Roupas sujas, de Leonardo Brasiliense

Capa de Roupas sujas

Há famílias onde nada é segredo. Pais e filhos conversam abertamente sobre o que estão sentindo, sobre seus problemas mais complicados e íntimos, e tudo se resolve numa boa conversa. Eu não vim de uma família assim, e, ainda hoje, não sinto que posso falar sobre qualquer coisa com meus pais, tios, avós ou primos. Pode ser uma forma de autoproteção, de evitar reprimendas e julgamentos, ou por achar que vivo uma realidade distante da deles e por isso não haveria compreensão. Assim, nem as coisas mais mundanas são ditas.

Minha família é formada por pessoas que dedicaram boa parte da vida ao trabalho duro, daquele que te deixa tão cansado no fim do dia que não sobra tempo ou forças para pensar sobre o que acontece dentro da cabeça – era assim até pouco tempo, pelo menos, até algumas mudanças e perdas derrubarem algumas barreiras sentimentais dos meus tios e avós. Por mais que tenha crescido com muito mais mordomias do que os meus pais, sem as obrigações domésticas que eles tiveram desde pequenos, eu desenvolvi esse silêncio sobre o que acontece comigo e o que estou sentindo. É bem provável que seja por isso que eu tenha gostado tanto da leitura de Roupas sujas, de Leonardo Brasiliense.

É um romance bem curto e fragmentado sobre uma família do interior do Rio Grande do Sul nos anos 1970, que vive da plantação na roça e vê sua tranquilidade abalada quando a matriarca morre durante o parto do oitavo filho. “Meu pai teve oito filhos. Aquilo, na roça, na época, era necessário”, afirma o narrador Antônio, um dos caçulas, ao lembrar da morte da mãe. Cada filho tinha uma função na casa e no campo: Geni, a mais velha, com quase 20 anos, assumiu o comando da cozinha; os gêmeos Estevam e Ferrucio ajudavam o pai na roça; Maria Francesca cuidava da limpeza da casa; e Valentina, 12, e Antônio, que na época tinha oito anos, tomavam conta de Pedro, o bebê. Assim como em qualquer outra família de colonos, o trabalho comandava a rotina do lugar.

A objetividade do campo é bem mais fácil de entender e de lidar do que a subjetividade dos sentimentos. Mas a decadência dos humores da família não passa desapercebida pelos mais novos. Os sorrisos e gargalhadas se tornaram escassos, observa Antônio. A notícia de que Maria Francesca vai se casar e deixar a casa antes da primogênita Geni piora ainda mais essa sensação. Estamos entre pessoas que não gostam de mudanças, e a família está vivenciando mudanças demais em um curto espaço de tempo.

Brasiliense ambienta bem essa região que é pouco retratada na literatura – pelo menos nos livros que geralmente ganham espaço nas livrarias e jornais. Temos muitos livros sobre a vida nas grandes cidades, os conflitos mirabolantes de pessoas que têm acesso a muitos estímulos de entretenimento, de gente, de quebras na rotina. Mas nessa cidade rural tudo passa bem devagar. Apesar da narração ser sucinta, rápida, a impressão é de que o tempo lá não passa. Antônio vai à escola com Valentina, brinca no pátio de casa, limpa uma vez por semana as armas do pai, mas percebe no silêncio da mesa, durante as refeições, que muita coisa está acontecendo, mas ninguém quer tocar no assunto. “No meu raciocínio infantil”, diz ele, “o que não fosse dito não seria sentido, assim estaria a um passo do esquecimento, à beira da inexistência”.

Boa parte do livro se concentra neste relato de Antônio, que vai da morte da mãe no parto até a morte do pai – que não é menos trágica e melancólica. O que o garoto não sabe, ou toma conhecimento só depois quando adulto, é explicado por um narrador onisciente que aparece em forma de notas de rodapé – uma quebra no ritmo da leitura que é estranha no início, usada logo na primeira frase do livro, mas que se mostra até útil depois.

Após Antônio, temos um vislumbre do que essa família se tornou com as cartas de Valentina para o irmão mais novo. Casada, com filhos e vivendo em Caxias do Sul, ela relembra os dias da infância nessas cartas, revividas pelo manuscrito que recebe de Antônio, a primeira parte do livro. “Ao contrário de ti, procuro evitar as lembranças”, confessa, mas admite que ler o romance do irmão foi menos doloroso do que esperava. Através de Valentina descobrimos por onde anda seus irmãos e Brasiliense revela alguns segredos do passado: Antônio vive em São Paulo e se comunica pouco com a família; Maria Francesca tem uma vida tranquila de casada e vive em Santa Catarina; Geni, ao que Valentina sugere, nunca chegou a se casar e viveu até o fim na sombra da tragédia dos pais; Estevam e Ferrucio nunca deixaram a colônia e seguem trabalhando na roça.

Com a família separada e as lembranças retornando, Valentina fala de sua própria vida em paralelo com a sua infância. Além de confessar os dramas do casamento – 15 anos, desconfiada de que o marido tenha um caso – e dos filhos – uma adolescente prestes a se rebelar e um menino autista –, ela constantemente compara sua vida atual com aquela que teve na colônia, duas famílias tão diferentes que parecem pertencer a outras pessoas. O marido e os filhos nunca tiveram contato com aquela vida, como se ela tivesse enterrado completamente o passado, mas não para esquecê-lo de todo, mas sim proteger a sua história, a história de seus irmãos. Como ela escreve a Antônio, ela entende sua necessidade de contar para o mundo o drama de sua família, mas ela não seria capaz de fazer o mesmo. Ela quer proteger aquele tempo e aquelas pessoas.

Por último, Brasiliense apresenta um relato de Pedro, prestes a ser ordenado padre, em forma de discurso de agradecimento. Nas palavras dele, a vocação para o sacerdócio estava presente desde a infância, e escapa de seu agradecimento a culpa pela ruína da família. Foi no parto dele que a mãe morreu, foi a partir deste acontecimento que a rotina pacata saiu dos trilhos, que seu pai e Geni foram abalados permanentemente, enquanto ele e seus irmãos conseguiram “escapar”. Ele diz recusar explicações psicológicas para sua vocação, que ser padre não é uma forma de responder pelos pecados do pai, é algo que vai além disso, mas está lá esse sentimento de responsabilidade, algo que carrega consigo desde criança.

Enquanto Pedro escreve seu agradecimento, o autor mostra como seus irmãos seguem com suas vidas. Separados, porém ainda unidos, querendo ou não, pelos acontecimentos que marcaram suas histórias. Pois, como diz o narrador das notas de rodapé, apesar de fragmentadas, apesar das perdas e dos rancores, as famílias são eternas. O que eles se tornam é uma consequência daqueles anos que passaram juntos, por mais que não falem sobre isso, por mais que evitem. Roupas sujas é um romance que engana pelo tamanho. Suas poucas páginas carregam muito mais do que parece.

 

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