Nem vem, de Lydia Davis

Capa de "Nem vem".

Quando li Tipos de perturbação, passei a considerar Lydia Davis uma das minhas autoras favoritas. Seus contos curtíssimos, muitas vezes com poucos parágrafos ou até mesmo uma frase, têm aquele humor sagaz que te deixa por minutos rindo sozinha, pensando em como tão pouco pode dizer tanto. E seus textos mais longos são tão encantadores quanto, com personagens muito bem desenvolvidas e histórias que se sustentam a cada frase. Seu primeiro romance, O fim da história, não causou a mesma impressão, mas não abalou minha admiração pela autora. E bem ansiosa fui ler sua segunda coletânea de contos publicada no Brasil, Nem vem (tradução de Branca Vianna), lançada no Brasil no ano passado pela Companhia das Letras.

Diferente de Tipos de perturbação, Nem vem não causou o mesmo efeito – ou melhor, não causou um efeito tão impactante. Ainda há contos maravilhosos, claro, mas na soma geral ele está abaixo do primeiro livro de Davis lançado aqui. A culpa, para mim, são dos contos baseados em sonhos – da autora ou de conhecidos seus. Pode ser pela natureza dos próprios sonhos, que não fazem muito sentido, mas não gostei da forma que foram apresentados, faltam a eles a graça daquilo que sai conscientemente da cabeça da autora – as situações absurdas, mas facilmente relacionáveis, os desfechos bem-humorados, o sentido maior escondido por trás do texto. Porque os sonhos não parecem conter esse sentido, são descrições, e nada mais, do que o inconsciente inventou. Começar falando do que me fez não gostar tanto dessa coletânea pode parecer bem negativo, mas Nem vem, apesar dessas derrapadas, ainda tem muita coisa boa.

Davis cria diversos textos baseados na obra e na vida de Gustave Flaubert, esses mais longos e um pouco melhores, visões cômicas da vida intelectual francesa e do cotidiano banal de um grande escritor. “Ah, nós, escritores, achamos que inventamos demais – mas a realidade é sempre pior.” Davis sabe muito bem disso, e o que gosto em seus textos é que eles expõem o absurdo dessa realidade.

“Bloomington

Agora que já estou aqui há um tempinho, posso dizer com certeza que nunca estive aqui antes.”

Uma frase como essa pode significar muita coisa. Que Bloomington é um lugar tão insosso que não vale a pena ser lembrado; que é preciso estar lá para decidir se vale a pena estar lá ou não. Davis gosta de brincar com as contradições, e isso acontecerá em outros de seus contos. Como em “Mulher, 30 anos”, por exemplo, onde uma mulher não sai da casa dos pais pelo conforto e por não querer arranjar um marido e ser maltratada por ele. Mas ela se despe sempre na frente da janela, pois quer ser notada por um homem. E também em “Observação sobre a limpeza da casa”: “Debaixo de tanta sujeira / o chão está na verdade muito limpo”.

Entre os meus preferidos está “As vacas”, onde a autora observa vacas andando pelo campo através da janela da cozinha, descrevendo cada detalhe dos passos que dão, como a encaram e como interagem umas com as outras – ou, simplesmente, ficam mastigando grama. Outro favorito é “O pouso”, em que está em um avião prestes a pousar e desenrola suas fobias quanto a este momento do voo, pensando numa iminente morte e em quais seriam seus últimos pensamentos.

“Nossas vidas podiam estar chegando ao fim. Isso exigia uma reconciliação imediata com a ideia da morte, e também uma decisão imediata sobre a melhor maneira de deixar este mundo. Quais seriam meus últimos pensamentos nesta terra, em vida? Não era uma questão de consolo, mas de aceitação, acreditar que o certo era morrer agora. Primeiro me despedi das pessoas que mais quero. Depois, era necessário um pensamento maior, para o último instante, e o que me veio como o melhor pensamento foi a ideia de que sou muito pequena neste universo imenso. Foi necessário imaginar o universo imenso, com todas as galáxias, e lembrar como eu era pequena, de modo que tudo bem morrer agora. Tudo morre o tempo todo, e o universo é misterioso, e de qualquer modo outra era do gelo se aproxima, nossa civilização desapareceria, de modo que tudo bem morrer agora.”

Dentre as narrativas que mais adoro de Lydia Davis estão aquelas em que as manias das personagens afetam as tarefas mais mundanas. Em “Comendo peixe sozinha”, ela não consegue decidir que prato pedir até conferir sua tabela de peixes, pois nem todos podem ser comidos tranquilamente: certos peixes só podem ser ingeridos se pescados da maneira correta, ou no lago/mar correto. Assim, ela só come peixe quando está sozinha, pois acompanhada irritaria a outra pessoa pelo tempo que leva para analisar todo o cardápio, a tabela e ainda consultar o garçom sobre a procedência do peixe. O mesmo acontece em “Os dois Davis e o tapete”, onde dois vizinhos não conseguem tomar uma decisão simples: comprar e vender um tapete. Se um está em dúvida quanto a compra, a decisão que toma é afetada pela dúvida da vendedora em se livrar do tapete ou não, transformando uma transação simples em uma narrativa angustiante e engraçada. São essas as histórias que me fazem gostar de Lydia Davis, as coisas mais banais sendo vistas e analisadas com um olhar esquisito, exaustivo, doido, mas que no final fazem todo o sentido.

Ainda posso destacar “Como leio o mais rápido possível os números atrasados do suplemento literário do Times”, onde classifica o que a interessa ou não – não interessa ler sobre a história cultural do censo britânico, mas interessa ler sobre cerveja; a biografia de Laura Bush também não interessa, mas talvez sim –, que revela uma maneira de avaliar rapidamente o que vale a pena reservar um tempo ou não, como nós fazemos passando pelos feeds da vida. E “Estou bem, mas poderia estar um pouquinho melhor”, um maravilhoso resumo de pequenas coisas irritantes, desde “o gato fez xixi no meu telefone” até “estou com sono, mas não posso ir para a cama”. Difícil alguém não se ver dentro de um texto desses.

Tipos de perturbação é um título que descreve bem o seu conteúdo: pequenas manias, cacoetes, loucuras, jeitos estranhos de se enxergar o mundo. Nem vem é um título tão bom quanto: transmite aquela ideia de preguiça, de não querer gastar tempo demais com algo inútil, de economizar suas energias. O conto que dá nome ao livro é justamente isso: Davis economiza o máximo que pode nas palavras, não quer encher linguiça.

“Há pouco tempo deixei de ganhar um prêmio literário porque, segundo eles, sou preguiçosa. O que queriam dizer com preguiçosa é que sou muito econômica: por exemplo, nunca escrevo por inteiro a expressão ‘não vem que não tem’, abreviando, em vez disso, para ‘nem vem’.”

É aí que está toda a graça da autora: ela não precisa enrolar, ela pode muito bem economizar nas palavras sem perder ou tirar a força que as histórias têm. No final, o grande trunfo de Lydia Davis é justamente a sua brevidade, e como consegue chegar até ela.

“Homens

Há também homens no mundo. Nos esquecemos, às vezes, e pensamos haver apenas mulheres – infinitas colinas e planícies de mulheres lassas. Fazemos piadinhas e nos consolamos umas às outras e nossa vida passa fugaz. Mas de vez em quando, é verdade, um homem emerge inesperadamente entre nós, como um pinheiro, e nos olha selvagem, e nos dispersa correndo, claudicantes, desaguando em enchentes, escondendo-nos em cavernas e desfiladeiros até que ele parta.”


 

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