HHhH, de Laurent Binet

Capa de HHhH

Em 1942, a expansão germânica está no seu auge. O território tchecoslovaco foi anexado ao império nazista de Hitler, sua população dividida entre resistir e perder a vida ou se curvar ao novo líder e sobreviver. Reinhard Heydrich, chefe da Gestapo, é nomeado o “protetor” da agora chamada Boêmia-Morávia, um homem extremamente ambicioso, que rapidamente cresceu aos olhos do führer, e que é tão malévolo quanto ele. Heydrich foi, também, um dos principais arquitetos da “solução final”.

“‘HHhH’, dizem na SS: Himmlers Hirn heiβt Heydrich – o cérebro de Himmler chama-se Heydrich.” O romance de Laurent Binet, apesar do título, não é sobre Heydrich. Ou não é apenas sobre ele. E nem é apenas sobre a Segunda Guerra. Vencedor do Prêmio Goncourt de 2010, HHhH (Companhia das Letras, tradução de Paulo Neves) apresenta um autor aficionado por um específico momento histórico: a operação Antropoide, que matou Heydrich em Praga em 1942. O plano foi arquitetado pelo exército tchecoslovaco exilado em Londres, e posto em prática pelos sargentos Jan Kubiš e Jozef Gabcík. Uma missão suicida.

HHhH é uma ficção ancorada na realidade. A própria História, aqui, vira história. O narrador/autor do livro detalha toda a sua pesquisa para o leitor: os documentos que encontra, as histórias que ouve, as coisas que descobre. Ele conta todo o seu processo criativo de tentar transformar esse atentado em uma ficção, travando embates consigo mesmo sobre o que deve se manter inalterado e o que pode ser preenchido ou floreado com sua imaginação.

É um romance sobre a construção do romance, mas não é enfadonho: as tiradas do autor estão lá, a maneira com que aqueles fatos são recontados hoje estão lá. E está lá, principalmente, a curiosidade que leva o narrador a ir mais fundo nessa trama, sem ser capaz de desistir da ideia. Para entender por que Heydrich se tornou alvo de um atentado tão arriscado, e como ganhou o apelido de carrasco, Binet vai até o início da vida do nazista. A origem de Heydrich é parte importante para entender sua ambição, de como foi subindo os degraus do nazismo até chegar a ser o “terceiro” homem do partido. E não foi só a “eficiência germânica” que levou Heydrich quase ao topo: foi a mente fria, calculista e imoral que assustava até nazistas de alta patente.

O mesmo ele faz com Kubiš e Gabcík, um tcheco e um eslovaco – os territórios ficaram divididos após a ocupação, um entregue de mão beijada a Hitler, o outro tentando resistir até onde fora possível. Do treinamento no exército até a escolha para a missão, Laurent Binet vai descrevendo suas vidas e relacionamentos, os avanços e os imprevistos da tarefa. Mas uma coisa era certa: os dois não tinham medo do destino que lhes aguardava, e matar Heydrich seria uma grande honra para vingar todo um povo que sofreu e estava ainda sofrendo nas suas mãos.

“Nesse verão, no Zoo de Kiev, um homem entrou no fosso do leão. A um visitante que quis retê-lo, ele disse, transpondo a barreira: ‘Deus me salvará’. E fez-se devorar vivo. Se eu estivesse lá, teria dito a ele: ‘Não se deve acreditar em tudo que contam’.

Deus não foi de utilidade nenhuma às pessoas que morreram em Babi Yar.”

E assim vai. Entre a realidade e a ficção, Binet destrincha em detalhes toda a movimentação política da Segunda Guerra Mundial, e também todos os seus horrores. Como o caso de Babi Yar, uma ravina em Kiev, na Ucrânia, onde milhares de judeus foram levados até uma vala e fuzilados, caindo direto para a sua cova, mortos ou ainda vivos. Um dos primeiros e maiores massacres perpretado pelos nazistas, tão horrível e inconcebível que levou o alto escalão a planejar uma forma menos “gráfica” de matar os judeus – os gases dos campos de concentração. Milhões poderiam morrer sem que isso afetasse o moral dos soldados nazistas, sem que eles precisassem ver o que estavam fazendo. Algo puramente impessoal. Uma fábrica eficiente e rápida de morte.

Esse horror todo espalhado pelo nazismo não é contado de forma fria, por mais que o livro seja um grande relato de uma pesquisa e de um processo de escrita. O autor-narrador tem uma ligação emocional com essa história, e ele não deixa de exprimir suas opiniões ou sentimentos sobre cada nova informação que encontra. E por mais que ele tenha muito material com que trabalhar, ele segue fazendo associações, descobrindo personagens, indo atrás de pistas que possam preencher ainda mais as lacunas do relato histórico para que ele fique mais próximo da realidade. Como diz no final do livro: “Sei, portanto, que essa história nunca terminará realmente para mim, que continuarei sempre a saber de coisas relacionadas a esse caso, a extraordinária história do atentado organizado contra Heydrich em 27 de maio de 1942 por paraquedistas tchecoslovacos vindos de Londres”.

HHhH foi o primeiro livro de Laurent Binet publicado aqui no Brasil, mas comecei a ler o autor com Quem matou Roland Barthes?. Ambos livros que se baseiam em momentos históricos, mas com maneiras muito diferentes de se narrar. Quem matou Roland Barthes? parte logo de uma fantasia criada pelo autor: a de que o atropelamento do linguista que levou à sua morte tenha sido um atentado. E também é um romance carregado de humor, com situações absurdas envolvendo os grandes intelectuais do século XX – que, se for pensar bem, poderiam muito bem ter acontecido de verdade, nunca. Nunca se sabe. Já HHhH tem uma atmosfera totalmente diferente. Ele é muito mais contido na ficção, ou, pelo menos, deixa mais difusa a linha que separa a invenção da realidade. Mas, assim como o primeiro romance de Binet que eu li, HHhH é uma leitura extraordinária.

 

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