Todos nós adorávamos caubóis, de Carol Bensimon

Todos nós adorávamos caubóis

Existe um fetiche por trás das road trips de filmes de Hollywood. Nelas não há filas e o incômodo de uma rodoviária ou aeroporto, não existem atrasos, pois sendo um viajante de carro sem destino você provavelmente não se importa com o tempo da viagem, e geralmente não existem congestionamentos – pois pode-se seguir por caminhos alternativos, afastados, desconhecidos, onde há só o carro e a estrada. Tudo isso dá uma sensação de imensa liberdade, você não tem destino definido, pode sair dirigindo a hora que quiser, pode mudar de ideia no meio do caminho e alterar todo o seu trajeto. Mas a maior liberdade está no fato de que você pode fazer uma road trip: largar por alguns dias ou semanas trabalho, aula, família e todos os problemas que existem e desfrutar da solidão da estrada, correndo o risco de viver uma experiência única ou passar por momentos de tédio absoluto. Mas não importa, ainda sim, prevalece o fato de que você é livre para fazer isso. Esse foi o motivo número um de eu começar a ler Todos nós adorávamos caubóis, terceiro livro de Carol Bensimon.

A viagem de Carol não é igual àquelas que os filmes tanto exploram. Não há loucuras ininterruptas pelas ruas das cidades pelas quais os viajantes passam, e não é protagonizada por homens. A autora deixou a sua viagem pelo interior do Rio Grande do Sul nas mãos de Cora, a narradora, e Júlia, duas amigas dos tempos da faculdade em Porto Alegre. A viagem marca o reencontro das garotas quatro anos após uma briga que as deixou incomunicáveis por quatro anos. Cora largou a faculdade de jornalismo na capital gaúcha para estudar moda em Paris, e Júlia foi terminar sua graduação em Montreal, no Canadá. Nos dias modorrentos no quarto de Cora ou na pensão de freiras em que Júlia, menina do interior, morava, movidos a discos do Led Zeppelin, ambas sonhavam com uma road trip pelo estado.

Mas o “plano da viagem sem planos” nunca passou do papel para a realidade, e a faísca causada pela ideia logo se apagava. Agora, quatro anos depois da separação, Cora finalmente tira o carro da garagem da mãe e parte para a estrada sem plano algum, sem celular, sem GPS, apenas com Júlia e um mapa. Assim, alternando a narrativa entre os relatos da viagem e acontecimentos do passado, Carol vai montando a sua aventura interior por dentro do Rio Grande do Sul. “Todas as ótimas ideias já pareceram más ideias em algum momento.”

O reencontro com Júlia poderia não ser uma ótima ideia, pois Cora ainda sente certo desconforto por causa da briga com a amiga. Amiga que, conforme o leitor vai sabendo, era muito mais de que uma colega da faculdade. Cora, ainda na primeira metade do romance, esclarece a sua sexualidade e revela a relação que mantinha com Júlia, com transas escondidas em motéis ou banheiros públicos, que eram logo esquecidas pela garota de Soledade. Como se sua relação com Cora fosse apenas casual, sem a profundidade de um amor verdadeiro e de um desejo de passar o resto da vida junto com ela. Já Cora não escondia de ninguém as suas preferências e sua ligação com Júlia:

Com os garotos, eu ficava por inércia. Com as garotas, por encantamento. Com os garotos, tudo transcorria como um roteiro de comédia romântica para grande público (salvo que eu estava justamente fingindo o papel que me cabia). Com as garotas, tudo começava, continuava e acabava no mais puro melodrama.

A viagem de Cora e Júlia começa carregada pela tensão do reencontro, com a necessidade de fazer tudo parecer natural, como se nada tivesse acontecido. Carol ambienta muito bem esse clima que paira entre as duas mulheres, fazendo Cora expressar seu desconforto e incerteza nos momentos certos – como quando ela pressente que Júlia falará do namorado (ou ex-namorado?) que Júlia deixou no Canadá, às vezes até incentivando a amiga a tratar de determinados assuntos com uma naturalidade forçada. Aliás, é preciso dizer que Cora é uma personagem muito observadora, que pouco interage com aqueles que estão à sua volta, com exceção de Júlia. Isso não significa que ela ignora o mundo, apenas que ela está concentrada observando-o, confessando suas impressões ao leitor, justificando o seu pensamento.

A tensão de Todos nós adorávamos caubóis não está apenas na relação que há entre as duas protagonistas, mas também há conflitos familiares que envolvem tanto Cora quanto Júlia. A começar pela opção sexual de Cora, dolorida, mas prevista, pelos seus pais. E neste momento específico da viagem, ela ainda tenta lidar com o fato de que seu pai, casado com uma mulher que tem quase a sua idade, vai ter um novo filho – aliás, esse é o motivo de Cora estar no Brasil, para acompanhar o nascimento do irmão, do qual fugiu para fazer a viagem com Júlia. Já esta guarda segredos que marcaram a sua infância, coisas sobre sua família que não chegou a revelar à amiga, de quem sempre manteve sua intimidade afastada. E assim, entre o remorso de ter evitado encontrar o pai e seu novo irmão e o desconhecimento do passado de Júlia, Cora vai sentido crescer dentro de si mesma o desejo de que algo aconteça com a amiga, que resolvam pelo menos o problema que há entre as duas – se é que poderia ser chamado de problema.

Eu ia ficar a noite toda esperando por algo que não aconteceria nem se eu aguentasse uma semana inteira sem dormir. Eu ia me apaixonar por pessoas que mudavam de ideia rápido demais. Dos acertos faziam parte os erros, e eu não me importava de chorar pelas coisas que eu havia escolhido, porque, por mais dura que fosse a queda, sobrava a sensação de que até elas tinham lá sua beleza.

A passagem acima diz muito sobre a maneira de Cora enxergar o que estava acontecendo, ou o que estava para acontecer. Não importa a dor que isso causasse, se a viagem com Júlia desse certo o não. Pelo menos elas fizeram isso juntas. São interessantes essas amizades marcadas pela tensão sexual. As expectativas que um tem com o outro são maiores, esperam-se coisas maravilhosas e, por isso, quando essas coisas não acontecem, a decepção é maior. E quando acontecem, é só o que interessa no mundo.

Inevitavelmente, a relação com Júlia é restabelecida, apesar de as duas terem que voltar cada uma para o país onde agora moram, e é apenas isso o que importa para Cora. Em certo momento da viagem, onde uma nova briga eclode, Júlia acusa Cora de se achar superior a todas as outras pessoas, de olhá-las de cima, como se não fossem legais, modernas ou inteligentes o bastante para conversarem com ela – julgando até que sua sexualidade fosse uma maneira de manifestar esse seu esclarecimento intelectual. Em alguns momentos Cora pode passar realmente essa impressão, mas não parece ser algo que ela faça conscientemente. Durante toda a narrativa, percebe-se como Cora está interessada apenas em observar a paisagem que cruza com o carro enquanto acompanha cada movimento de Júlia. É Júlia quem ela quer. É por ela que Cora não está com sua família esperando o nascimento do novo irmão, e sim no meio do nada do Rio Grande do Sul, aproveitando os dias que tem ao lado de Júlia.

Terminei a leitura de Todos nós adorávamos caubóis totalmente envolvida com a relação entre as duas protagonistas de Carol Bensimon. Me senti muito mais ligada à Cora, à sua maneira de lidar com suas relações – meio fugindo, mas sabendo que em algum momento terá que enfrentar aquilo que a preocupa –, com sua maneira de ver o mundo e observá-lo. E, além do mais, o que é mais importante na obra de Carol é o protagonismo que a autora dá à mulher durante a trama. Os homens, apesar de aparecerem com frequência na vida das garotas, não são tão determinantes para a história – elas não dependem de maneira alguma deles, podendo deixá-los quando quiserem. É Cora e Júlia e o que elas têm juntas que interessa, e é muito bom ver na literatura brasileira duas mulheres fortes e independentes andando sozinhas pela próxima cidade pequena com nome engraçado que encontrarem no mapa.


 

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