Quiçá, de Luisa Geisler

quicaEu tenho um celular da moda. Roupas da moda. Talvez pudesse ter um carro da moda, um apartamento decorado por um decorador famoso, livros de design na mesinha de centro, a televisão mais cara, com mais polegadas e mais funções extras além da tradicional função de “ver TV” que provavelmente eu deixaria ligada a tarde inteira sem mal olhar para ela. Poderia ter essas coisas se economizasse, ou se eu me importasse com elas. Mas muita gente se importa, principalmente hoje. Ter é ser. É status. E há quem dê mais valor a isso do que às coisas que realmente são importantes.

Clarissa é uma menina de 11 anos muito mais madura do que sua idade aparenta. Ela é a filha única de Lorena e Augusto, um casal de publicitários donos de uma agência que moram no bairro mais bem localizado da maior cidade do país, tem o melhor carro, os melhores gadgets, os melhores amigos ricos e a melhor TV “Full HD, conexão à Internet, com 3D, 52 polegadas” (embora nunca estejam em casa para usufruir das centenas de canais da TV a cabo nesse lindo aparelho). Clarissa é bem solitária, tem poucos amigos na escola, está um pouco acima do peso e usa roupas estranhas, maiores para o seu tamanho, todas presente de uma mãe que não sabe nem qual é a numeração das calças da filha. Ela esquenta sua comida sozinha, brinca com seu gato, Zazzles, e assiste a programas na televisão “Full HD, conexão à Internet, com 3D, 52 polegadas” (prefere os documentários, nunca aproveita a tal conexão à internet) até a hora de dormir, e talvez nem veja seus pais no fim do dia. Clarissa é jovem demais para ter a vida medíocre e triste que Luisa Geisler narra em Quiçá, seu primeiro romance.

Até que um primo seu, Arthur, de 18 anos, se muda para sua casa após uma tentativa de suicídio. O jovem deixa a pequena Distante, cidadezinha do interior onde vivia com a mãe, para se recuperar e terminar os estudos em São Patrício, a quinta maior cidade do mundo, aquela em que tudo acontece e todos são aquilo que possuem. No início, Clarissa se mostra meio arisca com o primo. Ele fede a cigarro, tem tatuagens, fala de um jeito estranho. Ele é estranho. Ela sempre recusa os convites dele para sair e encontrar seus amigos. Arthur tenta convencê-la: pare de estudar, se dê um descanso, você precisa conhecer pessoas, você não tem amigos. A mensagem entra na cabeça de Clarissa até que ela topa, e Arthur se torna a pessoa mais importante para a sua vida – mais até que os seus pais.

Em Quiçá, Luisa Geisler mescla três narrativas diferentes para abordar a amizade entre os primos e o descaso dos pais de Clarissa com a sua criação. Uma delas é o relato de um almoço de Natal na casa dos avós em Distante, com toda a família reunida, que abre e encerra cada capítulo sobre Clarissa e Arthur. A segunda é a história dos dois primos, que detalha a maneira com que eles se aproximam e como o jovem vai apresentando a vida e as pessoas para Clarissa. A terceira, por fim, é uma série de histórias pingadas, não necessariamente ligadas entre si ou com a história principal, que mostram alguns aspectos da vida que podem ser meio complicados de encarar – crescer, ser aceito, lidar com uma gravidez, com o trabalho, com a morte etc. Com tudo isso, o romance de Luisa tem a força necessária para encantar o leitor com suas personagens complexas e perdidas no mundo em que vivem.

“A ONU estima que 4,4 pessoas nasçam por segundo no planeta, e 1,8 pessoa morra por segundo no planeta.

Tique, 4,4

Taque, 1,8

E agora você é mais velho do que jamais foi.

Tique

Taque

E agora você.”

Luisa usa um artifício nos capítulos sobre Clarissa e Arthur que me agradou bastante: ligar através de ações ou frases os tempos e espaços diferentes que aborda. Como uma palavra ou atitude que te faz lembrar algo, ela mescla o passado, os dias de Arthur na casa de Clarissa, com o presente, o almoço de Natal, indo e voltando na história sem prejudicar a fluidez da narrativa. Entre esses tempos, então, o leitor vai percorrendo a história da menina, conhecendo como ela foi se afeiçoando ao primo, confiando nele, procurando ser mais parecida com ele. E como ela desconfia, se irrita e briga com Arthur quando sente que sua rotina está sendo alterada demais, influenciando além do esperado o seu desempenho na escola. Antes de Arthur, tudo o que existia era a escola, as notas altas que conquista procurando chamar a atenção dos pais, que continuam alheios à filha.

É esse alheamento o que mais me chamou a atenção durante a leitura, mais do que a amizade construída entre Arthur e Clarissa – por mais que eu tenha apreciado essa relação e ficado apreensiva quando a menina era deixada de lado também pelo primo, ou se sentia brava com ele. Sempre quando cita a televisão da casa da família, Luisa repete os seus atributos (Full HD, conexão à Internet, com 3D, 52 polegadas), assim como faz quando apresenta algum produto novo que a família adquire – como o apartamento decorado pelo arquiteto famoso, o carro do ano, as roupas de marca. Ela deixa bem claro que tipo de pessoas são Lorena e Augusto, por que eles trabalham tanto e o que lhes interessa com esse trabalho: o status, a sensação de pertencer a uma classe privilegiada, de estarem rodeados por pessoas ricas e brilhantes e de poderem ter aquilo que querem. Clarissa, para eles, tem a mesma importância que Zazzles, parece um animalzinho de estimação que eles alimentam com comida congelada e que vive em um quarto cheio de brinquedinhos e coisas modernas para ela se distrair sozinha. Evidenciar essa superficialidade no tratamento que os pais dão à única filha é uma tarefa dolorosa e difícil que Luisa faz muito bem. Conhecendo a condição sentimental e psicológica em que a menina vive, Arthur nunca é visto como um garoto irresponsável que vai corromper a criança inteligente levando-a para o mau caminho, por mais que todas as atitudes dele indiquem isso. Ele é quem vai ensinar de verdade a ela como se deve viver, que há algo além do sucesso nos estudos ou no trabalho.

“Quiçá fosse a falta do que fazer daquela noite, o tédio, a solidão que não incomodava nunca, estava cercada de idiotas, quiçá a saudade, quiçá a verdade, mas Clarissa sentou-se ao lado de Arthur.”

Além de conter personagens bem construídos e de explorar esses dramas internos, Quiçá ainda lida com tramas familiares que se escondem nas entrelinhas do romance, coisas não ditas ou ignoradas propositalmente – como algumas famílias gostam de fazer com temas que são tabus, ignorar até se convencerem de que os problemas não existem. Há segredos na vida dessa família de Distante, e o que mais aumenta o impacto desses segredos no leitor é a maneira com que eles aparecem: escondidos em um parágrafo, em algum comentário, em algum olhar trocado entre as personagens que te leva a preencher os espaços vazios da história com as pistas dadas por Luisa.

Estava curiosa para ler alguma coisa da Luisa Geisler, e não sei por que demorei tanto para fazer isso. Quiçá é inteligente na medida certa, nem pretensioso e nem raso, e sua autora foi cuidadosa na construção das personagens – tão reflexivas e ativas, preocupadas em sobreviver ao cotidiano familiar. O mesmo cuidado foi empregado na estrutura do romance, que dá conta de mostrar toda essa relação complexa que existe entre primos tão diferentes em idade e em comportamento. Em tempos em que ter ou parecer é mais importante do que realmente ser, Quiçá é uma leitura mais do que relevante.