A única história, de Julian Barnes

Capa de A única história

Todo mundo tem uma história que marcou sua vida. Geralmente ela é uma história de amor. E essa será a única história importante, seja ela um sucesso ou não. Amores que dão errado, afinal, não deixam de ser amores. Essa é a premissa de A única história, de Julian Barnes, autor do lindo O sentido de um fim e também de Altos voos e quedas livres, entre outros.

A única história (Rocco, tradução de Léa Viveiros de Castro) é narrado por Paul, que já adulto relembra o relacionamento que teve com uma mulher bem mais velha nos anos 1970 – a referência aos tempos do “amor livre”. Paul, com 19 anos, estava de férias da universidade quando conheceu Susan, de quase 50, durante uma partida de tênis no clube da pequena cidade onde moravam. O humor peculiar aproxima os dois, e o que começa como pequenas gentilezas – fazer dupla numa partida, uma carona para casa – se transforma em um relacionamento sério – a única história de Paul.

A diferença de idade não é o único “problema” dessa relação: Susan é casada e tem duas filhas mais velhas que o próprio Paul. Ao mesmo tempo em que o casal de amantes se encontra escondido, a proximidade dos dois está à vista de todos. Paul é frequente visitante na casa de Susan, janta com ela e seu marido, conhece suas filhas quando elas voltam para visitar os pais, visita com ela as suas amigas. No fundo, o relacionamento dos dois não é um segredo para ninguém, e as repreensões acontecem apenas em momentos privados. Na sociedade inglesa que ainda está engatinhando nas questões de liberdades sexuais, é melhor fingir que nada está acontecendo do que armar um escândalo por causa de uma aventura.

Só que é justamente o potencial escandaloso da relação que move Paul em sua conquista. Em certa passagem, ao pensar sobre o que seus pais diriam ao saber que ele está com Susan, o narrador imagina a recepção que teria caso anunciasse que engravidou uma jovem namorada, ou então se dissesse que é gay. Os pais ficariam chocados, bravos, mas ainda assim aceitariam. Já se anunciasse que está tendo um caso com uma mulher muito mais velha e casada, eles não seriam assim tão compreensivos. A desaprovação que o relacionamento causa é um combustível para a rebeldia e o amor de Paul – ele não quer ser visto como um cara comum, um puritano que namora uma garota da faculdade como todos os outros caras. Os olhares tortos e cochichos sobre o casal são o grande divertimento do narrador, que responde de forma petulante ao julgamento alheio.

Já Susan não é uma mulher de meia idade entediada com o casamento que resolve se aventurar com um homem bem mais jovem, como pode parecer. A relação dela com Paul é realmente forte e duradoura. A questão da idade não é ilegal, pois Paul é de maior, mas claro que há muitos problemas a serem discutidos quando os membros desse casal têm histórias e experiências de vida tão diferentes por conta desse abismo geracional.

Susan tem tudo a perder, não só por ser casada e ser mãe, mas principalmente por ser mulher e nascida em uma época onde as amarras eram ainda mais estreitas. Enquanto Paul é um garoto aventureiro que, na visão geral, ainda não amadureceu e tem liberdade para aproveitar sua juventude. O fato dessa história estar sendo narrada tantos anos depois é importante para que o protagonista entenda isso. Quando jovem ele agia na impulsividade, sem pensar nas consequências, querendo desafiar a “normalidade”, e certamente não passava pela sua cabeça os problemas que Susan enfrentou em casa e em seu círculo social para manter essa relação. Mas, adulto, Paul é capaz de entender a sua imaturidade e avaliar o risco que Susan aceitou correr para estar com ele.

“Eu não entendi que havia pânico dentro dela. Como poderia ter adivinhado? Achava que ele só existia dentro de mim. Agora eu compreendo, um tanto tarde, que ele existe em todo mundo. É uma condição da nossa mortalidade. Nós temos regras de conduta para acalmar e minimizar isso, piadas e rotinas, e tantas formas de desvio e distração. Mas existe pânico e pandemônio esperando para explodir dentro de todos nós, estou convencido disto.”

A idade, porém, não os coloca em lados tão opostos. Em questão de sexo, Susan é tão inexperiente quanto Paul. Lembrando: essa ainda era uma época em que a função da mulher era casar, cuidar da casa e ter filhos, quando elas estavam começando a discutir sobre emancipação e seu próprio prazer. O que Susan sabe sobre sexo e prazer ela aprende justamente com Paul. No casamento tradicional Susan exerceu o papel que se esperava de uma mulher. Mas com o amante ela aprendeu que uma mulher não se limita apenas ao lar. 

Em seus livros, Julian Barnes fala muito sobre grandes amores e a memória. São narrativas que resgatam as coisas boas do amor, os sentimentos únicos e intensos causados por uma paixão. Ao contrário das abordagens mais secas – que eu, pessoalmente, me identifico mais –, Barnes trata o amor como o sentimento mais importante que existe, a experiência mais marcante que uma pessoa pode ter na vida. Mesmo quando esse sentimento tão bonito leva, invariavelmente, à maior das tristezas, como é o caso de Altos voos e quedas livres e, de certa forma, também é o caso de A única história. Não importa o tamanho do amor ou a força que ele tem, as coisas vão terminar em separação, seja pela morte ou pelas complicações que se colocam na rotina de um casal.

O que gosto em Barnes é justamente essa visão aberta, sem timidez, que ele tem sobre o amor. A visão de quem acredita piamente no amor. Você deve estar pronto para tudo: amar e ser feliz e amar e sofrer, porque grandes amores não vêm sem sua dose de tristeza e sofrimento. É necessário entrar nesse jogo sem medo do que ele poderá lhe causar depois, algo bem diferente da maneira que costumamos enxergar nos relacionamentos hoje, onde evitamos o sofrimento o máximo possível.

Amar não é sofrer, essa é uma visão que rechaço e nem é o que Barnes aborda em suas histórias. Mas mesmo quando tudo dá errado, mesmo quando tragédias acontecem, Barnes celebra as lembranças de um amor que marcou tanto a vida dos envolvidos. A memória pode enganar e pregar peças, mudar a ordem dos fatos, como acontece com Paul. Masm ainda assim, ela preserva esses momentos importantes que ele viveu e o amor, no final, não se transforma em ódio ou rancor. 

Em A única história isso tudo fica bem claro. Paul e Susan não vivem o “felizes para sempre” dos contos de fadas, mas vivem o máximo que conseguem a relação que se propuseram a ter. Não importa como essa história termina, o que importa, para o narrador, é que ele pôde viver tudo isso.

“Todo mundo tem sua história de amor. Todo mundo. A história pode ter sido um fiasco, pode ter fracassado, pode nunca ter progredido, pode ter sido apenas fruto da imaginação, mas isso não a torna menos real. Às vezes você vê um casal, e eles parecem totalmente entediados um com o outro, e você não consegue imaginar que eles tenham algo em comum, nem por que continuam vivendo juntos. Mas não é só hábito, ou complacência ou convenção ou algo parecido. É porque um dia eles tiveram sua história de amor. Todo mundo tem. É a única história.”


Ficou com vontade de ler? Encontre aqui A única história, de Julian Barnes.

Para ler também:
– O sentido de um fim, de Julian Barnes
Altos voos e quedas livres, de Julian Barnes
– Diga o nome dela, de Francisco Goldman
– Os enamoramentos, de Javier Marías