Canção de ninar, de Leïla Slimani

Capa de Canção de ninar

Duas crianças estão mortas. O bebê morreu rapidamente. A menina, um pouco mais velha, não vai resistir às agressões. A mãe voltou mais cedo para casa, e o que encontrou foi o caos: seus filhos mortos e a babá que tentou tirar a própria vida depois do que fez. O primeiro capítulo de Canção de ninar, de Leïla Slimani (Tusquets, tradução de Sandra M. Stoparo) conta logo de cara qual é o desfecho dessa trama que fala sobre maternidade e sobre a relação de poder entre as classes. Slimani é uma das autoras confirmadas da Festa Literária Internacional de Paraty de 2018 e também uma das conferencistas do Fronteiras do Pensamento. Com Canção de ninar, foi a primeira autora de origem marroquina a vencer o Prêmio Goncourt, em 2016.

No início do romance, Slimani quer criar o maior impacto possível. Você não espera que o livro comece justamente com dois infanticídios, uma tragédia sem explicação e premeditada por alguém cuja principal tarefa era cuidar das crianças. E esse impacto funciona ao fazer você se entregar completamente à história: quem é essa babá, e por que ela fez isso? O objetivo do livro, então, é contar o que levou as personagens até esse momento, criando desde o início uma narrativa tensa, onde cada detalhe pode ser uma pista para o desfecho já conhecido.

Myriam, apesar das ressalvas do marido, resolve voltar a trabalhar em um escritório de advocacia. A vida de dona de casa e a maternidade sugam todas as suas energias, e a mulher não se vê mais como um indivíduo, e sim como uma entidade cuja existência consiste em apenas cuidar dos filhos. No momento em que toma essa decisão, Myriam se ressente da vida que escolheu levar: presa em casa, sem contato com o mundo, que se revela a ela através do marido, tendo que lidar com os caprichos e as exigências de duas crianças pequenas. A maternidade não é fácil, e Myriam não deve ser acusada de ser uma péssima mãe por pensar que o trabalho seria uma forma de conseguir uma folga de suas responsabilidades maternas – afinal, seu marido se dedica mais ao trabalho e não é criticado por isso, como sempre. Ela quer voltar a ter controle da própria existência, da própria identidade. Mila já pode frequentar a escolinha, mas Adam ainda é muito pequeno para ser deixado em uma creche. O casal precisará de uma babá.

A simpatia por Myriam se esvai, de certa forma, no momento em que ela coloca diversos critérios para contratar a babá, o principal deles: não quer uma imigrante. As agências estão abarrotadas de filipinas, marroquinas, mulheres de diversas culturas que chegam à França em busca de uma vida melhor, para cuidar dos filhos dos franceses. Myriam, é bom ressaltar, também é imigrante (ou, pelo menos, descendente de árabes). Demora até que o casal encontre Louise, uma mulher mais velha, branca, de bons modos e sempre bem arrumada, que logo contratam para tomar conta de Mila e Adam. Louise é a babá perfeita: cuida das crianças com atenção e carinho, doma seus caprichos; mantém a casa limpa e organizada e ainda prepara jantares, mesmo que esses não sejam requisitos do seu trabalho. O casal logo se vê conquistado pelo zelo de Louise, pela forma que ela alivia suas vidas, e rapidamente a babá se torna uma pessoa indispensável para a família.

Uma questão muito bem abordada por Slimani é a relação que existe entre patrão e empregado, a dinâmica entre Louise e o casal. Desde o começo, Myriam e o marido se vangloriam para os amigos e vizinhos sobre a sorte que tiveram: não poderiam ter encontrado pessoa melhor para cuidar dos filhos e da casa, e jamais poderiam perdê-la. E Louise, também, se apega rápido às crianças e à casa, como se fossem seus filhos e seu lar. Pois Louise se sente sozinha quando não está trabalhando. O marido morreu, a filha fugiu de casa, e resta a ela apenas um apartamentozinho barato alugado, para onde tenta adiar sua volta todos os dias. Mas chega um ponto em que a relutância de Louise de encerrar seu expediente não tem relação apenas com a solidão, mas sim com a vontade de deixar para trás o seu mundo humilde e adentrar de vez a vida daquela família de classe média.

Nenhum personagem de Canção de ninar é inocente. Myriam e Paul não são os patrões perfeitos, e sim bem hipócrita. A babá é indispensável, é a melhor coisa que aconteceu em suas vidas, é “da família”, mas também é a empregada que deve conhecer o seu lugar. Louise é a trabalhadora dedicada, que passou por muitos perrengues na vida, mas aos poucos desenvolve uma obsessão doentia pela família para quem trabalha. Aos poucos, as tensões vão crescendo de todos os lados, e você só fica aguardando até que elas se reúnam em algo maior e desencadeie a tragédia já anunciada.

Myriam e Paul são um casal de classe média que, depois de contratarem Louise, conseguem boas conquistas profissionais. Eles julgam que são boas pessoas, que tratam bem todos os colegas de trabalho, que se sentem apreciados por se darem bem com seus superiores. E julgam que também são bons patrões, mas é ali que está o perigo, bem explicado por Slimani no trecho a seguir: ser patrão é algo que sobe à cabeça. O casal não põe limite no trabalho que Louise faz, inclusive exigem mais dela. Mas colocam limites em até onde a empregada pode se aproximar pessoalmente deles, até que ponto ela merece ter o que eles têm.

“– Vocês se fazem de grandes senhores com sua governanta. Não acham que fazem isso demais?

 

Paul se irritou. Seus pais o criaram detestando o dinheiro, o poder e respeitando um pouco ingenuamente os menos favorecidos. Ele sempre trabalhou de maneira descontraída, tratando as pessoas como iguais. Sempre teve uma ótima relação informal com seu chefe. Nunca deu ordens. Mas Louise faz dele um patrão. Ele se ouve dando conselhos desprezíveis para a mulher.

 

– Não faça concessões, senão ela não vai mais parar de reclamar – ele diz, com o braço esticado, a mão passando do pulso ao ombro.”

Slimani é muito boa em criar essa tensão. Sua narrativa é simples, sem firulas, e talvez por ser assim tão seca ela cause um impacto maior. Afinal, ela está escrevendo sobre a morte de duas crianças, sobre as exigências feitas às mulheres, sobre as relações de trabalho, sobre desigualdade social. Espera-se, talvez, mais sentimentalismo ao falar de um tema como a maternidade, mas não é esse o objetivo da autora. Canção de ninar é um livro para perturbar, e não emocionar. Mas apesar de conseguir criar esse ambiente explosivo, de construir lentamente o contexto dessa tragédia, Slimani não entrega, no final, uma obra sublime. Há algo faltando ao fim do livro, uma conclusão definitiva, uma saída clara para a história. Essa saída não existe, e o final da trama deixa a desejar, não chega nem perto de surpreender como o seu início.

Ainda assim, Canção de ninar foi uma leitura bem proveitosa. Eu gostei da forma que Leïla Slimani tratou essas questões em sua narrativa. Por que é um livro muito atual, não no sentido da tragédia, mas sim no sentido das relações: como a maternidade desgasta, como a mulher trabalha muito mais para se provar competente, como pessoas são tratadas como meras coisas, empregados que são parte de uma família, mas que, na primeira chance, são colocados novamente em seu lugar periférico. A qualidade do romance está na construção dessas relações.

 


 

Para quem quer ler Canção de ninar, de Leïla Slimani.