O romance luminoso, de Mario Levrero

Capa de "O romance luminoso"

Em 2000, o escritor uruguaio Mario Levrero ganhou uma bolsa da Fundação Guggenheim para terminar um livro que tinha começado a escrever em 1984. O romance luminoso, nome desse projeto, era para ser um livro sobre os momentos luminosos da vida do autor, acontecimentos marcantes, não necessariamente grandiosos, que vivenciou. Mas escrever sobre esses momentos se mostrou uma tarefa árdua: difícil colocar em palavras as sensações que esses acontecimentos despertaram, difícil explicar ao leitor por que essas interações simples se embrenharam tão fundo na memória do autor. Mas Levrero queria terminar esse livro, não queria deixar o mundo – ele morreu em 2004 – sem finalizar o projeto. Só que, da mesma forma que dinheiro não compra felicidade (embora eu ache essa frase bem discutível, que só pode sair da boca de alguém que nunca passou por uma dificuldade financeira na vida), ele também não compra inspiração.

O romance luminoso, lançado neste ano no Brasil pela Companhia das Letras e com tradução de Antônio Xerxenesky, não saiu conforme a encomenda. Em plena virada do milênio, Levrero não está na sua melhor forma de escritor. Os acontecimentos pessoais dos últimos anos causaram um grande baque na sua vida, que de certa forma reverberaram no âmbito profissional. No momento em que recebe a bolsa, Levrero vive sozinho em um apartamento no centro de Montevidéu, recebe algumas visitas de amigos e interesses amorosos, como a constante Chl, que toda semana o abastece de sopa e bifes à milanesa, e também de sua instrutora de ioga e sua médica, que vem a ser sua ex-mulher. Ministra algumas oficinas literárias online, com ocasionais encontros presenciais, e é basicamente nisso que consiste sua vida social. O resto do tempo gasta na leitura de romances policiais – sua maior obsessão literária – ou no computador, programando, jogando Free Cell e outros tipos de Paciência, procurando por pornografia na internet. Levrero dorme quando o sol está nascendo e acorda quando ele está quase se pondo. Seus hábitos não são, vamos dizer, muito saudáveis.

Mais de 500 páginas de O romance luminoso são dedicadas ao diário de Levrero que, claro, não fazem parte do projeto original. Antes de voltar ao livro que lhe assombra desde 1984, ele se compromete a registrar diariamente sua preparação para voltar à escrita. Primeiro, se dá alguns meses de folga para aproveitar o dinheiro da bolsa, tentar tornar confortável a casa onde mora há algum tempo, procurar romances policiais que ainda não fazem parte de sua biblioteca pessoal, ajustar os programas do seu computador para que facilitem mais sua vida (um programa que avisa sobre a hora de tomar remédios, outro que organiza cronologicamente os arquivos de seu diário etc.). Depois, quer entrar de cabeça no projeto, terminar o livro e não desapontar o “Sr. Guggenheim”, que tão bondosamente lhe concedeu a bolsa.

O romance luminoso não é um diário sobre o processo de escrita. Ele é um diário da procrastinação. As páginas do diário de Levrero contém tudo, menos uma espécie de workshop literário como os que ele deu para seus alunos. Se é isso o que você espera desse livro, desista. Mas não quero dizer que a literatura não esteja presente no seu relato. Levrero é um ávido leitor, e comenta constantemente as leituras policiais que faz, assim como sua admiração por uma autora recém-descoberta, Rosa Chacel, cujo próprio diário foi uma inspiração para escrever o seu “Diário da Bolsa”. O autor realmente tem uma relação obsessiva com a literatura, e por mais que se queixe das horas que gasta no computador, é com os livros que ele passa mais tempo. Lendo, claro, não escrevendo.

Para gostar da leitura desse livro, é preciso se deixar convencer por Levrero, permitir que seu cotidiano tedioso te entretenha. Os grandes momentos dos dias do autor são os passeios que dá com Chl ou outras mulheres pelo centro, suas paradas nos sebos e na Feira do Livro, as cervejas que toma em bares e idas a cafés. Fora esses passeios de fim de semana, o ponto alto de seus dias é a observação que faz do cadáver de um pombo no telhado do prédio vizinho. Levrero faz uma narrativa minuciosa da interação das aves com esse cadáver, apelidando outros pombos que se colocam perto dele e examinam a ave morta. Há a viúva, quem mais lhe faz visitas, assim como há outro pombo que basicamente se envolve em uma atividade necrófila com o corpo. Há os filhotes, que na cabeça de Levrero são as crias órfãs do pombo morto, e os novos companheiros da viúva. O autor observa essas imagens de sua janela todo dia, como se fosse uma versão animal dos Kardashians – se eles tivessem um programa televisivo naquela época. Quando você menos percebe, está tão curioso quanto Levrero com a movimentação dos pombos no telhado.

Aos poucos esse diário vai revelando detalhes íntimos de Levrero e sua situação mental. O fim de seu casamento se deu após começar seu envolvimento com Chl, embora considere que ele e sua esposa já haviam deixado de agir como um casal há muito tempo. Mas a mudança de rotina, assim como o próprio relacionamento com Chl, vai tragando o autor para uma depressão, e é nesse momento que ele se perde totalmente em seus compromissos e passa a viver como um ser noturno. Por mais que queira ter horários normais, Levrero não consegue sair dessa espiral de leitura, computador e sono diurno. Não encontra forças para romper o círculo vicioso. No momento da escrita do diário, a própria relação com Chl lhe causa preocupação: apesar de ainda ser atenciosa e visitá-lo constantemente, ela não aceita mais os avanços sexuais do autor, o amor que antes tinham se transforma em uma amizade, e nada mais. E Levrero adia ainda mais a escrita conforme se deixa levar pelas paranoias quanto a Chl, pelo seu iminente abandono. Chl é, aliás, um grande mistério: certamente é uma mulher bem mais jovem que o autor, que já ultrapassa a casa dos 60 anos, mas não sabemos quão mais jovem ela é.

Existe, aliás, uma passagem bem perturbadora nesse diário. Um dia, no supermercado, Levrero avista uma garota fazendo compras com a mãe, uma garota de cerca de 14 anos que desperta instantaneamente seu desejo – algo que não havia acontecido a ele depois de conhecer Chl. Levrero não faz nada, mas os pensamentos que essa visão lhe causa são nojentos e desconcertantes. Ele se imagina abordando a garota, levando-a para sua casa, tentando forçar uma relação que ela claramente não quer ter. Nesse momento, e em outros comentários que o autor acaba soltando ao longo do diário e do seu livro, vemos que a mente sexagenária do homem ainda deseja o contato violento e dominador com as mulheres, não importa a idade que tenham. É nojento pela natureza do desejo, e desconcertante porque, até então, você estava simpatizando muito com o autor, mas começa a olhar para ele com redobrada desconfiança.

Além das lembranças, das visitas, da leitura e do computador, outra constante em O romance luminoso são os sonhos de Levrero. Parece que ele está em uma terapia, narrando detalhadamente seus sonhos e procurando interpretá-los. São momentos bem interessantes do diário, pois ele é ótimo nessas interpretações, em que dificuldades que acontecem no plano astral estão estritamente ligadas às dificuldades que enfrenta na vida real – como o bloqueio para terminar seu livro, por exemplo. E é com esses sonhos que o autor envereda para as narrativas mais “exotéricas” que, ao fim do diário, se mostram o cerne do tal Romance luminoso que ele sempre quis escrever.

Pois começa O romance luminoso em si, e não posso resistir a o sentimento de decepção. Primeiro porque não há nada de mágico na narrativa, nada de surpreendente. Segundo, porque esses momentos luminosos acabam sendo momentos de trocas sexuais. Seja de olhares com alguém na rua, ocorridos durante sua adolescência e início da vida adulta, ou a encontros propriamente ditos. O ato sexual se une a um plano astral, as coisas são sentidas com mais intensidade, a vida parece fazer mais sentido, mas a forma que Levrero apresenta esses casos não me convence – parece um garoto eufórico por ter visto um par de peitos pela primeira vez, o que, para mim, não é nada demais. Os únicos momentos que considero verdadeiramente luminosos são em que ele descreve um cachorro farejando um arbusto, ou o embate entre uma aranha e uma vespa, que hipnotizam o autor. Segundo ele, esses são momentos que revelam a ele o tecido com que o mundo é feito, a maneira incomum e doida com que a vida funciona.

Comparando com o que é padrão na vida das pessoas, se dedicar à literatura é uma coisa incomum e doida. É essa visão romantizada de que escrever é árduo, de que há algo mágico por trás da escrita, de que o escritor é um ser atormentado pelos seus pensamentos e por aquilo que quer, mas não consegue, colocar no papel. Eu fico entre concordar com essa visão e discordar. Concordar porque realmente considero a escrita algo exaustivo, que eu nunca seria capaz de fazer. Discordar porque, como qualquer outra profissão, escrever é só mais uma das tarefas com que uma pessoa pode ocupar sua vida. Mais ingrata, talvez, mas ainda assim, só mais um trabalho, e o escritor não é um ser mais mágico e iluminado do que um contador. Mas viver no campo da magia, se enxergar como algo especial, como alguém que vê além e faz parte de algo exclusivo, um clube com pouquíssimos membros, faz parte da personalidade do artista. Levrero não é diferente.

O romance luminoso tem humor, tem reflexão, tem muita, mas muita procrastinação. Se você aceita a proposta de Levrero de acompanhá-lo por esses meses de luta interna com seus sentimentos e sua preguiça, você aproveitará bem a leitura. Mas se você quer partir logo para os momentos luminosos, é bem capaz de odiar tudo e se decepcionar. Porque, no final, o que há de mais “luminoso” e interessante no livro são os próprios diários, as divagações de Levrero sobre a vida comum, sua observação dos pombos Kardashian. São os momentos em que a vida não cabe dentro da própria realidade, e Levrero acredita que há algo a mais, que se esconde em outras dimensões e que raramente se revelam no nosso mundo. Coisas difíceis de caber na própria escrita.

“Ocorreu-me pensar que, se essas pessoas procuram entender uma obra de arte, é porque pensam entender o Universo. O que é verdadeiramente patético. Se não pensam que entendem o Universo, por que exigiriam explicações de uma de suas partes? Pode-se expressar de outra maneira: a partir de que referência de entendimento, de quais parâmetros, busca-se entender uma obra de arte? Qual é o modelo perfeitamente inteligível com o qual se possa compará-la?”


 

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