Trilha sonora para o fim dos tempos, de Anthony Marra

Resenha de "Trilha sonora para o fim dos tempos"

 

“História é um erro que estamos perpetuamente corrigindo.”

Roman Osipovitch Markin é um artista que virou censor. Na União Soviética dos anos 1930, seu trabalho consiste em apagar da História personalidades controversas, artistas, políticos, ativistas, qualquer pessoa que tenha se oposto ao regime socialista. Seu talento para a pintura, mais especificamente os retratos, não era grande o bastante para se tornar um artista. Mas em um regime onde a “História é um erro que estamos perpetuamente corrigindo”, Markin é um dos melhores no seu trabalho.

Roman Markin é o protagonista de “O leopardo”, primeiro conto da coletânea Trilha sonora para o fim dos tempos, de Anthony Marra (Intrínseca, tradução de Sergio Flaksman). Marra nasceu nos Estados Unidos e foi selecionado pela Granta como um dos melhores autores americanos com menos de 40 anos. Essa informação me deixou meio confusa, sendo que os seus contos se passam, todos, no Leste Europeu. A confusão se dissipou quando vi, na orelha do livro, que o autor viveu e estudou nessa região durante anos. De início pode parecer que Marra está fazendo alguma crítica ao socialismo e à Rússia moderna, mas o que ele faz em Trilha sonora para o fim dos tempos é mostrar como a arte conecta pessoas e histórias.

Marra trata seu livro como uma coletânea de contos, mas ele pode ser lido também como um romance, nos mesmos moldes de A visita cruel do tempo, de Jennifer Egan, e de Atlas de nuvens, de David Mitchell. Esses dois títulos são romances em que cada capítulo foca em personagens diferentes em tempos distintos, mas que possuem uma conexão que forma uma trama maior. Praticamente o mesmo acontece com Trilha sonora para o fim dos tempos. Em “O leopardo”, o conto começa com Markin visitando a viúva de seu irmão, uma bailarina, e seu filho, alertando-os que se não tomarem cuidado poderão ter o mesmo destino que ele. Líder religioso em uma nação em que ter fé era proibido – ou melhor, a fé deveria ser direcionada apenas ao Partido –, o irmão do pintor/censor foi morto após acusado de conspirar contra a nação. Denúncia que partiu de sua própria família. É logo aqui, nesse primeiro texto, que Marra já apresenta o que influenciará todos os outros contos do livro.

“As netas”, segundo texto, é narrado por uma mulher cujo nome não conhecemos, mas conta a vida de uma de suas amigas de infância de Kirovsk, uma cidade da Sibéria que foi um campo de trabalhos forçados. Ela, assim como Galina, é neta de uma prisioneira. E Galina vem a ser neta de uma famosa bailarina enviada ao campo de trabalhos forçados após uma denúncia. Bailarina que vem a ser, quando você liga os pontos, a cunhada de Markin. Além de dar conta da vida de Galina, que de bailarina desajeitada se torna a primeira Miss Sibéria e atriz famosa, a narradora também narra os anos de mudança que sucederam à queda da União Soviética, como era a juventude de adolescentes dos anos 1980 que queriam se livrar das amarras do socialismo e de como vivenciaram a sua queda. Uma história de contento e tristeza, de um povo que viu toda a ordem com que estavam acostumados mudar do dia para a noite.

O terceiro conto, “O escritório de turismo de Grózni”, leva o leitor para a Chechênia durante um de seus conflitos com a Rússia. Nele, o ex-vice-diretor do museu de arte moderna de Grózni é contratado para tentar “reviver” a cidade bombardeada pelos russos através do turismo. Ele não se sente capaz de executar essa tarefa, e na verdade não se esforça muito em cumpri-la. Seu pensamento está no museu destruído, nas obras que conseguiu salvar e nas que não escaparam tão bem do fogo, agora guardadas em seu apartamento. Entre elas está a pintura de uma simples colina com uma datcha e um muro de pedras brancas, feita por Pyotr Zakharov-Chechenets no século XIX. O lugar onde sua mulher e filho viveram e o lugar onde morreram. Lugar onde morreu, também, Kolya, o primeiro namorado de Galina. O quadro havia sido restaurado por Nadya, sua colega de museu e agora companheira, que retirou dele a figura de Stálin, colocada ali por um antigo censor da URSS. O mesmo censor autor das mudanças nas pinturas e fotos que ela analisava antes de ficar cega, que colocava em cada fotografia alterada o rosto de um mesmo homem, retratando-o de sua infância até a vida adulta. Nadya não sabe, mas esse pintor era Markin, e o homem que ele inseriu nas imagens era o seu irmão.

Trilha sonora para o fim dos tempos termina de colocar seus elementos na mesa no quarto conto, “Os prisioneiros do Cáucaso”, ao narrar o cárcere de dois soldados russos na Chechênia, no início dos anos 2000. Danilo e Kolya são capturados em uma colina por um velho checheno, mas ao invés de serem executados, como esperavam, foram jogados em um poço. Durante o dia, eram retirados para trabalhar na horta da datcha. A mesma datcha retratada por Zakharov em seu quadro adulterado por Markin. Tudo nesse livro está, de alguma forma, ligado a esse quadro. Todas as personagens, de alguma forma, se encontram, mesmo quando não viveram na mesma época.

A própria organização dos contos de Marra é premeditada conforme um detalhe do livro. Ao ser convocado para a guerra da Chechênia pela primeira vez, Kolya recebeu de seu irmão mais novo uma fita K-7 para ser ouvida em caso de emergência. A infância dos dois, passada em um museu astronômico com naves e dispositivos feitos de lixo pelo seu pai, foi marcada por brincadeiras espaciais, com Kolya sempre sendo a pessoa enviada para o espaço quando a Terra estivesse prestes a acabar. No momento da partida, recebia de Alexey uma fita K-7, e o gesto do irmão, anos depois, remetia a esses momentos em que a vida dos irmãos ainda era simples e mágica. Dessa forma o livro é dividido: o Lado A, o Intervalo e o Lado B, como uma fita K-7 que esconde uma grande revelação quando o mundo estiver próximo de seu fim.

Nunca saberemos o que é dito nessa fita, pois Kolya nunca teve a chance de ouvi-la. Mas há uma mensagem formada pelos contos conforme as histórias se ligam. A de que o amor é a trilha sonora perfeita para o fim dos tempos. O amor de Markin pelo seu irmão assassinado, que colocou em cada fotografia um rosto até então esquecido, registrando secretamente como ele era e como ele teria sido se não fosse executado. O amor de Galina por Kolya, que mesmo depois de casada, rica e famosa, não esqueceu o namorado da adolescência. O amor de Kolya por seu irmão, o do cara do museu por sua família perdida e por Nadya, o do velho da datcha pelo lugar que tenta reconstruir conforme a pintura de Zakharov, o de um velho de São Petersburgo pelo pai cujo rosto não consegue se lembrar. Enfim, todas essas pessoas acabam reencontrando o que procuram por causa de Zakharov, por causa de uma obra de arte feita um século antes deles existirem.

Não vou conseguir falar aqui de todos os contos de Trilha sonora para o fim dos tempos, pois seria contar demais sobre detalhes do livro que prefiro deixar no escuro. Mas todos, sem exceção, são maravilhosos. Cada um vai adicionando mais um elemento que torna o livro, como um todo, uma história linda sobre a ligação entre as pessoas, a arte e o passado. São todas vidas que passaram por momentos angustiantes, difíceis, perdas irreparáveis, e que encontram nos pequenos detalhes motivos para sobreviver. Mas fora esse sentimentalismo de leitora emotiva, a escrita em si e a estrutura do livro também são belas. Como Marra constrói as personagens, como elas mudam conforme o ponto de vista, como suas histórias vão se encaixando perfeitamente em um retrato maior: dá uma satisfação incrível observar lentamente para o onde o livro vai. Trilha sonora para o fim dos tempos é, sem dúvida, uma das minhas melhores leituras desse ano.

 

“O cálcio nas clavículas que eu beijei. O ferro no sangue que ruboriza as bochechas. Gravamos nossas intimidades em átomos surgidos de uma explosão tão imensa que deixou sua marca no vazio do espaço. Um frêmito de fótons transporta a memória através de uma amnésia longa e escura. E nós também seremos transportados, partículas misteriosas que somos.”


 

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