Cama de gato, de Kurt Vonnegut

Resenha de "Cama de gato"

“Me chame de Jonah”, começa o protagonista e narrador de Cama de gato, de Kurt Vonnegut (Aleph, tradução de Livia Koeppl), que também pode ser chamado de John. Pensei logo em Moby Dick, um livro que nunca li – e não sei se quero ler. Mas nunca esqueci o final do filme Matilda, onde a garota confortavelmente sentada na sua cama faz o livro de Herman Melville flutuar até ela e o abre na primeira página: Call me Ishmael…

Cama de gato não é um épico sobre um homem obcecado em matar uma baleia branca, longe disso. E a primeira frase de Moby Dick é a única coisa que sei sobre o livro, então não vou fazer aqui uma comparação, não se preocupe. Mas se o capitão Ahab causou sua própria destruição ao tentar abater a baleia, posso dizer que as personagens de Cama de gato seguem pelo mesmo caminho. Se tivesse que classificar de forma breve o que Vonnegut faz aqui, teria que dizer que o romance é uma narrativa ágil e bem-humorada sobre a humanidade e sua capacidade de destruição.

Jonah é um escritor que quer escrever sobre o dia 6 de agosto de 1945, o dia em que a primeira bomba atômica caiu sobre Hiroshima. O personagem-chave de seu projeto é Felix Hoenikker, inventor fictício da bomba, e sua ideia não é escrever um retrato monstruoso sobre o cientista que criou o dispositivo que matou milhares de pessoas instantaneamente. Ele apenas quer registrar o banal, o comum, o que Hoenikker e as pessoas próximas a ele faziam enquanto Hiroshima virava cinzas. De certa forma, essa narrativa não deixa de mostrar a despreocupação do criador com as consequências destrutivas de sua invenção. Cama de gato não é uma história da bomba atômica, como essa breve explicação pode fazer parecer. É uma história sobre ciência, sobre religião, sobre política e sobre um possível fim do mundo.

Para refazer o dia 6 de agosto de 1945, Jonah vai atrás de pessoas que conviveram com Hoenikker. Sua primeira tentativa é entrar em contato com os filhos do cientista, e encontra sucesso logo com o mais novo. Trocando cartas, Newt lhe conta algumas coisas do que lembra sobre o pai, já que era muito pequeno quando a bomba foi lançada. Entre as lembranças está a cena do pai brincando de cama de gato no dia da tragédia, algo que nunca o viu fazendo antes, e o medo que sentiu quando foi convidado por ele a participar da brincadeira.

Querendo saber mais sobre Hoenikker, Jonah visita o laboratório onde o cientista passou boa parte da sua vida, em Illium, se dedicando mais à ciência do que à família. É ao entrevistar um dos colegas do cientista que ele se depara com uma história curiosa, uma ideia absurda que Hoenikker teve para se livrar de um militar que o perseguia querendo uma solução para seu exército passar facilmente por regiões pantanosas. Essa seria sua última contribuição para a ciência. O inventor da bomba atômica falou sobre uma substância que congelaria qualquer líquido que tocasse, tão pequena e fácil de carregar que qualquer soltado poderia colocá-la em ação: o gelo-nove. A ideia, segundo seu entrevistado, nunca foi desenvolvida. Mas isso é uma mentira, e o que Jonah descobre é que há três pessoas no mundo que portam essa perigosa substância: os três filhos de Hoenikker.

Vonnegut é bem econômico em sua narrativa. Os capítulos são rápidos, as frases são curtas, mas são tantos acontecimentos e personagens excêntricos que a história rapidamente se transforma em algo mirabolante. Depois de sua passagem a Illium e de encontrar ainda mais perguntas do que respostas sobre Hoenikker e seu legado, o protagonista se vê então na remota ilha de San Lorenzo na presença dos filhos do cientista, um lugar miserável onde as pessoas andam sujas e em trapos, mas “Papa” Monzano, seu presidente, exalta o progresso do lugar. Um progresso que, claro, não existe, mas as mentiras que as pessoas contam – ou se convencem de que são verdades – são bem mais fortes que a realidade.

A mentira, aliás, é o que move o bokononismo, a religião que Jonah adota depois da visita catastrófica à ilha e que foi criada lá. Bokonon, seu guru, é um adepto da vida simples e plena, e todos os seus escritos são carregados da mais pura ironia. Tudo no bokononismo é mentira, ilusão, e é ali que seus seguidores encontram o conforto que buscam na vida. Curiosamente, a religião é proibida na ilha, quem a pratica é punido de forma severa. Mas o que incentiva mais as pessoas a fazerem algo do que uma proibição?

Conforme vai fazendo menos sentido, mais significado Cama de gato carrega. Todas essas personagens estranhas e os acontecimentos que se tornam cada vez mais absurdos dizem muito sobre o ser humano. A arma que pode acabar com o mundo na mão das pessoas menos capacitadas; o país miserável sob um comando ditatorial que abraça a religião proibida; a consciência limpa dos responsáveis pela destruição. Vonnegut não vê uma solução onde tudo pode ser salvo e corrigido, e sim relaciona todos esses elementos, a ciência, a política e a religião, com o que levará o mundo até o seu fim. As coisas mais inofensivas, criadas com a maior boa vontade, podem contribuir para a destruição, porque é isso o que nós fazemos.

Gostei muito de Cama de gato por ser um livro que parece caótico, mas faz todo o sentido nesse caos. E, claro, pelo humor fino de Vonnegut, seja nos diálogos das personagens ou nos cânticos que cria para o bokononismo. O mundo é puro caos, e colocar essa coisa frágil nas mãos das pessoas só pode gerar uma coisa: a destruição iminente.

“O ‘Papa’ Monzano é muito malvado,
Mas, sem o ‘Papa’ malvado, eu ficaria chateado;
Porque sem essa malvadeza,
Diga-me, com certeza,
Como poderia o perverso Bokonon
Algum dia parecer bom?”


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