Conversas entre amigos, de Sally Rooney

Capa de Conversas entre amigos

Conversas entre amigos (tradução de Débora Landsberg) é o romance de estreia de Sally Rooney, uma irlandesa de 26 anos que chamou atenção com sua história sobre os relacionamentos contemporâneos. Frances, de 20 anos, é uma estudante e poeta que se apresenta no círculo intelectual de Dublin com sua melhor amiga e ex-namorada, Bobbi. A atuação das duas no palco chama a atenção de uma jornalista de renome, Melissa, que está fazendo um perfil das jovens novatas da cena cult da cidade. As entrevistas que conduz com as garotas levam a uma aproximação com a vida íntima da própria jornalista, casada com Nick, um ator de cinema relativamente famoso, mais pela beleza do que pela capacidade de atuação.

É através de Frances que este romance confessional se desenrola. Ao entrar na vida de Melissa e de Nick, uma realidade tão distante daquela em que vive, duas coisas se tornam bem claras para ela: que Bobbi e Melissa ficaram rapidamente íntimas, e que ela se sente atraída por Nick, sendo que nunca teve uma relação com um homem antes.

“Meu ego sempre foi um problema”, confessa a narradora, sempre em busca da aprovação do público e de Bobbi. “Sabia que talento intelectual era moralmente neutro, no máximo, mas quando coisas ruins me aconteciam, me consolava pensando em como eu era inteligente. Quando era criança e não conseguia fazer amigos, fantasiava ser mais inteligente que todos os meus professores, mais inteligente do que qualquer outro aluno que já tivesse passado pela escola, um gênio escondido entre pessoas normais.” Por mais que tente, essa técnica não parece funcionar mais. Frances apresenta uma constante insegurança quanto a sua escrita e quanto a ela mesma depois de conhecer Melissa e Nick. Enquanto Bobbi é extrovertida, o verdadeiro talento no palco durante as apresentações, Frances é muito mais retraída. Bobbi é seu apoio, quem ajuda a sustentar sua vida social, e sua inteligência pouco importa nessas ocasiões. Frances sente que Melissa não gosta tanto dela, e nos jantares na casa grande e bem decorada do casal – tão diferente de seu quartinho de estudante –, se sente mais à vontade com Nick, que, nesse círculo de amigos intelectuais da esposa, está tão fora d’água quanto Frances.

A narradora percebe como Nick não parece se encaixar nesse cenário, e se sente levemente superior a ele por isso. Ela esperava dele superficialidade, mas encontra em Nick algo mais profundo. Das trocas de e-mails que começaram com convites para assistir a uma peça em que Nick atua, começam pequenos flertes por mensagens, onde ele revela certa admiração pelo talento – apesar de nunca ter visto ela se apresentar – e juventude de Frances, enquanto ela começa a se sentir lisonjeada pela atenção que está recebendo de um homem bonito, um pouco mais velho e com mais dinheiro do que ela jamais pensou em ter.

A relação, e o subsequente caso, que Frances constrói com Nick vai abalar, claro, sua relação com Bobbi e Melissa. Mas boa parte do conflito que Sally Rooney cria acontece dentro da cabeça da própria narradora: Frances esconde da amiga o que está prestes a acontecer – ou já acontecendo – com Nick, negando qualquer indício de que esteja interessada por ele. Melissa ora aparece como uma megera sem sentimentos, uma mulher ambiciosa que poderia ser capaz de pisar em cima de Frances como se ela fosse uma formiga, que não dá valor ao marido e se importa apenas com seu trabalho; ora revela alguma suavidade em sua personalidade. Frances tanto admira quanto inveja Melissa, e age como se a jornalista não merecesse a vida que tem – quem merece é ela, apesar de muitas vezes se sentir menos bonita e talentosa que a jornalista, tendo apenas a juventude como vantagem.

Conforme as conversas e os encontros entre Frances e Nick evoluem, mais difícil fica para ela encarar o que está acontecendo na sua vida. Seus pais estão separados, vivendo numa cidade próxima a Dublin, e as visitas são raras, principalmente para o pai alcoólatra. Sem dinheiro, ela depende da mesada que recebe, mas não consegue estabelecer uma conexão mais forte com o pai: a ideia de o visitar a enche de repulsa e pena, e por mais que veja o estado em que ele vive, é incapaz de fazer alguma coisa para ajudá-lo – e sua mãe também não está inclinada a fazer alguma coisa quanto a isso. Frances passa por aquela fase em que se acha mais adulta do que realmente é, sem condições de se manter sozinha, mas vivendo como se tivesse. Ela também tem poucas perspectivas de ganhar dinheiro por conta própria: tem pouquíssimo interesse pelo estágio não remunerado que conseguiu numa agência literária, e não pretende continuar lá ou procurar qualquer outro emprego depois que ele acabar. Nick acaba sendo, de alguma forma, seu jeito de ignorar a própria vida e suas responsabilidades. Mas essa relação se mostra mais complicada do que gostaria.

“Ele tinha mais respeito por Melissa do que por mim? Gostava mais dela? Se ambas fôssemos morrer em um edifício em chamas e ele só pudesse salvar uma de nós, será que era óbvio que salvaria Melissa e não eu? Era praticamente diabólico transar com alguém que mais tarde deixaria você morrer queimada.”

O que fica bem explícito na relação entre Frances e Nick é a incerteza quanto ao que um espera do outro. Frances considera qualquer ato ou afirmação de afeto uma fraqueza. Revelar seus sentimentos para alguém, admitir estar apaixonada sem saber se será correspondida, está fora de questão. O medo da rejeição, combinada com seu ego, não permite que ela admita o quanto está se envolvendo com Nick, o quanto gostaria de fazer parte da sua rotina. Pessoas legais não se importam com sentimentos, pessoas admiráveis não se sujeitam a eles, pois têm controle total sobre o que desejam, e é esse o tipo de imagem que ela tenta transmitir. Frances permanece nessa negação para não se sentir diminuída, já que não percebe em Nick qualquer sinal de laços emocionais da parte dele. Suas declarações para Frances, por mensagens ou pessoalmente, são veladas, há certa indiferença no modo em que ele age, e Frances faz o mesmo jogo, revela pouco, esconde qualquer sinal de que o que Nick pensa dela a afeta de alguma forma. Aqui Rooney retrata muito bem o tipo de relação que costumamos construir hoje, baseada no que as pessoas querem ser, na impressão que querem passar, com medo de revelarem suas fraquezas. Mas também há esse vazio no envolvimento meramente casual, e uma hora ou outra os desejos transbordam e você fica carente de afeto genuíno, que se não saciado faz esse envolvimento se tornar algo doloroso.

Tanto Frances quanto Nick são duas pessoas que se deixam submeter às vontades dos outros. Não importa o que Bobbi diga a Frances, os julgamentos que ela faz da amiga, as acusações de ter ferido seus sentimentos, Frances sempre admite a culpa – que nem sempre é dela. Ela não se permite ficar chateada com Bobbi, sua aprovação é preciosa demais, e mesmo se sentir a mais leve raiva da amiga, ela se culpa por essa raiva. Bobbi claramente não leva em conta que também machuca Frances, como se não lhe devesse nada. Na relação que mantêm, é Bobbi quem demanda mais atenção, que quer ser mais paparicada, que quer controlar a vida de Frances – mas Frances não nota isso, ou não se importa. Já Nick não vislumbra uma vida longe de Melissa. O temperamento tortuoso da mulher e suas próprias escapadas amorosas não abalam o amor que ele alega ter por ela – e o motivo dele estar com Frances é que, pelo menos em um aspecto da vida, é ele quem dá as cartas. A relação de Frances e Nick parece muito mais equilibrada quando vista dessa forma: Bobbi suga a atenção e a afeição de Frances, Melissa comanda e toma as decisões da vida de Nick. Mas juntos, Frances e Nick conseguem se afastar um pouco disso, ficam livres da influência de Bobbi e Melissa, pelo menos por algumas horas.

A questão com que a protagonista se debate é: como equilibrar tudo isso? Nem Frances nem Nick querem magoar aqueles que amam, mas também não querem abrir mão da ligação física e emocional que criaram. É como se tivessem encontrado um escape para suas vidas, longe e perto ao mesmo tempo das pessoas que mais demandam emocionalmente. É mais complicado do que um simples caso ou paixonite. Há uma necessidade emocional que eles não encontram em seus parceiros/amigos, mas também nenhum quer abrir mão da vida que já construiu ao lado dos outros. Como Frances diz no final: “Você passa por algumas coisas antes de entendê-las. Você não pode ser sempre racional”, e, racionalmente, o modo que eles atuam e as escolhas que fazem não parecem fazer sentido algum.

Uma das coisas que mais gostei em Conversas entre amigos é como Rooney consegue captar bem as relações de hoje, mediadas pela internet e todas as opções que ela nos dá. É com naturalidade que suas personagens pesquisam seus interesses amorosos no Google, escolhem o que assistir na Netflix, trocam mensagens quando entediadas numa festa. Não é aquela coisa forçada de “olha aqui, este é um romance sobre os tempos modernos, aqui está algo tecnológico”.

Este é um tempo de muita facilidade de comunicação, mas que não diminui os ruídos na interpretação do que o outro está falando. Também é um tempo com excesso de opções, tantas que é difícil escolher que tipo de comida comer, qual filme ver, que show assistir, qual festa ir e com qual pessoa sair. Temos acesso às vidas de outras pessoas sem fazer parte ativamente delas, e desenvolvemos uma ansiedade para ser como aqueles que admiramos. Na indecisão sobre o que se quer fazer da vida, ou com quem se quer estar, não admira que tanto Frances quanto Nick acabem ficando em cima do muro entre tentar algo novo ou permanecer com aquilo que já é familiar. Nick pode estar vivendo uma pré-crise da meia-idade que ainda nem chegou, mas Frances está só começando a descobrir quem quer ser na vida – e o que quer dela.

Em Conversas entre amigos, Rooney consegue contar uma história autêntica, descrevendo bem aquilo que uma pessoa da sua idade, da minha idade, está sentindo – a ansiedade e a insegurança que se misturam com o sentimento de que o mundo nos deve algo, de que somos merecedores de uma vida confortável e invejável. Ela consegue encontrar as palavras certas para descrever esse turbilhão de sentimentos que tentamos tanto ignorar.

“Talvez tê-lo como testemunha do quanto os outros me aprovavam, sem correr nenhum dos riscos necessários para conquistar a aprovação pessoal de Nick, tenha me dado a sensação de que era capaz de conversar com ele de novo, como se eu também fosse uma pessoa importante e cheia de admiradores que nem ele, como se não houvesse nada de inferior em mim. Mas o reconhecimento também pareceu fazer parte da apresentação em si, a melhor parte, e a mais pura expressão do que eu estava tentando fazer, que era me transformar nesse tipo de pessoa: alguém digna de elogios, digna de amor.”

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