Jovens de um novo tempo, despertai!, de Kenzaburo Oe

Se algumas personagens dos contos escritos por Kenzaburo Oe, escritor japonês ganhador do Nobel de Literatura em 1993, são dotados de certa dificuldade de externar seus sentimentos e preocupações – expostas através de uma narrativa cuidadosa –, uma faceta diferente, mas ainda assim semelhante a alguns de seus textos curtos, pode ser vista em Jovens de um novo tempo, despertai!O narrador/protagonista desse livro não conta com nenhum problema de expressão. Lidar com palavras, aliás, é o que o sustenta. Escritor conhecido e renomado do Japão, o protagonista decide a, finalmente, iniciar uma empreitada que vinha adiando: “Vou escrever o livro de definições do mundo, da sociedade e do ser humano nem tanto para dedicá-lo a meu filho, mas com o objetivo de purgar e de incentivar a mim mesmo.”

Esse filho é Iiyo, seu primogênito, um jovem de 19 anos com deficiência mental. Uma criança excepcional, para utilizar a expressão mais recorrente sobre a condição do garoto. A motivação de escrever esse livro de definições vem daquela preocupação constante dos pais sobre o que acontecerá com o filho depois de sua morte. No caso de Iiyo, uma tarefa mais urgente, especial, pensada para explicar a ele e a outros jovens como ele como o mundo funciona. Deixar para ele um manual prático e compreensível sobre o mundo que substitua o pai quando ele estiver ausente.

Uma característica encontrada em seus contos que se repete nesse romance são os elementos autobiográficos da trama. Kenzaburo Oe tem, como seu protagonista, três filhos, o mais velho deles excepcional. Assim como personagens já encontrados em suas histórias, esse homem era um jovem universitário estudioso da língua francesa, mas que agora concentra-se em autores ingleses – no caso desse livro, o autor faz um constante paralelo entre sua vida e a obra de William Blake que decide reler e estudar. E, como em outros textos, parece utilizar a literatura para purgar seus próprios medos e receios, sentimentos reprimidos e impensáveis, mas de uma maneira que o leitor não consegue divisar a linha que separa a ficção da realidade. Ou tudo parece ser pura ficção, ou tudo parece fazer parte da vida do próprio autor.

O livro de definições do narrador, ideia inicial que o impulsionou a escrever uma vez mais, acaba se tornando um livro de definições dele mesmo. Dele como homem, marido, escritor e, principalmente, como pai. Embalado pelas leituras dos poemas de Blake, o protagonista faz resgates da memória de sua juventude, ainda criança quando vivia em um vale no interior do Japão, aos tempos de universitário e estudante de Francês, as primeiras e dolorosas semanas após o nascimento de Iiyo e o choque que isso trouxe para ele e seu casamento. Ele trava um caminho de autoconhecimento motivado pelo filho excepcional, que inocente e desconhecido de sua própria força – um rapaz grande, gordo e forte –, o leva a repensar acontecimentos passados e reavaliá-los com novas e, como julga, mais corretas interpretações. E, claro, pensar na própria morte, o que ela significaria na sua família, a preocupação constante de educar o filho e dar todo o amor que ele precisa para que esteja preparado para sobreviver quando ele não estiver mais presente para ajudar.

Não apenas trazendo para o livro os versos de Blake e debruçando-se incessantemente em suas interpretações, boa parte da riqueza dessa trama está na interação entre pai e filho. As definições que ele consegue, até então, dar a Iiyo são mais consequência do acaso, de uma frase ou brincadeira memorizada por ele, do que frutos do intelecto do próprio escritor. Mas o que mais atrai a atenção para o leitor é como Oe diferencia o comportamento e o funcionamento da mente desse jovem debilitado pela deformidade dos seus outros filhos, das pessoas normais. Atormenta-o, em certa parte, não saber se Iiyo tem a capacidade de sonhar, algo que, para nós, é frequente e comum. Ele não tem certeza se o filho é capaz de fantasiar, imaginar, por mais que tenha um talento inconfundível para a composição, tratada por toda a família como algo prático, mais uma terapia além dos remédios que mantêm a concentração do garoto.

Além de tratar sobre as dificuldades de Iiyo e a relação familiar marcada pela sua presença e cuidados, outro aspecto forte em Jovens de um novo tempo, despertai! é o papel do escritor como figura que apóia e movimenta discussões sociais em seu país. O protagonista de Oe se vê constantemente atacado por colegas ou estudiosos por concentrar suas energias na educação do filho, nos cuidados a ele, e não lutando por alguma causa mais “nobre” ou “coletiva” que viesse a beneficiar o Japão. Como se ele fosse um escritor em cima do muro e alheio às questões que envolvem o país e se interessasse apenas no pequeno universo de sua família. Uma acusação que soa ao leitor como brutal e incompreensível.

Jovens de um novo tempo, despertai! deixa ao leitor uma mensagem de renovação, em que o protagonista chega à conclusão de que a morte, sua morte, é um momento em que os jovens, seus filhos, tomarão as rédeas de seu próprio futuro. Até Iiyo, com sua deficiência, é um desses jovens capazes de enfrentar seus “mercenários”, sobreviver a esse mundo sem sua presença constante. As diferentes histórias e memórias desse personagem criam um mosaico rico sobre a vida, as relações afetivas da família e o papel do escritor na sociedade em que vive.