 de agosto, uma criança é levada de um carro de luxo em um bairro nobre da capital paulista. O motorista que a transportava, empregado do famoso publicitário Olavo, que atuava principalmente em campanhas eleitorais, é baleado e morto, e, mudo e dócil, um garoto louro de olhos azuis some. Na casa do publicitário, Irene, uma catarinense que trabalha junto com o marido como caseira, segue tranquilamente com sua rotina pouco alterada por mudanças no horário do patrão e sua esposa Mara, uma gaúcha ex-modelo/acompanhante, mãe do filho de Olavo, um garoto negro, gordo e seboso como o pai. O leitor nem precisa pensar muito para ligar os pontos: os sequestradores levaram a criança errada, que nada tem a ver com Olavo e seus negócios sigilosos e corruptos com o governo brasileiro.

Edney Silvestre explora a estrutura do romance policial para manter a tensão no romance cujo desfecho não é difícil de se imaginar. Em uma época em que nem pobre, nem rico prosperava, a tragédia do garotinho mudo, filho de caseiros, é iminente – mas guarda suas surpresas. Porém, não é o mistério mirabolante que movimenta o livro, mais sim o talento do autor para construir personagens marcantes e explorar suas ações e movimentos. Adotando o discurso indireto livre, em que o narrador funde sua fala com a das personagens, exercendo dentro delas a onisciência, falando como se fosse elas, ele aproxima o leitor, em poucas palavras, dos sentimentos mais profundos de seus protagonistas. E com capítulos curtos que não seguem nenhuma ordem cronológica, ele aos poucos vai montando as peças dessas histórias que se cruzam em uma rede de mentiras e mal entendidos.

O romance segue narrando os fatos ocorridos naquele fatídico dia com alguns flashbacks que mostram como Olavo e seu sócio entraram para o nicho da publicidade eleitoral, que os levaram à riqueza, aos favores de candidatos, a ajudas, a uma rede de corrupção, até virarem alvo de sequestradores. Coloca nas mesmas páginas pessoas da mais alta mau-caratice ao lado de gente simples, honesta, e mostra como, com poucos movimentos, as situações se invertem. A felicidade é fácil possui uma síntese da índole humana, do que somos capazes de suportar pelo conforto, pela riqueza ou esperança de, algum dia, melhorar de vida — nem que seja em poucos, pouquíssimos, aspectos. O livro explora o egoísmo de cada personagem à medida que pensam, nesse período difícil, que ninguém tem mais problemas do que eles mesmos, invejando uma aparente felicidade que os outros parecem portar.

O que mais surpreende é como Edney Silvestre aprofunda a personalidade de cada personagem, como usa a linguagem para evidenciar seus traços e passar diretamente a mensagem que pretende ao leitor. Ao detalhar marcas, locais e datas, mostra como Olavo e Mara são ligados ao materialismo, como são possessivos com seus objetos, suas aparências e reputações. Ao abusar de repetições de frases, de vícios de linguagem, evidencia como Mara sente nojo de Olavo, de como ele é intragável, de como Irene é submissa, o motorista é amargurado, os sequestradores são confusos e explosivos. É um uso bem feito da palavra para marcar sem dúvidas o que cada um sente, para entender como a confusão age em suas mentes e os fazem tomar decisões inesperadas.

A felicidade é fácil deixa sua conclusão em aberto, o leitor não tem certeza do destino do garotinho sequestrado, de sua mãe, de Mara ou de Olavo, assim como ninguém tinha certeza do seu futuro no Brasil de 1991. O clima de tensão, incompreensão e desespero consome cada página, onde cada informação é um peso maior na vida dessas pessoas. No fim, a felicidade é fácil apenas aos olhos dos outros e para o menino louro de olhos azuis, que nada escuta, nada fala, e não tem consciência alguma do que acontece à sua volta. A felicidade é fácil para quem é ignorante. Quem sabe, sofre as consequências do conhecimento.


 

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