Tupinilândia, de Samir Machado de Machado

Capa de Tupinilândia

Em 1985, um parque está prestes a inaugurar no coração da floresta Amazônica. Tupinilândia é a exaltação da cultura brasileira: Artur Arara recebe de asas abertas o público adulto e infantil que poderá se encantar com montanhas-russas, carrosséis, réplicas de dinossauros, encontrar antigos personagens queridos da ficção e da realidade, tudo regado ao melhor da produção nacional. Tupinilândia não é só um parque de diversões, mas também uma cidade milimetricamente planejada. Como o município mais perto fica a dezenas de quilômetros de distância, os funcionários do empreendimento vivem dentro do complexo, contando com uma estrutura bem abastecida para atender a todas as suas necessidades. Tupinilândia é um sonho que está se tornando realidade. Ou quase.

Novo romance de Samir Machado de Machado, Tupinilândia (Todavia) mistura a aventura com a história recente do país. Em seus livros anteriores, o autor estabeleceu suas histórias no Brasil colonial (Quatro soldados) e na Inglaterra do século XVIII (Homens elegantes), e aqui ele explora o clima oitentista de um país se encaminhando para a abertura política. O romance é tanto uma viagem nostálgica quanto um alerta para um fantasma que ninguém em sã consciência gostaria de ver de novo: a ditadura militar.

Tupinilândia nasce do sonho do filho de um imigrante norte-americano que fez fortuna no Brasil com sua companhia elétrica. João Amadeus Flynguer herdou as empresas do pai e, após os 60 anos, decidiu pôr em prática o plano de construir um gigantesco parque de diversões no meio da floresta, no Pará. Flynguer é um grande admirador de Walt Disney, que recebeu no Rio de Janeiro nos anos 1920 enquanto sua equipe fazia pesquisas na cidade para desenvolver um novo personagem para seus desenhos animados – que viria a ser o papagaio Zé Carioca. Outra inspiração de Flynguer é Fordlândia, cidade planejada por Henry Ford no meio da selva para facilitar a extração de borracha, um projeto fadado ao fracasso pela falta de planejamento e estudos.

O romance começa justamente com um relato jornalístico que relembra a visita de Walt Disney ao Brasil. Com isso Machado já estabelece a ideia que será a obsessão de Flynguer: um lugar mágico, onde as pessoas se sintam bem e felizes o tempo todo, onde suas fantasias se tornam realidade. Essa era a sensação que ele tinha ao ver as animações de Disney, e era isso o que ele queria proporcionar para o seu país. Quem escreveu essa matéria, descobrimos depois, é o jornalista Tiago Monteiro, jovem gaúcho que é o centro da narrativa da primeira parte do livro. Anos após entrevistar Flynguer sobre Walt Disney, Tiago volta a ter contato com ele através de um convite inusitado: ser ghost writer da biografia do empresário e de seu grande projeto, Tupinilândia. O convite surge após a reaproximação de Tiago com o filho de Flynguer, Beto, com quem já teve um relacionamento no passado – e que não acabou da melhor forma. O jornalista topa o trabalho meio no escuro, sem saber exatamente no que consiste Tupinilândia e quais são os objetivos de Flynguer.

“Em Tupinilândia tudo sempre daria certo, pois fora planejado para ser assim, para sufocar com a alegria do samba, o sabor das frutas e a rapidez de seus ritmos aquela tão sutil e oculta tristeza brasileira, tristeza que nascia do sentimento do fracasso pela miragem do progresso, do país do futuro, um futuro que se projetava constantemente à sua frente e fugia para longe na mesma velocidade com que se corria atrás dele.”

Obviamente nem tudo corre do jeito esperado. Como citei lá em cima, o romance trata também de um período de mudança na política brasileira, deixando para trás a ditadura militar e rumando para a redemocratização, com as eleições que elegeram Tancredo Neves se desenrolando. E, como qualquer grupo dominante que se vê perdendo terreno, os militares querem se meter no projeto de Flynguer. Um grupo ultra-nacionalista de militares, uma versão tupiniquim de nazistas, planeja sabotar a abertura de Tupinilândia, e invadem o lugar no seu fim de semana de testes.

Machado é bem detalhista ao descrever Tupinilândia. Cada parque tem um tema, cada brinquedo é dedicado a algum personagem ou marca registrada 100% brasileira. Para alguns essa descrição toda pode soar meio cansativa, mas para mim ajudou muito a visualizar esse lugar que se propõem a ser a Disney do Brasil – tem até um mapa no fim do livro para ajudar na localização. E junto a isso tem esse tom de aventura, de descoberta, onde mulheres de negócio são capazes de pegar armas e atirar em quem ameaça a sua vida e a vida de sua família, quase um Jurassic Park onde os convidados do parque devem tentar sobreviver às ameaças – dos militares, não dos dinossauros.

“Bem, o século XX acabou. Nós vivemos no ‘mundo do futuro’ de nossos pais e avós, temos computadores de bolso, redes de informação e sistemas automatizados. Ninguém inventou ainda o skate voador, mas há esperanças. Quantas datas da ficção científica de nossas infâncias já deixamos para trás? Quantos apocalipses, odisseias no espaço, ou anos em que faríamos contato? Chegamos, e agora que cá estamos, para onde apontamos nossas visões? Na última virada de século, olhava-se para os futuros possíveis. Nesta, nos apegamos à nostalgia. O que aconteceu?”

Na segunda parte do livro, Machado dá um salto de mais de trinta anos, e estamos em 2016, vivendo uma nova reviravolta política e observando de modo jocoso, mas preocupado, novas manifestações favoráveis à ditadura. Artur Flinguer – aparentemente sem parentesco com Flynguer – é um arqueólogo do IPHAN que recebe uma bolsa de pesquisa para explorar e mapear o misterioso parque de Tupinilândia – uma obsessão de sua infância, quando lia as histórias em quadrinho de Artur Arara e via anúncios nessas revistinhas de um grande parque no Pará, parque este do qual nunca se ouviu falar depois. Com uma equipe de dois amigos pesquisadores e dois estagiários – sua filha e outro aluno –, ele consegue autorização de Beto para visitar o lugar. O que descobrem lá é bem diferente do que imaginam.

Se eu já tinha gostado de toda a ambientação que o autor fez na primeira parte, gostei mais ainda de como ele interliga a nostalgia e a paranoia na segunda. O que há em Tupinilândia agora é uma sociedade fechada, comandada por militares, que acredita que a Guerra Fria ainda existe e que o comunismo é o grande inimigo a ser combatido. Milhares de pessoas vivem como se estivessem, ainda, nos anos 1980, sem contato com o mundo de fora e vivendo um regime extremamente regrado. Capturados pelos militares, Artur e sua equipe precisam sair de Tupinilândia. Vivos, de preferência.

O que me fez gostar disso? Bem, Machado deixa bem claro toda a lógica por trás do controle exercido pelos militares. Eles atuam através do medo e da desinformação. Eles alteram o significado de qualquer acontecimento para que ele se encaixe em seus objetivos, e inventam inimigos para justificar suas medidas e truculências. Nos anos 1980, os militares de Tupinilândia “criavam” comunistas em todas as áreas para manter uma relevância que se esvaia. Nos anos 2010, eles levam essas mentiras e invenções a outro patamar para manter milhares de pessoas presas em sua fantasia absurda.

Tupinilândia é um ótimo livro por conter entretenimento de primeira e uma visão assustadora do que a sociedade é capaz de fazer. Porque estamos em uma época em que tudo pode ser alterado, inventado e difundido para confundir as pessoas. E está aí algo muito relevante nessa história do Samir Machado de Machado. E, claro, por toda a nostalgia contida na obra, das figurinhas do Chocolate Surpresa ao lançamento do primeiro álbum da Madonna, um livro que ambienta muito bem essa década que deixa saudade até em quem não viveu ela – eu nasci em 1989, né.

Se tem um livro nacional que você deveria ler agora, esse livro é Tupinilândia.

“O que nos faz humanos é nossa memória cultural, que nos torna capazes de atribuir sentido a símbolos sem a necessidade de um estímulo externo. Somos mais do que animais, somos animais com cultura. É por isso que ela é tão vigiada, resguardada, reconstruída e, no caso do Brasil, intencionalmente negligenciada por sucessivos governos. Sem contexto, a nostalgia se torna uma ferramenta de alienação e autoritarismo. Façam o teste e percebam: o ataque à memória e à cultura é o primeiro passo de um governo autoritário, em todas as épocas, qualquer que seja a posição ideológica. Porque nossa memória cultural é um material tão sensível e volátil quanto combustível. Esse combustível alimenta o sistema, mas também pode se tornar o coquetel molotov que o incendiará.”


 

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