Praia de Manhattan, de Jennifer Egan

Nos anos 1940, Anna Kerrigan é uma jovem de 21 anos que trabalha no Arsenal da Marinha, na zona portuária de Nova York. Em plena Segunda Guerra Mundial, a escassez de homens – pois muitos foram enviados para a batalha – leva as fábricas a contratarem cada vez mais mulheres. Anna é uma dessas jovens que se alistam para ajudar, para sentir que estão fazendo a sua parte na luta, mas os dias em que passa medindo peças minúsculas que farão parte de um navio da marinha são tediosos demais. Após observar um mergulhador sendo içado da água ela decide que vai se tornar uma mergulhadora.  

Praia de Manhattan, o romance mais recente de Jennifer Egan (Intrínseca, tradução de Sergio Flaksman) é um resgate histórico da Nova York dessa época e também de anos anteriores, quando a quebra da bolsa afetou milhões de pessoas, entre elas o próprio pai de Anna. O crime organizado foi a solução que muitos encontraram, mas quando Anna tinha apenas 12 anos ela não fazia ideia disso e nem desconfiava com o que e quem seu pai se envolvia. Agora, adulta, e sem saber o que aconteceu com o pai que abandonou ela, sua irmã deficiente e sua mãe, uma pessoa desse passado ressurge para mostrar que os “bandidos” de antes querem seu lugar ao sol.

Essa pessoa é Dexter Styles, um empresário dono de várias boates da região com conexões obscuras com o crime. Do reencontro inesperado Anna resgata a memória de uma visita feita à casa de Styles com seu pai quando era pequena, uma visita que ela teve que manter em segredo para sua mãe e da qual nunca soube exatamente qual foi o propósito. Apesar de não revelar já conhecer Styles previamente, ela decide se aproximar para tentar descobrir por que o pai a deixou, o que foi feito dele.

Praia de Manhattan é um livro bem diferente dos outros romances de Egan. Dela li Olhe para mim e o maravilhoso A visita cruel do tempo – que em sua essência é bem diferente do que muita coisa por aí, com seus capítulos em diferentes formatos e vozes. Este é um romance mais tradicional, linear, uma trama que se concentra tanto nas questões interiores das personagens quanto em suas atitudes. Daquelas histórias que você lê pelo prazer de descobrir o que acontecerá a seguir.

Porque até certo ponto o leitor é tão leigo quanto Anna sobre o paradeiro de seu pai. Mesmo com ela acreditando em um possível abandono, é improvável que ele tenha feito isso por escolha própria. Egan deixa bem claro desde o início que Eddie tem uma relação feliz e saudável com sua família. Ele ama a esposa, uma ex-dançarina, e idolatra Anna, uma garota desde sempre esperta e independente, que parece entender o que o pai sente. Ele apenas não sabe como lidar com Lydia, a filha mais nova, que por uma séria deficiência é incapaz de andar ou falar e exige cuidados extremos. Não é que ele não ame ela, mas a impotência que sente de não conseguir ajudá-la do jeito que gostaria torna sua relação com a filha algo complicado – de um sentimento carinhoso ele salta logo para a irritação. Mas, apesar disso, é bem evidente que Eddie busca o melhor para sua família e quer ser capaz de dar a elas o que precisam. Ele não abandonaria sua casa sem um bom motivo.

O desaparecimento do pai não é o único conflito na história de Anna. Lydia, claro, é uma preocupação constante, mas o que Anna quer conquistar é o respeito dos homens como profissional e mostrar que é capaz de se tornar uma mergulhadora talentosa. Em uma época em que mulheres eram vistas apenas como donas de casa e mães, almejar uma posição predominantemente masculina é um ato arriscado. Ela tem que enfrentar muita descrença até conseguir sequer ser aceita nas aulas de mergulho – com equipamentos pesadíssimos que mesmo um homem mal consegue carregar –, e, como qualquer mulher, trabalhar muito mais para provar que é capaz.  

Anna é dessas personagens que esperam muito mais da vida. Tanto sua versão pré-adolescente quanto a sua versão adulta carregam uma personalidade dominante que não aceita o papel geralmente imposto às mulheres. Mesmo nos momentos em que Anna parece mais perdida, descrente quanto a própria capacidade ou entorpecida pela relação com Styles, Egan não deixa sua protagonista baixar a cabeça – e como precisamos de personagens como Anna. Houve momentos em que não concordei de todo com o rumo de Anna e suas escolhas – obviamente algo envolvendo um certo moralismo com a questão do aborto -, mas esses momentos não fizeram ela perder sua vontade de dar o rumo para a própria vida.

Egan não é uma autora de frases edificantes ou insights poderosos. Ela é boa em narrar histórias, e aqui em Praia de Manhattan ela faz isso muito bem. Ela te leva tanto para o fundo do mar, onde Anna e seus colegas soldam cascos de navios, quanto para festas regadas a champanhe em luxuosas casas noturnas de Nova York. Anna transita entre as operárias do Arsenal da Marinha e a vida doméstica de cuidados com sua irmã. Egan te leva de uma mansão numa praia de Manhattan para um navio em alto mar. As relações mais inesperadas se tornam verossímeis, e mesmo com a história se complicando, Anna conquista muita coisa nesse caminho, principalmente sua independência.


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