Pequenos incêndios por toda parte, de Celeste Ng

Capa de Pequenos incêndios por toda parte

Shaker Heights é uma cidade onde tudo funciona perfeitamente. O bairro planejado contém casas grandes e bem arrumadas, com o mesmo padrão de cores, com jardins bem cuidados. Manter essa ordem exige regras bem restritas, como cortar a grama nos dias certos e no tamanho certo, não deixar o lixo na parte da frente da casa para não afetar a vista das fachadas. Toques de recolher em datas festivas para que as ruas não se sujem demais, para que o barulho não atrapalhe ninguém da vizinhança. Shaker Heights é o subúrbio perfeito, o lugar em que qualquer pessoa que ama organização e ordem gostaria de morar, um lugar sem problemas, sem escândalos. Shaker Heights não é um lugar para pessoas como Mia e Pearl Warren, novatas no lugar, ou como Izzy, que acaba de sair da casa dos pais após atear fogo na residência.

Pequenos incêndios por toda parte (Intrínseca, tradução de Julia Sobral Campos) é o segundo romance de Celeste Ng, autora de Tudo o que nunca contei. Seu primeiro livro, sobre o desaparecimento de uma adolescente que se transforma em um raio-x de uma família cheia de expectativas e problemas de comunicação, venceu o Massachusetts Book Award, o Asian/Pacific American Award for Literature e o ALA’s Alex Award. Pequenos incêndios por toda parte não chegou a ser assim premiado (ainda), mas figurou em muitas listas de melhores livros de 2017 na imprensa estrangeira. Como em seu primeiro romance, Ng volta a falar de famílias, suas identidades e seus contrastes. A diferença está na consistência entre os romances: o primeiro chega quase a ser morno em sua maior parte, deixando toda o impacto emotivo para o final. Já o segundo não termina de forma tão devastadora, mas é mais consistente do início ao fim.

Após anos vivendo praticamente como nômades, Mia Warren, uma fotógrafa, e sua filha Pearl, de 15 anos, chegam a esse lugar perfeito e limpo que é Shaker Heights – lugar, aliás, onde a própria autora já viveu. Logo quando descarregam os poucos pertences do carro velho, são notadas por Moody, filho do meio dos Richardson, uma típica família do local. Moody tem três irmãos: a mais velha Lexie, de 18 anos, é a adolescente padrão, bonita, loira, alta, popular. Trip segue pelo mesmo caminho, talentoso nos esportes e, superficialmente, não tão esperto. Moody, que compartilha os 15 anos de Pearl, é mais introspectivo, escreve poesia e é mais sensível às outras pessoas, porém ainda é um cara “certinho”, que segue as regras. Já Izzy, a caçula é completamente diferente do que se espera de alguém que nasceu em cresceu em Shaker Heighs.

Não há nada de errado com Izzy. Ela é uma garota estudiosa, não se mete em encrencas, mas sua relação com o resto dos Richardson (com exceção de Moody, talvez) é turbulenta. Izzy é a garota que faz perguntas, a garota que contesta as regras, o padrão, e para uma família “perfeita” como os Richardson, ouvir resmungos mal-humorados sobre feminismo, igualdade e direitos das mulheres está muito além do comportamento que esperam para a filha. O embate de Izzy é mais forte com Helena, sua mãe, uma jornalista que até tinha ambição na juventude, mas a vontade de voltar para Shaker Heights a transformou numa espécie de colunista de amenidades. Helena conhece todos do lugar, é influente, e a imagem que sua família passa é essencial. E é bem isso o que começa a mudar quando as Warren chegam em Shaker Heights.

Celeste Ng mostra um gradual choque entre essas duas famílias conforme Moody e Pearl desenvolvem uma amizade. Pearl se encanta com a grandiosidade da casa dos Richardson, com como eles têm suas raízes fincadas naquele lugar, enquanto ela e sua mãe se mudam constantemente. Ela se sente atraída pela elegância de Lexie e Trip, secretamente desejando ser mais parecida com a Richardson mais velha, ser mais uma “garota normal”. Moody também se vê encantado pelo modo de vida das Warren, mas ele está mais tragado pela paixão adolescente que sente por Pearl, sua aura despojada, artística. Mas é Izzy quem acaba sendo mais impactada por esse choque entre mundos: Mia é a mãe que ela gostaria de ter tido, uma mulher adulta que a trata com respeito, não enxerga seus questionamentos como reclamação infantil e ainda incentiva seu modo diferente de pensar.

Pequenos incêndios por toda parte tem uma gama bem maior de personagens do que Tudo o que nunca contei. Este livro não se concentra em apenas uma família, em como as expectativas e as escolhas dos pais irão influenciar os filhos. Esse raio de influência se estende, agora, para outros temas. Além da dinâmica entre as Warren e os Richardson, há um caso de abandono infantil e adoção que divide o lugar: uma jovem chinesa, desesperada, abandona sua filha no corpo de bombeiros, e é um casal de Shaker Heights que a acolhe e tenta adotá-la. Mas quando essa mãe está em uma situação melhor, meses depois, e descobre onde está sua filha, tenta reaver a guarda. A disputa jurídica desse caso também vai dividir ainda mais os Richardson e as Warren, pois de certa forma eles estão envolvidos nesta história.

O que talvez tenha feito eu considerar Pequenos incêndios por toda parte mais consistente do que Tudo o que nunca contei foi a sensibilidade de Celeste Ng em construir as relações entre mães e filhas. Essa sensibilidade está presente no primeiro livro, claro, mas ela surge lá pelo final, enquanto aqui você entende desde o princípio como essas relações foram se construindo com o passar dos anos. E essa troca de mundos, de jeitos de viver, também contribui na hora de mostrar como uma família difere da outra, no que elas erram e no que elas acertam. Por mais que Pearl tenha liberdade de pensar do jeito que quiser, ela sente falta de algo concreto, de amizades duradouras e de ter um lugar para chamar de lar. Enquanto Izzy, que tem tudo isso, se sente oprimida por esse ambiente estritamente regrado, onde as aparências contam muito mais que as atitudes. Ela se sente muito mais à vontade com Mia, uma mulher que acabou de conhecer, do que com sua família.

E é isso o que eu gosto nos livros da Celeste Ng. São temas simples, corriqueiros, mas bem desenvolvidos e que falam de questões importantes: estereótipos, origem, direitos da mulher, maternidade, descoberta. E ela não narra essas questões como se fosse uma professora explicando o que é feminismo, o que é representatividade, o que são os direitos sobre o corpo. Ela cria bons backgrounds para as personagens, dá bons motivos para eles serem como são. Às vezes ela pode escorregar, inserir informações do nada para resolver alguns conflitos da trama, mas mesmo assim a essência da história permanece a mesma. E em Pequenos incêndios por toda parte essa essência é bem evidente: às vezes são necessários pequenos incêndios, uma pequena destruição, para que as coisas se resolvam.


 

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