Lightning Rods, de Helen DeWitt

Capa de "Lightning Rods" 12book "Liightning Rods" by Helen DeWitt

No mundo corporativo, nada é mais importante do que a produtividade. Se alguma coisa irá melhorar a produtividade dos funcionários, ela será implementada. Se alguma coisa influenciar negativamente essa produtividade, ela será proibida – pelo menos seria assim na teoria, mas sabemos que nem sempre é o que acontece. No mundo corporativo, um assunto que certamente é delicado e afeta o desempenho dos funcionários são os seus desejos carnais. O estresse do ambiente de trabalho combinado com a presença de mulheres no escritório – mais ainda se a vida conjugal em casa não estiver aquelas coisas – pode desencadear uma série de comportamentos inaceitáveis que influenciam naquilo que mais importa para uma empresa: a produtividade.

Antes de surgir com a ideia de proteger empresas dos males do assédio sexual, Joe foi um vendedor fracassado de aspiradores de pó Electrolux. E antes de ser um vendedor fracassado de aspiradores de pó, ele foi um vendedor fracassado da Enciclopédia Britânica. Ninguém mais se interessa em ter tomos e mais tomos de uma enciclopédia em casa. Mas as pessoas precisam de aspiradores de pó. Para o azar de Joe, o local em que foi alocado para vender o eletrodoméstico estava muito bem suprido de aspiradores de pó, todos comprados após um furacão que atingiu a cidade. O sucesso jamais chegaria para Joe desse jeito. Ele tinha a motivação, mas não tinha a sorte. Em Lightning Rods, segundo romance de Helen DeWitt, vamos ver que a sorte de Joe está prestes a mudar.

Joe é um homem branco e heterossexual de trinta e poucos anos. Não poderia ser mais comum e sem graça. É solitário e vive em um trailer, e por mais que tente se manter otimista quanto a seus fracassos de vendas, o peso de sua derrota aos poucos toma conta. A única forma de escapar desses sentimentos danosos é fantasiar encontros sexuais voyeuristicos, que geralmente consistem em mulheres nuas da cintura para baixo, escondidas por uma janela, sendo penetradas por homens que não são vistos do lado de fora. Esse é o único “alívio“ sexual que Joe encontra em sua vida – ele é desses caras que evitam se submeter a humilhação de uma rejeição real. Sua frustração sexual, porém, vai acabar por render a ele muito dinheiro.

Helen DeWitt é uma autora que poucos conhecem aqui no Brasil. O último samurailançado ali pelos anos 2000, teve sua cota de celebração lá fora, mas aqui não ganhou a visibilidade que merecia. Uma coisa sobre as histórias de DeWitt é que elas fogem um tanto do que seria considerado “normal“ em termos de comportamento das personagens. Por exemplo: o pequeno protagonista de O último samurai é um garoto superdotado que lê e fala japonês, grego, alemão e diversos outros idiomas quando tem apenas quatro anos de idade. Um garoto com objetivos bem claros e poucos trejeitos sociais, que pode muito bem deixar alguém constrangido com sua inocência misturada a inteligência. Em Lightning Rods a coisa não é diferente, porém escala para algo mais perturbador.

Ao refletir sobre como o assédio sexual influencia no ambiente de trabalho, Joe surge com a ideia mais absurda e errada que um homem poderia ter – e essa ideia existe justamente por ele ser, bem, um homem. Fazendo uma analogia com os para-raios (lightning rods), que atraem a carga elétrica para um ponto específico para evitar que o raio atinja outro lugar e cause danos, Joe esquematiza algo semelhante para evitar o assédio sexual no mundo corporativo e livrar os pobres homens de acusações que danifiquem suas carreiras perfeitas.

Ele parte do princípio de que os funcionários mais talentosos e produtivos de uma empresa são os mais propensos a assediarem uma colega de trabalho. O assédio, claro, é uma coisa horrível, e deve ser punido sem exceções. Como Joe é homem, branco e heterossexual, é claro que ele não está preocupado com as consequências do assédio para as mulheres. Ele está preocupado com o assediador. Porque uma empresa pode perder muito ao afastar um funcionário exemplar  porque ele tentou pegar nos peitos de uma colega. A solução, então, seria evitar que esses funcionários exemplares cedessem a esses instintos primitivos e aliviassem sua tensão sexual sem pressão alguma. E é aí que Joe cria as “Lightning Rods”.

“He thought: humans do nothing without shame. Even eating is shameful because it makes you fat. And some things are so shameful you can’t even use a word for them without swearing. You say ‘go to the bathromm’ and ‘sleep with’ because the actual words would be bad language. […]
Because you can sell people just about anything if you can convince them it will give them a better chance to have sex. You can selll people just about anything if you can convince them it’s a substitute for sex. The only thing you can’t sell is the actual thing itself. That is, obviously, people will sell it, but you can’t sell it without shame.”

Lighting Rods são mulheres que servem como “para-raios” para o desejo sexual masculino. Não são prostitutas, vamos deixar bem claro. Elas são funcionárias como qualquer outra mulher da empresa, mas em momentos específicos do expediente, quando surge uma notificação em seus computadores, elas se dirigem até o compartimento de deficientes físicos do banheiro feminino, despem-se da cintura para baixo, sobem em uma esteira e são levadas até uma das paredes do banheiro, onde uma “janela” se abre e um homem está lá, esperando de pau duro para comê-la. O processo é estritamente sigiloso e impessoal. Os homens não sabem com quem estão transando, as Lightning Rods também não fazem ideia de quem se aproveita delas para esse alívio sexual. E, claro, elas ganham um pouco a mais para oferecer esse serviço. 

Ideia absurda, certo? Apenas uma mente completamente doentia, com zero respeito pelas mulheres levaria a sério um negócio desses, certo? Joe, de início, cogita que sua ideia talvez não seja bem aceita. Mas sua linha de pensamento parece fazer sentido para outros homens e, pela primeira vez na sua vida, ele faz uma venda. As Lightning Rods serão implementadas em uma empresa para teste.

Lightning Rods é desses livros que causam o famoso riso de nervoso. É óbvio que Helen DeWitt está tirando um grande sarro do meio corporativo e dos homens, mas também é assustador como as coisas parecem ser plausíveis demais. Porque é assim que a mentalidade corporativa e masculina funciona: quando uma agressão contra a mulher acontece, a culpa está sempre na mulher. E quando uma punição é feita, o pobre coitado que está sendo atingido por essa tragédia horrível é sempre o homem, o talento, o eficiente. Acusações de assédio só danificam a imagem da empresa, e isso não pode acontecer. O serviço oferecido por Joe é um jeito de acabar com isso.

Uma coisa maravilhosa que Helen DeWitt faz nesse livro é se apropriar da linguagem corporativa. Narrado por Joe, Lightning Rods é repleto de jargões de marketing, vendas, frases motivacionais, psicologia mercadológica, enfim, conversa fiada de vendedor para te conquistar. É com esse papinho que ele recruta mulheres para servirem de para-raios sexual, e é o mesmo papinho que ele usa para vender sua ideia para as empresas. “Vocês estarão contribuindo diretamente para o crescimento da empresa e seu lucro”. Quem não quer ser assim importante? É uma narrativa bem seca, direta, mas a combinação da trama absurda com essa linguagem profissional deixa o livro ainda mais desconcertante. Você ri de nervoso. Mas ri.

O livro não termina quando as Lightning Rods começam a ser implementadas em diversas empresas dos EUA. Não, Joe é um homem de negócios incansável que está sempre em busca de melhorias. Com a ajuda de sua lightning rod mais talentosa (ou a mais idiota, como ele coloca em alguns momentos), Joe acrescenta detalhes em seu serviço para melhorá-lo, como instalar mais mecanismos de segurança para as mulheres que recruta (bem, não podemos dizer que ele não pensa no bem estar delas, né), equipar os banheiros adaptados para o serviço com revistas para as funcionárias entediadas, dispensers de camisinhas (por favor, vamos evitar doenças), fantasias e roupas específicas para atiçar mais os desejos dos funcionários-modelo.

“Because you have to deal with people the way they are, not the way you’d like them to be, and unfortunately most men tend not to respect women who have the same urges they have. Or even if a woman doesn’t have the same urges, but just provides an outlet, men tend not to respect her. Because if you take people the way they are, most men tend to see sticking their dick into someone as a form of domination. To be honest, if you take people the way they are, that’s what they like about it. It’s not just the physical sensation. That’s exactly why masturbation is so unsatisfactory. The physical sensation is pretty much the same. But the domination is all in your head.”

Mas nem tudo são flores na vida de Joe. Em poucos meses de existência, o serviço de Lightning Rods vai mostrando alguns problemas. É difícil recrutar mulheres que topem o serviço, e quando elas topam, é difícil contornar os arroubos sentimentais das funcionárias quando elas finalmente entendem o que esse trabalho significa. Também é difícil lidar com a violência masculina. Por mais que as mulheres estejam disponíveis do jeito mais fácil possível, privando o homem de passar por qualquer tipo de constrangimento (ter que se engajar em small talk, lidar com a rejeição etc.), eles aproveitam o anonimato para tentar fazer o que querem com as mulheres. Em certo ponto, Joe tem até que lidar com a concorrência, pois é claro que ela surgiria.

Um dos momentos mais hilários do livro é quando Joe enfrenta uma acusação de racismo. Uma candidata a Lighting Rod, por ter a pele escura, é recusada por Joe. O problema, para ele, é que a presença de uma Lightning Rod negra afetaria o anonimato, que é fundamental para o funcionamento do serviço. Mulheres negras são raras dentro de grandes escritórios corporativos, então a sua identidade estaria em perigo caso ela se submetesse ao trabalho. Um jeito de contornar isso seria conquistar mais espaço para funcionários negros nas empresas, e aí as Lightning Rods poderiam se despir da cintura para baixo sem se preocuparem em serem identificadas, pois haveriam outras mulheres negras para disfarçar. Olha só o jeitinho da Helen DeWitt de falar sobre o gap racial no mercado de trabalho.

Lightning Rods é um livro admirávelÉ uma narrativa extremamente doida, mas que te envolve de um jeito que é impossível sair. “In America, anything is possible”, diz Joe no final do livro, porque uma coisa dessas realmente poderia ser possível. A realidade sempre pode ser mais assustadora que a ficção. Por trás da loucura toda da trama está aquilo que Helen DeWitt quer expor: como a mulher não é nada na visão masculina do mundo profissional, como os homens se enxergam como coitadinhos injustiçados, incapazes de controlar seus próprios instintos; como, para eles, as mulheres estão aí para a pura servidão. A ideia de Joe faz sucesso e se vende fácil por isso: por mais machista e misógina que seja, quando ela é bem embalada e servida com as frases de efeito corretas, ela representa o pensamento dominante daquele ambiente, e convence até as mulheres mais esclarecidas. Só uma escritora com sangue nos olhos como a Helen DeWitt conseguiria criar uma história dessas.

“So just do the best you can, and remember, if all goes horribly wrong, you can always shoot yourself.“


 

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