Mac e seu contratempo, de Enrique Vila-Matas

Capa de Mac e seu contratempo

Um bom resumo de Mac e seu contratempo, novo romance de Enrique Vila-Matas (Companhia das Letras, tradução de Josely Vianna Baptista), seria a clichê frase “nada se cria, tudo se copia”. Em sua obra, Vila-Matas sempre tratou da própria ficção, da arte, do processo de escrita, do que é literatura e como ela se alimenta de suas influências. Neste romance, a metaliteratura está presente com força, abordada em um diário sobre a (re)escrita de um livro.

Mac é um sexagenário que mora no fictício bairro de Coyote, em Barcelona, que após sua demissão passa os dias enfurnado em livros. Abalado com a forma com que foi descartado pelo mercado de trabalho e levemente obcecado pelo seu vizinho, o famoso escritor Ander Sánchez, ele decide ocupar seus dias com a reescrita do primeiro romance do autor, Walter e seu contratempo, renegado pelo próprio Sánchez e ignorado pela crítica. Uma espécie de romance formado por contos, em que Sánchez discorre sobre a própria literatura ao narrar a vida de um ventríloquo que sofre da maldição de ter apenas uma única voz.

O plano de Mac é tirar do livro os arroubos filosóficos de Sánchez que tornam sua leitura tão enfadonha, mas manter a história de Walter e as personagens que encontra em sua jornada em busca da “cura”. Obviamente, o que Mac e seu contratempo nos apresenta não é o romance em sua nova versão, mas sim as ideias de Mac sobre a criação literária e a tradição de contar histórias. Pegando como referência o próprio Walter e seu contratempo, onde Sánchez emulou em cada capítulo a forma de narrar de importantes autores, como Raymond Carver e Jorge Luis Borges, Mac reflete constantemente em seu diário de escrita sobre a impossibilidade de se criar algo novo.

“[…] essencialmente, todos nós somos repetidores. A repetição, gesto humano onde quer que haja humanos, é um gesto que eu gostaria de analisar, de estudar a fundo, para modificar as conclusões a que outros chegaram. Será que conseguimos fazer alguma coisa nessa vida que não seja a repetição de algo já previamente ensaiado e realizado por aqueles que nos precederam?”

Não temos como escapar das influências. Assim como grandes autores do passado se basearam em histórias ainda mais antigas, Sánchez e Mac – e o próprio Vila-Matas – se alimentam de outros autores para criarem suas narrativas. Através de Mac, o autor afirma que a originalidade não está no enredo, que desde as histórias orais se repetem, mas sim na maneira que o autor escolhe apresentá-lo. O que Mac procura tanto em suas leituras quanto na escrita em que tenta se empenhar é entender essa poética da repetição, entender como formas de escrita e enredos são remanejados para contar algo “novo”.

Enquanto registra os avanços da releitura de Walter e seu contratempo e revela como pretende alterar o livro do vizinho, Mac também interage com outros moradores do Coyote – como o sobrinho de Sánchez, que execra o autor alegando que a literatura do tio é “menor” por ser popular, enquanto ele, um grande poeta, é o verdadeiro artista por não se render às leis do mercado editorial. Também há a relação com sua esposa, Carmen, que fica tão aflita quanto Mac com sua condição de desempregado, sem compreender, porém, o projeto do marido e sua dedicação a ele. E também há suas interpretações e leituras do horóscopo diário do jornal, onde Mac enxerga mensagens direcionadas especialmente para ele, que tratam tanto sobre a situação atual de sua vida quanto de seu projeto literário.

Esses horóscopos, ou “putoróscopos”, como Mac os chama, são parte relevante de Mac e seu contratempo. Afinal, horóscopos também se alimentam da repetição, principalmente os breves oráculos escritos nos jornais diários. Mas diferente da literatura, onde a repetição se dá de forma criativa, os horóscopos consumidos pelo protagonista logo se mostram rasos e insossos. Não é essa a poética da repetição que ele procura, diz em certo momento, pois o número de palavras e combinações é muito limitado. Para Mac, essa repetição “leva a uma via morta, a uma via seca, insípida”.

Aos poucos, o próprio romance de Sánchez vai se misturando com a vida de Mac. Ele encontra nessas histórias relações com a própria biografia, descobre segredos passados, procura se aprofundar ainda mais na mente de Sánchez para entender suas referências literárias e pessoais. Walter e seu contratempo não é mais apenas o projeto de um desempregado entediado, mas parte importante do cotidiano que Mac criou para si. E da mesma forma que Sánchez se alimentou de outros autores para narrar cada capítulo de seu livro, Mac busca em suas leituras inspiração e explicações sobre sua teoria da repetição.

“[…] comecei a me esquecer do que ia fazer e a lembrar de como Borges sempre considerou os romances como não narrativas. Dizia que estavam por demais afastados das formas orais, e que isso os fizera perder a presença direta de um interlocutor, a presença de alguém que pudesse tornar possível, sempre, o subentendido e a elipse e, portanto, a concisão dos relatos breves e dos contos orais. É preciso lembrar, dizia Borges, que embora a presença do ouvinte, a presença do que ouve o relato, seja uma espécie de estranho arcaísmo, o conto sobreviveu, em parte, justamente por ter conservado essa figura do ouvinte, essa sombra do passado.” 

Eu sei que muitos leitores torcem o nariz para a metaliteratura. Sim, uma hora cansa ler tantos romances sobre escritores e seus processos criativos, essas narrativas que podem soar um tanto autocongratulatórias, mas Enrique Vila-Matas está longe de ser um desses casos. A abordagem que ele faz da literatura convida o leitor a refletir sobre o papel dos livros e das histórias, oferece uma visão aberta e até otimista do estado da arte. E vê-se em Vila-Matas uma verdadeira paixão por esse ofício, um ânimo que nunca se esgota e te faz querer ler todos os autores citados e histórias compartilhadas. Por isso Mac e seu contratempo é leitura mais do que recomendada a qualquer pessoa que ame livros e histórias.


Ficou com vontade de ler? Encontre aqui Mac e seu contratempo, de Enrique Vila-Matas.

Para ler também:
– O romance luminosode Mario Levrero
– Bartleby e companhia, de Enrique Vila-Matas
– Não há lugar para a lógica em Kasselde Enrique Vila-Matas