A paixão de Mademoiselle S.

Capa de A paixão de Mademoiselle S.

Jean-Yves Berthault estava ajudando na mudança de uma amiga quando encontrou no sótão de sua casa um punhado de cartas com aparência antiga. Ao ler o conteúdo, o diplomata se espanta positivamente: são cartas de amor escritas entre 1928 e 1930, todas de autoria de uma mesma mulher, Simone, endereçadas a seu amante, Charles. Cartas com linguagem que indicam a boa educação de sua autora e, para a surpresa de Berthault, carregadas de conteúdo erótico.

A paixão de Mademoiselle S. (Companhia das Letras, tradução de Rosa Freire D’Aguiar) é o resultado de um ano de trabalho de Berthault sobre as cartas, tentando organizá-las cronologicamente e, também, tentando entender essa relação entre dois franceses do início do século XX. Não se sabe exatamente quem são a autora e o seu destinatário – Simone e Charles são nomes fictícios que o organizador deu a esses personagens. Ele consegue adivinhar, apenas, que ambos deveriam pertencer à alta sociedade parisiense, conclusão tirada através dos pequenos detalhes que Simone revela sobre seu cotidiano.

As primeiras cartas de Mademoiselle S. são, digamos, inocentes. Simone inicia um caso com Charles, um homem casado e mais novo, e escreve ao amante de forma ainda contida, lembrando quase com receio dos atos que praticaram em seus primeiros encontros escondidos. Mas conforme a relação avança, ela vai aprimorando seu repertório erótico, procurando excitar seu amante com ideias do que podem experimentar nos próximos encontros.

Simone, em suas cartas, transparece o que julgaríamos ser um pensamento avançado para a sua época, tratando a relação como algo casual – mas necessário. Ela fala de sentimento, de paixão, mas fala mais ainda sobre o sexo, e como ela sente necessidade de estar na presença de Charles mais pelo prazer sexual que sente com ele do que por amor propriamente dito. Pelo menos no começo. E digo que julgaríamos como avançado porque, como tudo o que se refere à sexualidade da mulher, qualquer comportamento fora do que é aceito pela sociedade é taxado de imoral. E ainda hoje, apesar de tantas conquistas que tivemos, a mulher que tem domínio dos seus próprios desejos e que procura o prazer sem sentir vergonha por isso ainda é tratada como alguém sem caráter, inferior. Não importa o tempo, não escapamos dos julgamentos que nascem da repressão sexual feminina.

Logo Simone envereda nas descrições dos atos sádicos aos quais se sujeita. Ela sente dor, ela sofre, mas ela aguenta todo esse sofrimento pelo prazer que dá a Charles e pelo prazer que ganha logo em seguida. A relação vai passando de um mero caso para uma paixão real, e também surge o ciúme e o medo de ser abandonada pelo amante, trocada por outra mulher mais jovem ou esquecida por não proporcionar mais a excitação que os dois sentiram no início da relação. Ela não admite, de início, os ciúmes que tem dele, a vontade de tê-lo só para si, mas é possível notar nas entrelinhas que Charles se torna seu principal objeto de desejo.

Até aqui você pode pensar que Simone é uma mulher totalmente submissa, se sujeitando a qualquer coisa para manter o amante por perto. Pois é aí que nos enganamos: A paixão de Mademoiselle S. mostra como a autora dessas cartas inverte o jogo, ou melhor, como ela toma posse totalmente de seu amante. Se é Charles quem lhe inflige as chibatadas no começo, após um ano de relação Simone assume o papel de dominadora. É ela quem desperta em Charles o desejo de ser penetrado, e vai atrás de “auxiliares” que a ajudem a proporcionar isso – sim, a famosa cinta-pau (ou cintaralho). É Simone quem passa a sugerir as fantasias mais impensáveis, narrando detalhadamente como planeja “enrabá-lo”, chamando-o muitas vezes de Lote, ou Lotezinha – diminutivo para Charlotte, a versão “feminina” de Charles.

Essa brincadeira da troca dos sexos, da liberdade de escrever e praticar esses atos sem sentir remorso, sem se sentir culpada por conta de alguma educação religiosa, de um Deus que recrimina qualquer prazer que a mulher possa ter, faz de Simone uma personagem surpreendente. Se mesmo hoje evitamos o assunto, ou falamos de sexo com eufemismos para evitar a vergonha, ela não se preocupava com isso em pleno anos 1920. É um tempo muito próximo se pensarmos em todos os anos que a humanidade está aí, mas muito longe se olharmos para todas as repressões impostas às mulheres da época.

Simone repete incessantemente o que quer fazer com Charles e o que ela quer que ele faça com ela. Arranja acompanhantes para orgias, para que ele sinta finalmente como é ter um pau ereto entrando dentro dele, apesar dos ciúmes que diz sentir. Ela flerta, também, com a bissexualidade, confessando que sente desejo por mulheres, mas que, no estado apaixonado em que está, quer ter apenas Charles, sua Lote. É meio difícil separar a Simone submissa da Simone dominadora, ou chegar a uma conclusão de se ela realmente chegou a comandar a relação em algum momento, sendo que sugeria novas aventuras sexuais para tentar agradar o amante, para evitar que ele a abandonasse antes da hora. Para que ele não pensasse que ela não era capaz de fazer as maiores loucuras para deleite dele.

A paixão de Mademoiselle S. é uma boa leitura erótica na superfície, por vezes repetitiva, mas esconde toda uma reflexão sobre o desejo da mulher e sua sexualidade em um momento histórico onde ainda não nos era permitido sentir prazer, conhecer o próprio corpo e o que somos capazes de fazer com ele.

“Há muito tempo nenhum pudor nos retém e nosso amor se exalta, torna-se mais bonito. Se não nos amássemos como nos amamos, acha que poderíamos nos contemplar sem repugnância, depois, uma vez tomado o pé da vida? Não, Charles, não, meu querido. Mas nos amamos, nada do que fazemos é sujo, e tudo o que fazemos é necessário para o nosso amor.”


 

Ficou com vontade de ler? Encontre aqui A paixão de Mademoiselle S.

Leituras relacionadas:
 A Vênus das peles, de Sacher-Masoch
História do olho, de Georges Bataille