The Broom of the System, de David Foster Wallace

Capa de The Broom of the System

Primeiro romance publicado de David Foster Wallace, The Broom of the System foi lançado em 1987. Ele já contém muito do jeito DFW de narrar, essa coisa meio absurda e extremamente contemplativa – mas sem notas de rodapé. Quando comecei a ler, Caetano Galindo, tradutor de Graça infinita, sugeriu que eu desse uma olhada no artigo sobre Wittgenstein na Wikipedia, pois ajudaria a entender o livro. Li. Entendi nada.

Lenore Beadsman tem 24 anos e trabalha como telefonista em uma editora de Cleveland, a Frequent and Vigorous. Os telefones do prédio onde fica a editora estão caóticos: um erro nas linhas faz com que os números “sumam”, e assim Lenore e sua colega Candy, com quem também divide um quarto, recebem ligações destinadas a todos os lugares possíveis, menos para a editora. Só que esse é o menor dos problemas de Lenore naquele dia. Antes mesmo de chegar ao trabalho, ela recebe uma ligação do asilo informando que sua bisavó de 90 e poucos anos, que também se chama Lenore Beadsman, desapareceu.

E ela não sumiu sozinha. Outros internos do asilo e até funcionários desapareceram também. Não há pistas do que pode ter acontecido. Um dos funcionários diz que ela não precisa se preocupar, que ele já falou com seu pai, Stonecipheco Beadsman III, e que não há razão para alarme – seu pai, aliás, é o dono do asilo, da cidade onde vive Lenore e também dono de uma grande fábrica de papinha para bebês que desenvolveu uma substância capaz de adiantar a fala das crianças em meses ou até anos.

A preocupação de Lenore não é com a segurança da bisavó, mas sim com sua saúde: como se fosse um animal de sangue frio, ela precisa estar em um ambiente super-aquecido para que seu sangue continue fluindo. Não há lugar fora o asilo que tenha as condições necessárias para que a bisavó se mantenha “quente”. O grande motor do livro é, então, a busca da protagonista pela mulher, mas no fim o romance trata da busca de Lenore pelo controle da própria existência.

Outra coisa curiosa desse dia de Lenore é que, quando chega em casa após o trabalho, descobre que sua cacatua, Vlad the Impaler (melhor nome) está falando. Falando como se fosse uma pessoa. Na verdade Vlad está repetindo o discurso de término de namoro que Candy ensaiava sozinha antes de Lenore chegar. Imagine só, uma cacatua falando que uma mulher precisa de muito mais do que só sexo. Surge a necessidade de ensinar outras palavras para a ave, pois sua proprietária religiosa certamente não gostaria de uma cacatua falando sobre sexo em sua casa.

Tudo parece bem estranho e confuso até agora, mas na real The Broom of the System é um livro bem sussa de se ler. E conforme lia a sugestão do Galindo foi fazendo sentido (e se pá eu entendi o artigo da Wikipedia sobre Wittgenstein lendo o livro, e não o contrário). Onde entra Wittgenstein nessa história, aliás? Bem, Lenore Beadsman, a bisavó, foi aluna do filósofo e é até então fiel aos seus ensinamentos – e sim, isso tem tudo a ver com a história.

”All that really exists of my life is what can be said about it.”

DFW é um autor que transita muito entre o humor e o horror. As personagens de DFW podem ser doentias, hediondas, mas possuem aquela graça que te deixa ligada a eles de qualquer forma. É o caso de Rick Vigorous, sócio da Frequent and Vigurous e “namorado” de Lenore, um homem divorciado de 40 e poucos anos absolutamente obcecado por ela.

De início Vigorous parece até inofensivo. É como se fosse um cara apaixonado que nunca acreditou ter uma chance com sua musa, mas acaba tendo e quer fazer de tudo para mantê-la – tudo, menos conseguir consumar a relação. Mas o fato dele consultar o mesmo terapeuta de Lenore apenas para que ele lhe conte o que ela diz em suas sessões já é um grande alerta. A relação entre eles até parece saudável: Vigurous substitui o sexo contando para Lenore as histórias que recebe na editora (tristes, melancólicas e com péssima gramática), e Lenore gosta de ouvi-las. É como se eles se completassem de um jeito torto. Porém, a obsessão de Vigurous com ela vai evoluindo a níveis realmente doentios.

Da mesma forma que Graça infinita se passa em um futuro próximo, The Broom of the System é ambientado em 1990, poucos anos depois da publicação do livro. A narrativa se divide em várias vozes, com um narrador em terceira pessoa acompanhando os passos de Lenore, trechos narrados por Rick que criam uma visão distorcida da protagonista – tanto na narração direta quanto numa espécie de história em que está trabalhando –, e também descrições das sessões de terapia de Lenore e Rick – que são maravilhosas.

Lenore não parece ter relações saudáveis com muita gente – no máximo com Candy e com sua bisavó desaparecida, a quem fazia visitas e conversava toda semana. Ela ainda tem mais três irmãos: Clarice, a mais velha, casada e com filhos; John, que sumiu do mapa e ninguém sabe onde está; e Stonecipheco Beadsman IV, o caçula que não tem uma perna e está na faculdade. Ela pouco se relaciona com eles, sua família é o retrato da disfuncionalidade, e ela tenta de todas as formas não manter contato com o pai – por isso trabalha como telefonista, pois não quer se sustentar com o dinheiro dele.

Lenore é uma personagem perdida. Ela não tem grandes objetivos de vida, não parece fazer escolhas por conta própria, não parece fazer ideia alguma do que está acontecendo à sua volta. Ela tem zero controle sobre as coisas. Um diálogo que ela tem com o irmão caçula é fundamental para entendê-la: Lenore existe apenas através da linguagem. Todas as conversas com a bisavó realmente a afetaram nesse ponto. Ela existe enquanto interlocutora. É como se ela fosse apenas o que as outras pessoas dizem que ela é, e como se fizesse apenas o que desejam que ela faça – isso explica muito da sua relação com o Rick. Ela não se sente completa sem alguém com quem conversar, e quando dizem que ela pensou alguma coisa ou quer alguma coisa, ela acaba pensando e querendo isso.

Parece estranho até aqui? Pois fica ainda mais. As coisas apenas se tornam mais doidas, frenéticas e incríveis no decorrer da leitura: desertos fabricados com areia negra, um pássaro usado para evangelizar fiéis na televisão, um homem abandonado pela mulher que decide comer de tudo até que engorde a ponto de engolir o próprio mundo… Cada personagem que aparece neste romance tem um pé fora da realidade, mas aí está o poder da literatura: quando você escreve, é como se tudo passasse realmente a existir.

David Foster Wallace é desses autores que dá gosto de ler mesmo se você não entende direito o que está acontecendo. Porque ele é muito certeiro nos raciocínios que faz, tornando a coisa mais absurda em algo totalmente possível. E, ao mesmo tempo, está tratando de algum tema ou muito intelectual ou muito profundo de forma leve, como se discutir os estudos de Wittgenstein na fila do café fosse a coisa mais comum do mundo.  The Broom of the System é bem mais tranquilo do que Graça infinita, acredite, mas não é menos maravilhoso. E, talvez, você até acabe entendendo Wittgenstein.


Ficou com vontade de ler? Encontre aqui The Broom of the System, de David Foster Wallace.

The Broom of the System é uma ótima entrada para a ficção de David Foster Wallace, mas não tem tradução aqui no Brasil. Então para quem quer conhecer o autor, recomendo seus textos de não ficção lançados em Ficando longe do fato de já estar meio que longe de tudo.