Meu coração de pedra-pomes, de Juliana Frank

Capa de Meu coração de pedra-pomes

Lawanda tem 19 anos de idade, um emprego de faxineira num hospital, uma coleção de besouros e uma deficiência mental. Que deficiência é essa não sabemos ao certo, mas em um momento específico ela se diz “meio autista”. O que importa é que ela é capaz de limpar cada centímetro do hospital no turno da noite, que inicia às 18h todos os dias. Quando não está lá, está em seu quartinho alugado e pago pela tia religiosa. Nesse quarto ela tem uma “cama de meteorito”, uma poltrona e um armário, onde guarda nas gavetas suas caixas de besouros gordinhos e rabugentos e uma coleção de macumbas feitas com suas calcinhas, que possui borboletas mortas costuradas nelas com inúmeros desejos. É essa, em resumo, a sua vida.

As macumbas que faz são para que seu amante, José Júnior, se separe da mulher, lhe diga que a ama e case com ela. Além dessa transgressão, Lawanda cultiva um negócio paralelo dentro do hospital, em que concede pequenos desejos aos pacientes em troca de ninharias: um saco de batatas-fritas, uma lata de refri, quem sabe algo mais perigoso, como permitir uma visita noturna. São esses pequenos gestos desconhecidos e irritantes que movimentam a vida da jovem, que tem sempre como alento a possível rotina que poderia ter em um bordel. Enquanto existir um bordel, nada estará completamente perdido.

É uma pena não poder mostrar, ou, pelo menos, compartilhar minhas borboletas com José Júnior. Mas essas calcinhas só podem existir durante as ausências do meu amante. Por isso, quando sei que não vou encontrá-lo, uso todas ao mesmo tempo, descombinadas. E caminho rebolando, como qualquer mulher que aceitaria ser infeliz para sempre por ser bem penetrada.

Juliana Frank constrói a narrativa em primeira pessoa revelando os pequenos delitos de sua protagonista, uma mulher cujo coração de pedra absorve os desejos dos outros – por isso é de pedra-pomes, por se importar ao mesmo tempo em que não se importa. Para o leitor, a rotina de Lawanda – que na verdade se chama Wanda, mas sua aversão a nomes curtos a fez adicionar um “La” em sua identidade inventada – é por vezes melancólica e monótona demais. Ela não possui dinheiro e nem ambição, a não ser aquela de ter José Júnior só para si, crente de que uma de suas macumbas um dia surtirá efeito. Mas sua alegria está nas pequenas conquistas diárias, conquistas essas provenientes de suas desobediências minúsculas, como chegar pontualmente atrasada ao trabalho, não lavar a roupa ou esconder pequenas sujeiras no ambiente limpo do hospital em cantos obscuros onde apenas ela terá acesso. Reencontrar essas bactérias dias depois e ver que estão intactas às limpezas dos outros turnos lhe dá um profundo prazer.

Lawanda vive em um mundo alheio à realidade, que é muito bem retratado pela autora através da fala que cria para a personagem. É nessa linguagem que consiste a beleza do romance, palavras que jorram da protagonista sem filtro ou sentido imediato, com seus erros gramaticais, palavrões, ideias absurdas e referências a sexo que não soam artificiais ou forçados para causar algum tipo de impacto ou espanto. Lawanda tem tudo para ser uma personagem caricata e inverossímil, mas seu jeito louco e contraditório de falar e a maneira com que enxerga a vida convencem o leitor de que sua loucura merece ser observada.

Às vezes tenho a sensação de hibernar. Gosto de idealizar o mundo com hibernação. As pessoas dormiriam durante meses e isso não seria um coma. Seria natural. Um dia antes do casamento, a noiva hiberna. Fazer o quê? Desmarcar. Para as lágrimas do noivo, sempre prostrado junto à cama, esperando por sua bela prometida vagina adormecida. A moça acordaria com os olhos grudados de remela, se movimentaria como uma aleijada e diria: “Este marido não serve. Traga outro”. Seria comum mudar de ideia durante o sono. E ninguém discutiria.

Uma mudança brusca de ideia também ocorre com Lawanda. Quando suas macumbas começam a dar certo, subitamente ela perde o interesse pelo “Xosé Xúnior”, como zombeteiramente passa a chamá-lo. Ele não é mais o homem dos sonhos que passaria os dias inteiros com ela. Agora ele é só um homem babão e burro que acredita em suas histórias absurdas. Nem o sexo é mais necessário. Isso mostra como Lawanda é inconstante, sem objetivos ou rumos a tomar. O leitor não é capaz de pensar em um final feliz para ela, em que ela agiria como uma pessoa normal ou sobreviveria por conta própria. Cada cenário projetado mostra Lawanda em maus apuros, ou com uma existência ainda mais depressiva. Talvez seja isso mesmo que ela espera para si: viver perseguindo objetivos e descartá-los assim que eles se concretizam.

Ouço atenta os ensinamentos celestiais e depois me tranco no meu quarto para fazer macumbas com toda a força do meu coração de pedra-pomes que pensa que pensa.

Como uma faxineira de 19 anos poderia falar com tal desenvoltura e profundidade sobre a sua vida já arruinada? Acredito que é aí que mora sua loucura, ou sua deficiência: pensar demais. Pensar sobre cada minúcia da vida. Pensar e observar incansavelmente a vida através da janela de seu quarto preferido do hospital, pensar desde os segundos que antecedem o despertar para um dia novo, e continuar imaginando coisas absurdas até em seus sonhos – em que sempre está transando com algum homem já morto. Lawanda compreende e abraça seu tormento. E o que mais ela faria enquanto esfrega o chão do hospital além de pensar até atingir as mais esquisitas conclusões?

Meu coração de pedra-pomes não fornece nenhuma resposta sobre a vida e o futuro da protagonista, e me pergunto se isso é um artifício para despistar o leitor sobre a sua conclusão ou se Juliana Frank apenas não encontrou uma solução para Lawanda. Seja qual for objetivo, nenhum deles é prejudicial ao romance. Apenas mostra que para a história dessa mulher, qualquer conclusão seria inútil.


 

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