Extraordinário, de R.J. Palacio

Extraordinário capa revisao 03Existe um grande apelo por trás de histórias de pessoas diferentes, algo que grita que “esse livro vai te fazer chorar”. Por “pessoas diferentes”, me refiro àquelas que possuem algo que as distinguem de todas as outras e afetam a sua convivência social. Pessoas que não são facilmente aceitas entre todos os outros, pois muitas barreiras foram impostas para que isso fosse possível. Pode ser a história mais simples, escrita da maneira mais agradável e acessível a todos, mas que mexe com alguma coisa ligada a emoção, aquele tipo de mensagem de superação que amolece o coração dos mais rabugentos. Só lendo a sinopse, fica bem claro que Extraordinário é uma dessas histórias.

O livro de R.J. Palacio tem todas aquelas características básicas de um young adult: frases curtas, muitos diálogos, tiradas bem-humoradas e personagens cativantes, ingredientes para um livro que entretém o bastante para a leitura ser rápida e prazerosa – o que não abre muito espaço para um desenvolvimento mais aprofundado da trama, mas esse não é o objetivo aqui. No caso de Extraordinário, assim como em A culpa é das estrelas, de John Green, ainda há um drama delicado que desafia a convivência harmoniosa do protagonista com o resto do mundo. August Pullman tem 10 anos, e é um menino normal. Brinca como qualquer garoto da sua idade, gosta de Star Wars e videogames, seu pai, mãe e irmã mais velha o amam, é inteligente e engraçado. Conhecendo apenas o que ele faz e o que gosta, não há quem diga que ele não seja comum. Contudo, o que o seu rosto apresenta é um obstáculo a ser superado não só por ele, mas por todos com quem convive.

“o universo não foi legal com auggie pullman. o que aquele garotinho fez para merecer essa sentença? o que os pais dele fizeram? ou olivia? uma vez ela mencionou que um médico disse aos pais dela que a probabilidade de alguém ter a combinação de síndromes que resultou no rosto do auggie é de uma em quatro milhões. então isso não faz do universo uma loteria gigantesca? você compra um bilhete quando nasce. e é só um acaso ter um bilhete bom ou ruim. é questão de sorte.”

Auggie é portador de uma síndrome que afetou a formação de seu rosto, e desde bebê passou por inúmeras cirurgias para minimizar os problemas causados por essa doença. Seus olhos não estão localizados na altura normal do rosto, mas no meio das bochechas. Seu nariz é largo demais, a boca apenas um risco em sua face, sua mandíbula teve de ser reconstruída com uma parte dos ossos de seu quadril. As orelhas parecem “punhos fechados” colados ao lado da cabeça, que possui grandes entradas nas laterais, como se tivesse sido esmagada. Mesmo com essa aparência “grotesca”, os pais de August fizeram de tudo para que ele levasse uma vida normal, mas com um porém: ele nunca havia frequentado uma escola. Afinal, o mundo não estava preparado para ver além da aparência do garoto. Mas já era hora de se acostumarem e conhecerem ele.

A narrativa de Extraordinário compreende o primeiro ano em que Auggie finalmente estudou em uma escola com crianças da sua idade. Consciente de que seu rosto causa espanto – e às vezes até horror – nas outras pessoas, ele possui maturidade suficiente para entender que muitas vezes essas reações são involuntárias, por mais que machuquem. O livro é formado por oito partes, divididas em curtos capítulos narrados pelas próprias personagens – ou melhor, apenas pelas crianças e adolescentes – com algumas variações de estilo e profundidade que acompanham a idade dos interlocutores. Começamos conhecendo August através dele mesmo, a partir do ponto em que descobre o plano dos pais de matriculá-lo em uma concorrida escola de Nova York. Ele sabe como será recepcionado, e sabe como será difícil, mas depois de fazer uma visita antecipada, em que foi recebido por três futuros colegas – Charlotte, Julian e Jack –, ele decide romper as fronteiras de sua casa e passar a viver como um garoto normal.

Desde as primeiras frases Auggie se mostra um menino espirituoso, que consegue rir da sua própria condição e absorver os pequenos sinais de espanto e repulsa. Mas, para um garoto de apenas 10 anos, é claro que nem sempre é possível aguentar algumas provocações. Julian não pareceu ser gentil logo que se conheceram. Charlotte só aceitou a tarefa por ser certinha demais. Apenas Jack e Summer, uma garota que conheceu no intervalo em seu primeiro dia, enxergaram além do preconceito e do medo e aceitaram August entre seus amigos. Crianças podem ser bem cruéis quando querem, e em um período em que estão começando a se dividir em grupos, construindo identidades, elas externam ainda mais o que pensam ser certo, errado, bonito ou feio com o intuito de se encaixarem em algum grupo, temendo serem julgadas por um pensamento diferente. Os primeiros meses de August em Beech Perp não foram nada fáceis por conta disso, mas conforme as outras personagens contam as suas versões dessa história e o conhece melhor, o leitor vê nascer nos colegas carinho pelo garoto e aceitação.

não, não é tudo um acaso. se fosse, o universo nos abandonaria à própria sorte. e o universo não faz isso. ele cuida das suas criações mais frágeis de formas que não vemos. como com pais que amam cegamente. e uma irmã mais velha que se sente culpada por ser humana com relação a você e um garotinho de voz grave que perdeu os amigos por sua causa. e até uma garota de cabelo rosa que carrega sua foto na carteira. talvez seja uma loteria, mas o universo deixa tudo certo no final. o universo cuida de todos os seus pássaros.”

 

Não só mostrar como aos poucos August conquista toda a escola, a autora também retrata alguns conflitos dos que vivem diretamente com ele, mostrando como a diferença de um pode afetar o cotidiano de outro. Como acontece com Olivia, irmã de August, que por mais que goste dele, sente em alguns momentos certo abandono por conta dos cuidados excessivos que os pais têm com o irmão. E principalmente com Jack, que perde seus amigos na escola por escolher continuar falando com Auggie, como se a deformação dele fosse contagiosa e pudesse passar para os outros. Os seus colegas não concebem que August é um garoto normal e também não aceitam quando outros concordam com isso.

Extraordinário é um desses livros que mostra um pouquinho do comportamento humano trazendo mensagens bonitas. De que os mais fortes protegem os mais fracos, e não se importam com o que é normal em uma aparência e o que é “extraordinário”. Que aprendem a lidar com o diferente a ponto de se surpreenderem com a lembrança do espanto inicial que tiveram. Lendo o livro, o leitor fica com a certeza de que no final tudo irá acabar bem para todos.