Todos os pássaros no céu, de Charlie Jane Anders

Capa de "Todos os pássaros no céu"

 

“Não é magia, é tecnologia”. A propaganda da famigerada Tekpix é um bom exemplo de que magia e tecnologia não andam juntas. Uma é totalmente subjetiva, baseada em crenças nunca comprovadas. A outra é pura exatidão, real, palpável. Não tem como as duas coisas andarem de mãos dadas. Uma recusa a outra: a magia não aprova o progresso que a tecnologia traz, que destrói recursos naturais e deixa as pessoas mais próximas das máquinas, e não da natureza; a tecnologia não aceita a magia, uma invenção para pegar trouxa, pseudociência, coisa de gente doida.

Charlie Jane Anders quer aproximar esses dois “inimigos” em Todos os pássaros no céu (Morro Branco, tradução de Petê Rissatti), vencedor do Nebula Awards, um dos principais prêmios da ficção científica, e finalista do Hugo Awards. O livro acompanha a vida de dois jovens, Patricia e Laurence, que são completamente opostos. Mas seus destinos estão fortemente ligados.

Patricia é a caçula de uma família problemática. Ela não recebe a mesma atenção e os mimos que a sua irmã mais velha, sua mãe vive vomitando conceitos de self-coaching, os pais a castigam por qualquer atitude que foge do que consideram o padrão. Aos seis anos de idade, tentando salvar um pássaro machucado da verve assassina da irmã, Patricia se perde no meio da floresta próxima a sua casa e tem uma experiência inacreditável: ela fala com os pássaros. Após salvar a ave de sua irmã e se embrenhar na floresta, ela chega a uma árvore gigantesca onde centenas de pássaros se reúnem e dizem a Patricia que ela pode ser a sua nova bruxa protetora. Para confirmar que ela é essa pessoa, o grupo de aves faz uma pergunta, mas no momento em que a escuta, a menina se vê em casa, levando uma bronca dos pais, sem saber se o que vivenciou foi real ou sonho.

Laurence é um garoto prodígio que nasceu para se dedicar à ciência. Antes dos dez anos de idade construiu um relógio que pula dois segundos no tempo, e é dessa forma que foge das agressões e das pequenas humilhações que sofre na escola – dois segundos podem fazer toda a diferença na hora de desviar de um soco ou ignorar um comentário irritante. Querendo ver o lançamento de um foguete que seria o pontapé inicial para a colonização de outro planeta, mas sem ter a autorização dos pais, Laurence vai sozinho para o centro espacial. Infelizmente não vê o lançamento, que foi adiado, mas conhece uma cientista que percebe o potencial do garoto. Na volta para casa, uma bronca: os pais de Laurence querem que ele se integre mais com a natureza, que brinque na rua, que passe suas férias em um acampamento, e não na frente de um computador. Tudo o que Laurence mais odeia.

Poucos anos depois, na pré-adolescência, Laurence e Patricia trombam um com o outro. Ambos passam pelas mesmas dificuldades na escola: desprezo dos professores e bullying dos colegas, principalmente Patricia, a mais esquisitona dos dois. Ela, ao perceber que Laurence tem algo de especial, se oferece para ajudar na questão “pais naturebas”, fingindo que é sua parceira nas andanças pela floresta enquanto, na verdade, ele continua se dedicando aos computadores. De Patricia, Laurence pede que ela converse com M3MUD4, uma inteligência artificial que criou no armário de seu quarto. A partir disso os dois formam uma amizade e não se desgrudam até que ele presencia um dos seus atos mágicos. Para um garoto com o pé fincado na realidade, aquilo não poderia estar acontecendo. E assim os dois se afastam, bem quando as coisas na escola vão ficando mais e mais complicadas.

Enquanto isso, um assassino profissional observa os dois garotos por conta de uma profecia que diz que eles serão os responsáveis pelo fim do mundo. Ele não pode fazer nada, matar crianças vai contra as novas regras de seu grupo de mercenários. Então ele só tem duas opções: esperar que Patricia e Laurence façam 18 anos ou tentar jogar um contra o outro e resolver esse problema agora.

Corta para 10 anos depois. Patricia conseguiu se formar em uma “escola de magia” para aprender a lidar com seus poderes – sim, a árvore e os pássaros falantes nunca foram um sonho. Ela sai pela noite “curando” pessoas, ajudando quem pode, mas ainda assim sendo repreendida pelos seus superiores por sucumbir demais ao Enaltecimento – se colocar em primeiro lugar. Já Lauren trabalha em um projeto secreto que tem como missão criar um portal para tornar as viagens interplanetárias possíveis e rápidas, um plano que pretende colonizar outro planeta quando a Terra finalmente colapsar. E não resta muito tempo para a Terra.

Todos os pássaros no céu tem uma premissa bem interessante, mas não acho que a execução tenha sido das melhores. Anders gasta muito espaço do livro narrando coisas amenas da vida dos protagonistas que poderiam muito bem ser resumidas em trechos menores ou então sequer citadas. Até a metade do livro, por exemplo, ainda estamos na adolescência dos personagens, onde pouco acontece além dos repetitivos casos de bullying. E quando a fase adulta chega, coisas que eram muito importantes na primeira parte se tornam irrelevantes – como a própria “profecia” que envolve os dois. Ainda assim, Anders coloca coisas interessantes no livro, principalmente na segunda parte do livro: o projeto de Laurence é curioso, a maneira que a magia se organiza é bacana, até a tecnologia desse futuro não tão distante é interessante. Mas os protagonistas, infelizmente, não são tão carismáticos e legais como a inteligência artificial que Laurence criou – essa sim, a personagem mais sensata e coerente do que todos os humanos do livro.

É como se o livro não tivesse encontrado seu próprio ritmo. Por vezes as cenas se arrastam demais, enquanto em outras tudo acontece com tanta velocidade que você se pergunta como é possível que eles cheguem a conclusões mirabolantes tão rápido, mas não conseguem enxergar as coisas mais simples. O próprio embate entre ciência e magia fica em segundo plano. Existe esse embate, mas ele demora a acontecer e, quando acontece, se resolve facilmente. Não era bem o que eu estava esperando, e por isso acabou sendo meio decepcionante.

De qualquer forma, Todos os pássaros no céu é um entretenimento válido. As ideias de Anders são muito melhores que a execução, e são elas que seguram o livro. Queria ter gostado mais da leitura, assim como eu gostaria de ter visto mais do M3MUD4. Essa sem dúvida é a parte mais interessante da história. Quando a IA de Laurence consegue atingir um estado próximo da consciência – com a ajuda de Patricia –, ele ganha o nome de Peregrino. Peregrino basicamente desaparece por uma boa parte do livro, até retornar para o espanto do seu próprio criador. Sendo ele uma inteligência mecânica, mas independente, Peregrino consegue se atualizar e aprender por conta própria – assim como consegue se manter “vivo” sozinho. E é ele, no fim, quem acaba resolvendo as principais tramas do livro.

Peregrino se transforma, de certa forma, em um Tinder automático. Na consciência da IA, as relações entre as pessoas é o que há de mais importante na Terra, e por isso ele se empenha em fazer justamente isso: unir pessoas. Ele tem um claro entendimento das preferências de cada um, é capaz de analisar suas emoções e inclinações, e é justamente esta máquina sem dono quem coloca juízo nas personagens e as reaproxima. De longe é o aspecto mais bacana do livro e o melhor personagem. Inclusive, quis ler esse livro por ele apresentar essa Inteligência Artificial, e talvez tenha sido por isso que fiquei decepcionada no final: eu queria mais Peregrino e menos Laurence e Patricia.


 

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