Coração azedo, de Jenny Zhang

Capa de Coração azedo

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A literatura certamente é uma ótima ferramenta para lidar com os conflitos internos e acertos de contas com o passado. Ao ler Coração azedo, de Jenny Zhang (Companhia das Letras, tradução de Ana Guadalupe), logo liguei seus contos aos romances de Zadie Smith. As duas possuem backgrounds bem diferentes, é claro, mas o que escrevem dialoga muito com os próprios conflitos de identidade, cultura e família.

Smith, filha de uma imigrante jamaicana com pai inglês, expôs parte desses conflitos em White Teeth, onde a origem da mãe e suas tradições se chocam com a vontade da protagonista adolescente de ser “como todas as outras garotas inglesas”. Zhang nasceu na China e cresceu nos EUA, e esse mesmo tipo de conflito permeia suas histórias também.

Coração azedo reúne sete contos onde Zhang se concentra na relação de filhas com suas mães, pais, irmãos e avós, tudo isso no contexto das dificuldades que imigrantes chineses encontraram ao chegar na América. As histórias se interligam em alguns momentos, e muitas possuem elementos bem parecidos: todas as protagonistas são filhas de pais chineses que deixaram a terra natal para estudar, trabalhar e, assim, oferecer uma vida melhor a seus filhos.

É o caso do pai de Cristina, protagonista do conto “Nós te amamos Crispina”, que deixou a China com a promessa de terminar seu doutorado nos EUA com auxílio de uma bolsa. Contudo, o alto custo de vida em Nova York e a ajuda escassa o leva – assim como muitos outros imigrantes como ele – a abandonar os estudos e trabalhar em mais de um emprego de salário mixuruca para sustentar apartamentos caindo aos pedaços, ainda mais depois que trazem suas mulheres e filhos para o país.

No caso de Cristina, a discussão principal do conto gira em torno de enviá-la novamente para a China ou não, pelo menos até que a situação financeira de seus pais melhore. No conto ela relembra todos os apartamentos sujos e superlotados de Nova York em que sua família morou quando ela era apenas uma criança, e Zhang não poupa detalhes ao descrever as condições dessas moradias. Cristina e sua família viviam em pura miséria, as brigas entre seus pais eram constantes, mas mesmo assim os três arrumavam um jeito de ficarem unidos sempre. Ela é carinhosamente chamada de “azedinha” pelos pais, tanto por gostar de sabores azedos quanto por ser uma menina de modos e opiniões azedas. E esse azedume é algo presente em todas as outras personagens.

Como é o caso de “As mães antes das nossas”, onde uma família se prepara para a chegada de um tio que não viam há anos. Narrado por Annie, uma pré-adolescente que, como toda garota nessa idade, deseja ter mais liberdade e menos controle da mãe, o conto se divide entre acontecimentos de 1966, na China, e a visita de seu tio em 1996. Sua mãe é cheia de cobranças e dramas, ora se virando contra o marido e ora contra os filhos. A narradora se vê sufocada por essa necessidade que a mãe sente de ser amada exageradamente por eles. Mas enquanto ela se martiriza com a família no presente, a narrativa do passado apresenta um cenário ainda mais opressor.

A Revolução Cultural da China mudou a rotina de todos da noite para o dia, e lugares antes seguros se tornam um caos, onde grupos de adolescentes perseguem e torturam os “burgueses” da vila. É nesse cenário que cresceram a mãe e o tio de Annie, trancados em casa por segurança e à mercê da personalidade opressora de sua própria mãe. Esse conto enfatiza bastante as diferenças e semelhanças entre gerações, ainda mais quando elas ultrapassam fronteiras.

Diferente de “Nós te amamos Crispina”, “O vazio o vazio o vazio” e “As mães antes das nossas”, que tratam majoritariamente da relação das narradoras com suas mães, “A evolução do meu irmão” é uma história intensa entre a ligação de Jenny, a narradora, com seu irmão bem mais novo. Há novamente a crueldade entre familiares, mas aqui quem possui um comportamento opressivo e ambíguo é a própria narradora, que possui um misto de amor e rancor pelo pequeno irmão. Ela prega peças, faz pequenas maldades, assusta e engana o garoto, mas ele é tão apegado a Jenny e tão dependente dela que nada disso afasta sua carência.

Jenny não é uma pessoa insensível, como se poderia pensar. Ela, assim como outras narradoras neste livro, é acometida pela culpa constantemente. Ela sabe que ama seus familiares, sabe que eles também a amam, mas não encontra conforto ou abertura para extravasar esses sentimentos, e tudo acaba sendo dito e feito de forma agressiva. Logo após gritar com seu irmão, ela se arrepende e tem vontade de abraçá-lo forte para que nunca se separem. Mas, ao mesmo tempo, quer também se desprender de sua casa e suas origens para ser ela mesma. Só que a liberdade que conquista não parece assim tão boa quando o próprio irmão cresce e, do mesmo jeito que ela, se desapega de quem antes era o seu mundo.

Todo esse azedume das protagonistas e outras personagens é muito fruto desses conflitos culturais e de identidade. Todas as meninas desse livro querem ser mais americanas, mais livres para escolherem o que querem ser. Mas elas entendem, no futuro, a origem difícil que tiveram, o quanto seus pais sacrificaram para que elas tivessem essa vida que estão tendo agora. Então há cobranças de todos os lados: os pais cobram reconhecimento, as filhas cobram liberdade. Eles não querem abandonar tradições, nem querem que suas meninas sigam pelo “mau caminho”, mas elas querem que eles entendam que elas não são presas a eles, e que as regras da China não se aplicam à América.

“Mas agora eu queria liberdade. Queria liberdade para ser egoísta e autodestrutiva e perdulária como as meninas brancas da escola em que meus pais se esforçaram tanto para me matricular e, assim que conseguiram, assim que nos mudamos para um bairro sem gente caída pela rua, em que todo mundo tinha a mesma palidez tísica, tudo aquilo me fez querer ficar longe da minha família. Eu invejava as meninas brancas que tinham relacionamentos tão horríveis com os pais que era impossível decepcioná-los. Eu queria pais brancos que não ligassem para onde eu fosse ou o que fizesse, pais que me encorajassem a sair de casa em vez de me chantagear a ser a filha deles para o resto da vida.”

A linguagem de Jenny Zhang em Coração azedo é outro detalhe que traduz todas essas amarguras familiares. Suas personagens não poupam xingamentos e palavrões, eles se apropriam de todos esses termos para expressarem dor e alegria, amor e ódio. E não existe pudor também: essas meninas tomam conhecimento precoce do sexo, ou fingem que são versadas nesse assunto, porque o conhecimento do próprio corpo também é uma maneira de se afastarem das origens e se colocarem como pessoas independentes de suas famílias. Zhang não xinga ou fala de sexo entre pré-adolescentes para chocar. A descoberta do corpo e a necessidade de extravasar esses desejos são intrínsecos à liberdade que elas tanto querem.

Coração azedo é maravilhoso pela intimidade dos contos. Tudo o que há de bom ou ruim numa família é abordado, e todos os sentimentos conflitantes são bem descritos pela autora. Porque quando criança não temos ideia de tudo o que está por trás da nossa própria origem. Não temos ideia de quanto custa um aluguel, do que nossos pais abriram mão para nos criar e, no caso dessas meninas, do que significa deixar tudo para traz para tentar a vida em um mundo totalmente diferente. O que Jenny Zhang apresenta é uma reavaliação adulta dos pensamentos e desejos de crianças e adolescentes, a visão que temos quando finalmente percebemos que não somos o centro do mundo, e um acerto de contas por todas as vezes que queríamos dizer uma coisa, mas dissemos outra.


Ficou com vontade de ler? Encontre aqui Coração azedo, de Jenny Zhang.

Para ler também:
– White Teethde Zadie Smith
– Tudo o que nunca contei, de Celeste Ng
– Manual da faxineira, de Lucia Berlin

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