O amigo de infância, de Donna Tartt

Capa de O amigo de infância

Quando uma autora que você gosta muito te decepciona, o sentimento é o mesmo de quando seu restaurante favorito te decepciona: triste demais. Meu primeiro contato com Donna Tartt foi aos 16 anos de idade, quando li A história secreta, uma trama sobre um grupo de estudantes da língua grega que se envolvem em rituais dionisíacos, uma certa dose de orgia e assassinato. Não é um livro de mistério, mas sim uma trama bem estruturada sobre amizade e segredos. Anos depois o li novamente e continuei achando o meu preferido. De O pintassilgo também gostei, talvez não com tanta força, mas o clima de A história secreta permanecia, aquela coisa da sofisticação de Donna Tartt que tanto gosto. Infelizmente, não tive a mesma sorte com amigo de infância.

Segundo romance de Tartt, amigo de infância (Companhia das Letras, tradução de Celso Nogueira) começa com o assassinato do pequeno Robin Dufresnes. Em um momento o garotinho está brincando na rua com sua irmã Allison, no outro é encontrado enforcado em uma árvore próxima da casa da família. O baque dessa tragédia é tão forte que sua mãe nunca irá se recuperar; seu marido irá deixar a casa, com voltas esporádicas, e a mãe do garoto deve criar suas duas outras filhas, Allison e Harriet – que na época era apenas uma bebê -, praticamente sozinha, não fosse a ajuda de sua mãe e de suas tias. É justamente Harriet, quando tem 12 anos de idade, quem conta essa história.

No começo eu gostei muito de Harriet Dufresnes. Ela parecia ser uma daquelas garotas rebeldes que não aceitam nenhum tipo de padrão imposto às meninas. Uma garota inteligente que contesta a tristeza da mãe, da irmã e até a autoridade de suas tias-avós, tão próximas da família e que se metem em cada assunto da casa. E ela tem um amigo fofo, Hely, que a acompanha em cada brincadeira. Mas não precisa de muito para Harriet começar a irritar.

amigo de infância é um livro sobre a perda da inocência, mas isso não parece acontecer com Harriet. Ela está, afinal, equivocada durante a maior parte da história, e se mostra uma personagem fria e com um senso bem deturpado de justiça, como uma criança que nunca aprendeu o que é ter limites. Não parece haver um crescimento da personagem no decorrer do livro. Harriet se compromete a descobrir o que aconteceu com seu irmão, e tem uma suspeita sobre quem pode ser o assassino: Danny Ratliff, que na época da tragédia tinha a mesma idade de Robin e andava maltrapilho em volta de sua casa no fim da tarde em que o garoto morreu.

Para provar sua teoria, Harriet arrasta Hely para suas “aventuras” e investigações, usando o garoto de forma egoísta, já que ele faz tudo o que ela pede por estar apaixonado por ela. Claro que Harriet não nota os seus sentimentos, e está muito centrada em descobrir a verdade sobre a morte do irmão mais velho para se preocupar com Hely ou até ouvir o garoto.  

Danny, o “suspeito”, é de uma família conhecida na cidade, mas não por bons motivos: ele e quase todos os seus irmãos tiveram passagem pela prisão; seu irmão mais velho produz metanfetamina, que ele e um amigo são encarregados de vender, e quando percebem que estão sendo de alguma forma perseguidos, caem em uma paranoia absurda. Esses momentos do livro, quando Tartt se concentra em descrever a vida dos Ratfliff e como se relacionam entre si, são os melhores momentos do livro.

Há um grande contraste entre a vida dos Dufresnes e dos Ratliff. Os Dufresnes foram uma importante família da cidade, donos de uma mansão imponente. Mas o bisavô de Harriet acabou com quase todas as economias da família, deixando suas filhas em uma situação não tão privilegiada – mas elas ainda agem como se tivessem esse privilégio e conservam o respeito adquirido pelo sobrenome que carregam. Os Ratliff, por outro lado, são vistos como a escória do lugar: sempre pobres, vistos como problemáticos e perigosos.

Não é de se admirar que as “investigações” de Harriet fazem com que ela acredite que Danny seja o culpado pela morte de Robin: é óbvio que o menino é o responsável. Quando se convence disso, seu plano é vingar Robin, dando início a uma sucessão de acontecimentos atrapalhados que confunde toda a família Ratliff. A relação entre os irmãos fica mais tensa, e até a velha senhora Ratliff acaba sendo envolvida no plano de vingança de Harriet. As coisas ficam fora de controle, tanto para Danny quanto para Harriet. E, no final, fiquei com mais pena dele do que dela.  

Ainda há muito no livro sobre os próprios Dufresnes. De certa forma esta também é a história dessas mulheres e seus destinos. A avó de Harriet certamente é a melhor personagem dentre todas, aquele tipo de “velha rabugenta” que no fundo é bem cativante. Ela é determinada, toma as rédeas da família, não dá ouvidos a cochichos e fofocas. Ela é seca, não demonstra afeto com facilidade, e foi também uma das pessoas que mais sofreu com a perda de Robin – mas tenta não deixar isso transparecer. Gostei muito dela, só que não foi o bastante: ainda sinto que Tartt poderia ter explorado a relação dessa família de outra forma.  

Minha implicância com Harriet foi o principal motivo de não gostar da leitura. Mas não foi só isso: a história toda me pareceu truncada demais. O livro não me passou aquela verossimilhança nem aquele sentimento de estar bem envolvida, torcendo pela história. O amigo de infância foi minha primeira decepção com Donna Tartt, mas felizmente tenho A história secreta para me lembrar de como ela é ótima.


Ficou com vontade de ler mesmo assim? Encontre aqui O amigo de infância, de Donna Tartt.