Flores para Algernon, de Daniel Keyes

Capa de Flores de Algernon

Charlie Gordon tem trinta e poucos anos. Desde os 17 trabalha na mesma padaria varrendo o chão e fazendo entregas. O emprego de Charlie é uma promessa que o dono da padaria fez ao seu tio: que Charlie sempre tivesse um lugar onde trabalhar, ganhar um dinheiro e se manter. Há anos ele não tem contato com seus pais e sua irmã mais nova. Foi praticamente abandonado por eles. Charlie tem um Q.I de 70. É como se tivesse uma mente de criança. Ele não consegue aprender coisas simples, mas seu sonho é saber ler e escrever. Ser inteligente. E ele está prestes a se envolver em uma experiência que vai ajudá-lo nisso.

Flores para Algernon, de Daniel Keyes (Editora Aleph, tradução de Luisa Geisler) foi publicado em 1959. Virou um clássico da ficção científica, apesar de não conter alta tecnologia ou viagens no espaço. O que há de engenhoso no livro é a ideia de uma operação que aumenta as capacidades mentais de uma pessoa, tanto que ela pode superar a inteligência de seus professores, dos seus médicos e até de Einstein. Como em toda boa ficção científica, não é só a experiência que importa, mas sim o lado humano de tudo isso.

Todo livro é narrado por Charlie através de seus Relatórios de Progresso, e você já começa gostando dele justamente por isso. Seus primeiros relatos são carregados de erros de grafia e de concordância, como se fosse uma criança recém alfabetizada escrevendo. Mas Charlie é dotado de extrema bondade, e por mais que não entenda exatamente o que vai acontecer, ele aceita de bom grado fazer parte dessa experiência porque ela vai deixa-lo inteligente. Temos poucas informações sobre o passado do protagonista neste começo, ele não fala de sua infância ou do que lhe aconteceu depois que passou a morar com o tio e a trabalhar na padaria – ele nem consegue lembrar de como seus pais são. Mas ele quer ser inteligente e quer mostrar isso para seus pais e sua irmã.

O retardo mental de Charlie o torna um alvo fácil para zombarias, claro. Nem todos os seus colegas de trabalho o tratam com respeito, e muitos aproveitam a sua ingenuidade para fazê-lo de bobo. Mas Charlie, incapaz de pensar mal de qualquer pessoa, não enxerga isso – não teria como. Para ele, quando as pessoas riem de suas “trapalhadas” elas estão rindo com ele, e não dele. Essas pessoas são suas amigas, são o seu círculo social, e ele quer deixá-las orgulhosas.

Nesses Relatórios de Progresso vamos nos familiarizando com Charlie antes da cirurgia, acompanhando suas consultas médicas com psicólogos e neurologistas e suas conversas com a professora Alice, que o indicou para o projeto. São nessas consultas que ele se depara com Algernon, um ratinho que passou pela cirurgia que lhe será aplicada, o primeiro grande sucesso da pesquisa dos doutores Nemur e Strauss: a capacidade mental do rato cresceu satisfatoriamente, e depois de semanas não apresentou nenhuma regressão, como aconteceu com outras cobaias. Charlie e Algernon são colocados para disputar uma “corrida” por um labirinto, e Algernon sempre ganha. Charlie quer ficar tão inteligente quanto Algernon.

Através dos relatórios de Charlie vemos claramente como ele vai mudando após o experimento. Suas frases ficam mais eloquentes, com poucos erros, e logo ele começa a devorar livros – teorias científicas e ficção. Ele se engaja em conversas complicadas com os alunos da universidade onde o projeto é desenvolvido, e em poucas semanas o deslumbre que ele tem por todas aquelas pessoas dotadas de inteligência vira algo comum, às vezes até enfadonho, sendo que Charlie passa a aprender muito mais do que eles.

É neste momento que temos um vislumbre do passado de Charlie: as memórias de sua infância voltam, e o que aconteceu com a sua família se revela. Sua mãe não aceitava que o filho era diferente. Quando ele era apenas um bebê, ela tinha esperanças de que ele logo se desenvolveria, começaria a falar e a gravar o que aprendia na escola, e seria como todas as outras crianças. Porém, conforme ele cresce, a esperança da mãe se esvai, e de protetora passa a ser a maior detratora do pequeno Charlie. Ela não entendia suas limitações e o castigava a cada “erro” cometido pelo filho. O seu pai, enquanto isso, tentava proteger o garoto da paranoia da própria esposa, mas não tinha voz suficiente para fazê-la entender a condição delicada do filho. O medo de decepcionar a mãe invadia Charlie e o fazia ser ainda mais castigado, enquanto no fundo tudo o que ele queria fazer era agradar os pais, mostrar que era inteligente.

A situação piora com o nascimento de sua irmã caçula, levando sua mãe a acreditar que a presença de Charlie era perigoso para ela. Apesar dessa apreensão, Charlie era carinhoso com a irmã e a via como uma amiga com quem pudesse brincar, mas a mãe não era capaz de ver isso, e Charlie não conseguia se explicar. A rejeição sofrida por Charlie não era 100% compreendida, mas ele tinha uma certeza: ele seria amado se fosse inteligente.

Enquanto memórias voltam, Charlie tem que aprender a lidar com as outras pessoas que não entendem sua mudança ou então o tratam com atenção exacerbada por fazer parte de um experimento. A versão “melhorada” de Charlie se apaixona por Alice, e o sentimento parece recíproco. Mas Charlie não sabe exatamente como lidar com esse sentimento, e aqui está um grande acerto do livro: por mais que ele possa ler e aprender muito rápido, ele não tem desenvolvimento emocional. Nenhum livro e nenhuma aula podem, de um dia para o outro, desenvolver as capacidades emocionais de uma pessoa. Ainda mais com alguém como Charlie, que nunca teve um relacionamento com o sexo oposto. E os próprios castigos sofridos na infância desencadeiam traumas que não somem no Charlie inteligente: toda vez que tenta se aproximar de Alice ele trava, sente um medo absoluto que o leva a fugir. Ele está inteligente, mas não consegue se envolver com ninguém.

As relações interpessoais, na verdade, só pioram. Com a visível mudança no comportamento de Charlie, o antes bondoso e atrapalhado entregador da padaria se transforma em um confiante e eficiente padeiro. Seus colegas não entendem essa mudança – ninguém sabe sobre o experimento –, e logo passam a enxergar Charlie como uma ameaça – de seus empregos, no caso. Conforme sua inteligência evolui, mais sozinho ele fica. E isso não é culpa apenas das pessoas. O próprio Charlie fica rapidamente entediado com qualquer conversa mundana. As pessoas da universidade que antes pareciam tão inteligentes agora são meros estudantes que não conseguem seguir o raciocínio de Charlie em uma conversa. Até com Alice chega a ser difícil conversar, ele mais centrado na sua evolução do que nela. Ele se isola, e isola os outros.

“Estou tão distante de Alice com um Q.I. de 185 quanto estava quando tinha um Q.I. de 70. E, dessa vez, nós dois sabemos.”

Flores para Algernon é um livro extremamente triste. Tanto o velho como o novo Charlie são pessoas empáticas que buscam contato humano, mas recebem em troca apenas crueldade. Charlie se vê dividido entre seu velho e seu novo eu, o abandonado pelos pais e o que agora ajuda no próprio projeto que o tornou inteligente. Mas apesar de toda essa evolução, ele tem muitos assuntos não resolvidos que interessam mais a ele do que qualquer debate científico: ser visto como um ser humano.

O Charlie de Q.I. 70 era tratado como uma anomalia, uma coisa sem inteligência e manipulável para a diversão dos outros. Mas o Charlie de Q.I. 185 é visto como uma cobaia, e ele se ressente muito com a maneira que é tratado pelos médicos, como se fosse apenas uma coisa a ser estudada, e não um ser humano. No fundo, Flores para Algernon é um livro que discute a solidão e a relação entre as pessoas, e não um romance sobre o aumento instantâneo da inteligência.

A motivação de Charlie, desde o começo, é ser visto como um ser humano. Ele queria que sua mãe o visse como alguém normal, e para o antigo Charlie ser normal era ser inteligente. Porém, quando se vê dotado de inteligência, ele aprende que não é a capacidade mental de alguém que define se você será amado ou não. Ele aprende que as diferenças que carrega são incompreensíveis para quem é “normal”. Ou ele é um “retardado”, ou ele é uma “aberração de laboratório”. E em nenhum desses cenários ele parece ser digno de Alice, digno de ter uma conversa de igual para igual, humano com humano, com seus médicos. O único ser vivo com quem ele consegue se conectar verdadeiramente é Algernon, que passou pelas mesmas mudanças que ele e, apesar de ser um rato, entende o que é ser apenas uma cobaia para os outros.

Charlie é um personagem que cativa rapidamente e você fica apreensivo com o desfecho da história, porque não há meios dela terminar bem. Flores para Algernon é um livro com incrível sensibilidade, Keyes foi certeiro ao criar esse personagem que viveu dois momentos tão extremos e distintos, e passou por isso apenas por querer ser aceito e visto como um ser humano normal.


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