A máquina de fazer espanhóis, de valter hugo mãe

Capa de A máquina de fazer espanhóis

antónio jorge da silva tem 84 anos de idade quando morre sua mulher, laura. A morte não lhe era esperada, apesar da idade, mas sim porque pensava – ou assim desejava – de não ter que viver um dia sequer sem ela depois de passarem juntos 48 anos, terem dois filhos e viverem tranquilamente os tempos de ditadura em Portugal. A perda foi dolorosa, sentida com muita indignação, e o velho silva é colocado pela filha em um lar de idosos em Portugal chamado “idade feliz”. Coloco-os aqui assim, em minúsculas, como valter hugo mãe o faz em a máquina de fazer espanhóis, romance publicado no Brasil em 2011 pela Cosac Naify.

Esse foi o livro que causou tanto alvoroço em volta do autor quando esteve na Flip de 2011 e conquistou a todos com a emoção com que falou na mesa que dividiu com a escritora Pola Oloixarac. Emoção por estar no Brasil como um escritor convidado, para falar de seus livros. valter hugo mãe (que hoje já abandonou as minúsculas tanto na assinatura quanto nos romances mais recentes), nasceu em Angola, mas radicou-se em Portugual, onde atualmente vive.

No “feliz idade” silva não parece se esforçar para se adaptar aos outros internos ou abandonar a amargura sentida pela morte da esposa. Falta-lhe disposição para passar a velhice a rememorar bons momentos da vida ou criar novos. No lugar de sabedoria e respeito que se dão aos idosos, ele vê o declínio da saúde, a perda das faculdades físicas e mentais – à noite, ele imagina corvos e outros pássaros negros a atacarem-lhe na cama. Mas aos poucos, ele passa a construir amizades com alguns dos outros idosos, como o senhor pereira, e com médicos e enfermeiros, como américo e doutor bernardo. Os dias no lar se passam assim, observando uns aos outros, adivinhando-lhes as histórias e lembrando as suas próprias, ou analisando a condição de velho, esperando em um local específico a morte iminente. Mas silva, jamais esquecido da dor causada pela morte de laura, desfia páginas e mais páginas não de lamentação, mas de consciência da perda e da injustiça de ter que se manter vivo quando preferiria não estar.

“com a morte, também o amor devia acabar. acto contínuo, o nosso coração devia esvaziar-se de qualquer sentimento que até ali nutria pela pessoa que deixou de existir. pensamos, existe ainda, está dentro de nós, ilusão que criamos para que se torne todavia mais humilhante a perda e para que nos abata de uma vez por todas com piedade. e não é compreensível que assim aconteça. com a morte, tudo o que respeita a quem morreu devia ser erradicado, para que aos vivos o fardo não se torne desumano. Esse é o limite, a desumanidade de se perder quem não se pode perder.”

Dentro do “feliz idade”, silva e seus companheiros conhecem também esteves, o mais velho do asilo, prestes a completar 100 anos e personagem de um momento da história literária de Portugal. Diz-se, e eles acreditam, que esteves é o “homem sem metafísica” do poema de Fernando Pessoa, e ele passa a ser admirado pelos demais por ter convivido à mesma época, e por algumas vezes no mesmo lugar, que o grande autor português. A presença deste homem no lar leva-os, principalmente a silva, a filosofarem a velhice, o que lhes resta no fim da vida. Embora todo o livro tenha uma carga melancólica marcada pela morte e o medo de morrer, as conversas desses velhos são animadas, repletas de risos como se fossem jovens rapazes a praticar traquinagens escondidos. Riam-se da dona leopoldina e dona marta, duas velhas medrosas e malcriadas, dos médicos e enfermeiros, da fé de alguns na igreja – que silva deixou de ter quando seu primeiro filho morreu no parto – e de si mesmos.

O protagonista também apresenta, em sua narração em minúsculas pontuada apenas por vírgulas e pontos finais, lembranças de seu passado como barbeiro nos anos do governo ditatorial, em que ajudou um revolucionário a se esconder da polícia. É o momento do livro, junto com os discursos de um colega – outro silva, o “da europa”, enfermeiro do hospital onde laura morreu e que tempos depois se interna no “feliz idade” – discute-se os lados sociais e políticos das personagens. silva ressalta do cuidado e não se complicar à época, preocupado com a esposa e os filhos, evitando qualquer envolvimento ou opiniões políticas que pudessem indispô-lo com o país, fato que o levou, anos depois de salvar o jovem revolucionário, a denunciá-lo para a polícia. Com isso em mente, escuta meio indisposto aos discursos de esquerda do outro silva, com um certo gosto de arrependimento, mas ainda assim certo de que fez o melhor pela sua família.

“olhei a minha filha e perguntei-lhe, como é que tu achas que se convence um velho como eu do valor da vida depois da morte da tua mãe. como achas que se justifica a vida para alguém depois dos oitenta anos quando perde a mulher que amou e com quem partilhou tudo durante meio século.”

É irônico o nome dado ao asilo, “feliz idade”, onde a maioria dos internos está longe da felicidade e daquilo que ainda dizem ser a “melhor idade”. Como pode ser essa a feliz idade, em que o corpo e a mente enfraquecem e se assiste às pessoas morrerem? Ninguém espera ter que terminar a vida vivendo dessa forma, em um lugar onde é difícil enxergar a animação e o acolhimento, longe da família e de amigos. Sempre pesa a melancolia do ambiente, a decadência física das pessoas, que precisam de um enfermeiro para fazerem suas necessidades mais básicas. Mas há maneiras de mudar esse cenário, como silva descobre, ironicamente celebrando a vida que ainda resta, por mais solitária, triste e capenga que ela seja. É possível conhecer algum novo aspecto da vida com aqueles que também esperam pelo fim dela.

a máquina de fazer espanhóis é uma leitura emocionante, mas sem precisar arrancar do leitor lágrimas ou pena. É uma emoção fincada na razão, na lucidez com que, durante o dia, silva detalha a sua inconformidade com a morte de laura e sua permanência na memória, com ainda ter a obrigação de continuar vivo e superar a perda.