Nix, de Nathan Hill

Capa de Nix, de Nathan Hill

Samuel Anderson é um professor de literatura inglesa numa universidade próxima a Chicago. Está na casa dos 30 anos de idade, há 10 anos assinou contrato para um livro – que nunca chegou a terminar de escrever – e sente um imenso tédio ao dar suas aulas: alunos desmotivados, que não se interessam pelo tema e estão lá apenas por obrigação. A única coisa que faz Samuel esquecer um pouco da vida estagnada é Elfscape, um RPG online que joga após o expediente. Certamente Samuel preferiria continuar na calmaria do tédio cotidiano do que ter que lidar com vários problemas que surgem ao mesmo tempo: a “perseguição” de uma aluna que não aceita ser reprovada e o retorno de sua mãe, que o abandonou quando ele tinha 11 anos de idade.

Em Nix (Intrínseca, tradução de José Francisco Botelho), Nathan Hill constrói uma história de relacionamentos – familiares e amorosos – e de fugas. Tudo começa quando Faye Andresen-Anderson deixa sua casa para nunca mais voltar. Seu marido e seu filho não percebem, mas durante um ano as coisas da mãe foram sumindo aos poucos, retiradas uma a uma de casa, até que ela mesma vai embora. Vinte anos depois, Samuel é contatado por um advogado para que ele ajude na defesa de Faye: ela jogou pedras num pré-candidato à presidência dos EUA, ferindo-o no olho, e está sendo processada. Depois de tantos anos sem contato com a mãe, Samuel sente raiva e alívio ao mesmo tempo. Raiva por estarem pedindo que ele a defenda depois de todo o trauma do abandono, alívio por saber onde está sua mãe.

Enquanto a história de Faye se desenrola, Samuel tem que aturar as mentiras de Laura, uma de suas alunas de literatura que foi pega plagiando. A garota tenta usar de todos os argumentos para escapar da reprovação – e essa é uma das cenas mais legais do livro, em que Samuel elenca as falácias lógicas do discurso e as aplica nas lamúrias da própria aluna. Quando vê que a mentira não se sustenta, ela ataca o próprio sistema de ensino. Quando vê que as críticas também não se sustentam, insinua que Samuel esteja a fim dela. Para sair desse turbilhão argumentativo, a única saída que Samuel vê é falar a mais pura verdade: Laura é burra. O problema não é a matéria, não é o sistema educacional, é a incapacidade dela de estudar. Laura, como uma boa jovem que tem certeza de que pode conquistar tudo o que deseja e que acredita ter direitos sobre todos os outros, não engole a ofensa.

Com esses dois problemas para resolver, Samuel ainda recebe outra notícia agravante. Guy Periwinkle, seu editor, avisa que ele deverá devolver o adiantamento do livro nunca terminado, caso contrário a editora entrará com uma ação contra ele. Preocupado com seu futuro profissional e vendo vídeos da mãe jogando pedras num político o tempo todo, ele aproveita a mudança de foco da carreira de Periwinkle para fazer uma contraproposta. Seu editor não se importa mais com literatura, e sim com livros bombásticos, os best-sellers que tratam dos assuntos do momento e vendem como água. Faye é o assunto da vez, e Samuel topa escrever um livro contando os seus segredos – que nem ele conhece. E é dessa forma que ele irá se reaproximar da mãe.

Hill intercala a narrativa entre diferentes personagens e diferentes tempos, não se concentrando apenas na perspectiva de seu protagonista. Laura, a aluna, ganha um discurso bem característico de jovem mimada, mas não exatamente burra: ela sabe bem como usar a dissimulação para virar o jogo a seu favor. Pwnge, parceiro de Elfscape de Samuel, tem uma narrativa paranoica e caótica, seu vício no jogo exigindo cada vez mais da sua mente e sacrificando qualquer desejo que ele tenha de ter uma vida saudável – ou de ter sua mulher de volta. Já Samuel tem aquela aura melancólica, uma tristeza provinda do constante sentimento de abandono e também arrependimento pelas escolhas que fez até agora. E para entender melhor por que Samuel se sente assim, é necessário voltar ao passado.

O relato sobre a infância de Samuel é uma das partes que mais gostei do livro e que achei mais consistente. Ele não percebe exatamente a crise que está se instalando em sua casa, pois está envolvido em uma nova amizade com um casal de gêmeos que moram próximos do seu bairro. Bishop é um garoto atrevido, brincalhão, que sempre arrasta Samuel até sua grande casa para jogar videogame, ou o faz se embrenhar no bosque em busca de alguma aventura. Sua irmã gêmea, Bethany, é muito mais contida, uma violinista com grande talento. Samuel sente uma ligação intensa com Bishop, enquanto Bethany vira seu primeiro amor. Mas as coisas nunca andam como deveriam ser: logo após o dia em que Faye deixa a casa, seus amigos também vão embora, e Samuel fica novamente sozinho. Essas duas perdas se tornam o eixo de sua vida.

Por boa parte de Nix a narrativa se concentra em Samuel, nos assuntos inacabados de sua vida e o iminente reencontro com a mãe. Além da questão da agressão, descobre-se que ela  foi presa nos anos 1960 em Chicago por prostituição e participava de manifestações anti-guerra. Informações que Samuel não fazia ideia que pudessem ser reais. Para ele, Faye nunca foi à faculdade, e ele percebe que há muito mais para descobrir.

Importante explicar também a história da própria Faye: filha de um imigrante norueguês, foi criada como uma boa garota da metade do século XX: recatada e estudiosa. Mas seu bom desempenho escolar não era o bastante para fazer que seu pai se orgulhasse da filha. A única coisa que o deixava feliz era relembrar os velhos tempos na Noruega, o lugar em que vivia, o barco em que pescava. Contar para a filha e os amigos, com um olhar distante, as lendas do lugar: os espíritos da casa e outras criaturas fantásticas. Uma dessas criaturas seria o nix, um cavalo que atraía crianças para sua garupa, que cavalgava livremente pelos campos e acelerava com tudo ao se aproximar de um penhasco, de onde se jogava com a criança. Essa lenda é um resumo do próprio livro, se olharmos para a definição que Faye dá para ele:

“Quando a história do Nix foi contada a Faye, seu pai explicou que a moral era a seguinte: Não acredite em nada que parece bom demais para ser verdade. Mas depois ela cresceu e chegou a outra conclusão, que partilhou com Samuel um mês antes de abandonar a família. Contou a ele a mesma história, mas acrescentou sua própria moral:

– As coisas que você mais ama são as que mais irão machucá-lo.”

E é justamente isso o que acontece com Samuel. Primeiro, é machucado pela mãe ao ser abandonado. Depois, por Bishop e Bethany, que vão embora justamente quando a amizade deles estava se fortalecendo – e, anos depois, os dois de certa forma também vão cravar mais uma facada em Samuel. E o motivo desses abandonos todos é a fuga: Faye foge de casa para perseguir a vida que renunciou ao sair da faculdade e voltar para o interior, decidida a se casar com o namorado do colegial e seguir uma vida regrada, constituir sua família. Assim como ela fuge de Chicago para não ter que lidar com as consequências dos protestos, que adquiriram uma proporção bem maior do que a esperada. E depois, foge da vida em família para perseguir a vida que sempre sonhou, mas não teve coragem de ter. E Samuel também é uma pessoa que foge, mas da realidade. Quando stalkeia Bethany para saber como ela está, ele tenta ignorar tudo o que deu de errado entre eles. Quando entra em Elfscape, tenta fugir de todos os problemas que estão aparecendo no presente.

Essa divisão entre Faye e Samuel é muito importante no livro. Em um momento sabemos tudo sobre Samuel, mas pouco sobre a mãe. Temos uma visão única de uma história, e ficamos com ela. Mas Hill, na segunda metade do romance, inverte o jogo e coloca Faye no centro da narrativa, até então meio esquecida em meio aos flashbacks do filho. Sua história na pequena cidade onde nasceu, sua ida para Chicago, como foi parar nos protestos contra a guerra no Vietnã, o que aconteceu que a fez voltar para casa e nunca mais mencionar Chicago outra vez. Você se simpatiza rapidamente com a Faye jovem, que só queria ter mais da vida do que se espera de uma mulher. Que percebe as mudanças sociais que estão surgindo e acredita que elas são boas. Que não se contenta em ser mais uma dona de casa.

Nix é um livro com ótimas personagens, mas não é perfeito. Algumas coisinhas durante a leitura, por mais entretida que eu estivesse, me incomodaram. Laura, Pwnge, Bishop e Bethany mereciam mesmo tanto destaque no livro sendo que não são exatamente fundamentais para a história? Pois Hill dedica capítulos e capítulos a essas personagens que não têm participação muito ativa no drama que Samuel vive com sua mãe. Não é algo que estraga o livro ou o torna enfadonho, pois são realmente bem construídas – um dos melhores capítulos narra as consequências físicas e mentais que os games causam em Pwnge, por exemplo. Porém, Nathan Hill quer abarcar muita coisa de uma vez só em seu primeiro romance, e talvez o resultado fosse mais satisfatório se ele se concentrasse nas personagens principais: Samuel e Faye.

No geral, eu gostei do tom do livro. Os dois primeiros capítulos são muito bem construídos – o abandono de Faye e seu ataque televisionado, com um sarcástico narrador apresentando como funcionam as engrenagens do entretenimento. Ele é um livro com boa dose de humor e drama, e com personagens com quem você facilmente se relaciona, até mesmo as mais irritantes – olá, Laura e advogado de Faye. E há muito mais dentro do livro que eu gostei, mas separadamente, pois não parecem fazer parte da trama do mesmo livro. Enfim, Nix não decepciona, mas também não surpreende de um jeito eufórico.


 

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