Livros demais

Livros demais.

Livros demais! é um livrinho de Gabriel Zaid que a Diana me emprestou logo quando a gente se conheceu (lá em 2010? 2011?). Ela me mandou pelos correios e eu, gente boa que sou, devolvi pelos correios, e desde então a considero a melhor pessoa do mundo por mandar um livro pra uma total desconhecida nos confins do sul. Vi Diana emprestar esse livro pra várias pessoas depois, e entendo por que ela faz isso, ainda mais pra quem é todo empolgadão ao começar a trabalhar com livros. Existem. Livros. Demais. E isso é bem frustrante. 

Zaid fala dos problemas mercadológicos dessa oferta exacerbada de publicações, as complicações trazidas pela publicação de mais de um milhão de títulos por ano. Mas calma, não quer dizer que o cara mande um AOW PAREM DE PUBLICAR, ou aquela coisa chata de “ai, pra que tem livro disso, isso não é literatura”. Todo livro, do tema que for e do tipo que for, acaba encontrando um leitor em algum momento, e isso por si só já justifica sua existência. Porém, sim, há livros demais. E há livros demais que eu quero ler e sei que nunca, jamais, serei capaz de dar conta. 

É o que penso toda vez que eu vejo uma cena como esta:

(O pôster do Arquivo X aí até parece motivacional.)

Essa era a escrivaninha do meu quarto, e esses são os livros que eu ainda não li. Essa pilha tem cinco anos para mais. Tem livros que ganhei, que comprei, que editoras mandaram, que pedi para editoras. Essa pilha já foi feita e refeita várias vezes, desisti de vários livros, doei pelo menos metade (ou quase metade). O que sobrou são livros que eu quero ler de verdade. Não agora, não neste momento, mas sei que um dia ainda vou querer ler. E essa pilha rende leituras para uns três anos, fácil. Até mais, talvez. E agora, o pior: essa pilha não tem nem metade do que eu quero ler. 

(Ok, dois livros nessa foto já li, três são livros que vou dar para amigos – mas um deles quero ler, hehe. E note que também há um Kindle, claro, cheio de coisas que ainda quero ler, como aquele Anna Kariênina que deixei pela metade…)

Qual a necessidade disso? 

Penso que, quando somos só leitores, não temos uma noção real do tanto de coisa que é produzida. Nossos interesses são bem definidos, e não damos atenção para aquilo que não desperta nosso desejo. Sem falar em coisas que nos interessariam, mas nunca nem ouvimos falar. Então não tem essa de conferir lançamento por lançamento de todas as editoras possíveis porque já sabemos quais publicam o que gostamos e quais não. Também não damos bola para todos os livros que a editora favorita lança porque não somos ricos o suficiente pra isso e é preciso estabelecer um limite – e assim todo o resto fora do nosso alcance/interesse acaba esquecido. Mas quando você trabalha com isso, meu querido, a coisa muda de figura. É uma frustração mensal ver os livros chegando e ficar EU QUERO ISSO, E ISSO, E ISSO TAMBÉM sabendo que nunca, nem tendo nove vidas, eu daria conta.

A cada mês, a pilha só aumenta, nunca diminui. Se consigo, num milagre, ler quatro livros no mês (um por semana, que seria o ideal pra mim), adiciono o dobro disso na pilha. Se leio dois por mês, bem, o dobro do dobro. É uma matemática que não faz sentido e tudo bem, não sou de exatas mesmo. E isso porque eu me seguro, eu não vou toda hora na livraria, minha cota mensal de funcionária – quando trabalhava em editora – eu dava de presente para os amigos, eu tento de todas as formas não fazer a pilha aumentar porque ela está num estado preocupante – pois é capaz de tudo cair na minha cabeça, a estante na sala já não dá conta do que tem. 

Maaaaaas, ao mesmo tempo, também não quero desistir daquele livro que chamou a atenção. Poxa, ler é das coisas que mais gosto de fazer, não vou deixar de atochar a casa de livros por questões de logística (eu noto o quão errado isso é a cada nova mudança de casa, mas tão bonito os livro tudo na estante).

Ter consciência de que nunca será possível ler todos os livros, ver todas as séries e filmes, ouvir todas as músicas, é um negócio assustador, de certa forma. Porque é nessas (e várias outras) horas que você percebe o quanto seu tempo é curto e a história é vasta. Nesse curtíssimo espaço de tempo em que estamos vivos, uma caralhada de coisas foram feitas, mas ainda tem o que veio antes, bem antes. A humanidade fez coisa pra caralho, coisas que se perderam no tempo e que provavelmente são bem mais numerosas do que aquelas que permaneceram. Não tem como conceber isso.

Enfim, essa elaboração toda é só para eu tentar me sentir menos pior com essa pilha de livros que não deixa de crescer. A culpa não é minha, que estou lendo menos do que deveria, e por isso não dou conta dela. É porque tem livros demais. 

Outras leituras sobre livros: 
– A questão dos livros, de Robert Darnton
Silenciosa algazarra, de Ana Maria Machado
2018: os melhores livros até agora