O mestre e Margarida, de Mikhail Bulgákov

Capa de O mestre e Margarida

Sempre imaginei que, entre a vinda do diabo e a volta do messias, o diabo seria mais divertido. Não sou nada religiosa, apesar de me interessar bastante pelo tema – a religião influencia demais toda a nossa vida e sociedade para que eu possa ignorá-la, então sendo religiosa ou não, é um assunto a se conhecer. Mas, caso tivesse algum tipo de fé ou crença, o diabo teria meu voto. Sei lá, os vilões sempre me agradaram. Demorei muito para ler O mestre e Margarida, de Mikhail Bulgákov (li na edição da Alfaguara, tradução de Zoia Prestes, mas dizem que a edição da Editora 34 é melhor), apesar de todas as recomendações e de estar na minha mira por pelo menos uns seis anos. A capa com o gato demoníaco me atraía sempre, mas por algum motivo eu sempre deixava para lá. Até ler esse artigo de Viv Grokop no Literary Hub sobre como a leitura desse romance é fundamental para tempos sombrios. E estamos em tempos sombrios. E a vinda do diabo não poderia ser mais divertida.

Nos anos 1930, dois homens conversam na mesa de um bar em uma quente tarde de primavera. Berlioz é editor de uma revista de arte e presidente do conselho da Massolit, uma das maiores associações literárias de Moscou. Ele passa para Bezdômny – pseudônimo de Ivan Nikoláievitch – alterações em seu poema sobre Jesus Cristo. Como bons soviéticos, Berlioz e Bezdômny são ateus e extremamente burocratas, e sua discussão sobre como representar da melhor forma a inexistência de Jesus atrai a atenção de um homem peculiar que se junta a eles na conversa. Um estrangeiro, pelo sotaque, que questiona o editor e o poeta sobre religião, um homem de modos esquisitos que levanta suspeita nos dois moscovitas que ouvem atentamente a sua história. Uma história que envolve Pôncio Pilatos e que o tal estrangeiro viu, in loco.

Os dois primeiros capítulos de O mestre e Margarida – a discussão entre o editor e o poeta e o causo de Pôncio Pilatos –, já me mostraram de cara que o artigo que incentivou minha leitura estava certo. Bulgákov trata a descrença dos homens com muita ironia e graça, enquanto seu forasteiro – que realmente é um estrangeiro, vindo das profundezas do inferno para Moscou – se delicia com a confusão estampada nos rostos do poeta e do editor. Suas previsões o espantam e irritam, os dois pedem veementemente a sua documentação ameaçando denunciá-lo para as autoridades competentes – como disse, bem burocratas. E desse encontro se desenrola a) uma tragédia e b) o início da loucura que vai tomar Moscou nos dias seguintes.

O diabo não chega a Moscou sozinho. Com ele vem seus seguidores, compostos de uma mulher estonteante e sempre nua, dois homens de vestes e formatos estranhos e um gato preto de tamanho descomunal que anda sobre as patas traseiras e fala. Qualquer pessoa se espantaria com a visão de um grupo como esse, mas no caso dos moradores de Moscou que cruzam com essas figuras – a maioria artistas e gente do governo – o que há é confusão. Seria uma brincadeira de suas mentes as coisas mágicas e trágicas que começam a acontecer? Sua descrença é grande demais para admitirem que o diabo em pessoa está andando pelas suas ruas. Para eles, “diabo” é apenas uma expressão, um modo de falar – e como ri toda vez que algum personagem dizia “vá para o diabo!”. De certa forma, Moscou inteira está “indo para o diabo”.

Essa descrença é o que leva cada indivíduo que cruzou o caminho com o diabo a um estado de loucura. Sabemos que o que esses “loucos” relatam é o que aconteceu, porque compramos a realidade da narrativa de Bulgákov: o diabo realmente está lá, em carne, osso, paletó e cheiro de enxofre. Mas quem não falou com o diabo, pela falta de imaginação e de crença, só consegue pensar da forma mais lógica e utilitarista que há: Ivan Nikoláievich está louco ao dizer por aí que tal entidade existe, e o lugar de um louco é no manicômio. Mesmo quando mais pessoas começam a agir de forma estranha e desesperada, a loucura é a explicação para tudo.

E o maior desses loucos é, na verdade, o mais são de todos. O chamado mestre, um paciente do manicômio que escreveu e destruiu seu manuscrito sobre Pôncio Pilatos, e que agora vive longe de sua amante, Margarida, uma entediada esposa em um casamento infeliz. O mestre lamenta essa separação, mas de certa forma se contenta com o que o destino lhe reservou. Enquanto Margarida procura uma forma de reencontrá-lo, alimenta uma esperança de vê-lo novamente. Essa “crença” de Margarida em que o destino irá juntá-los de novo não a faz questionar a existência do diabo e seu séquito em nenhum momento. Margarida se deixa levar completamente pelos pedidos do diabo, participa de seu baile secreto, age como a bruxa que ama o obscuro e se dedica a ele. E tem sua recompensa, de certa forma.

A bondade e o altruísmo de Margarida espanta os próprios emissários do inferno. Em uma cidade tão agarrada às posses e ao dinheiro, tão encantada com o mundano e facilmente ludibriada, a entrega de Margarida e suas escolhas vão no sentido contrário do esperado. Então além do alívio cômico em meio ao horror, Margarida é meio que um sinal de esperança: olha só, mesmo aqui nesse lugar cheio de pessoas mesquinhas que denunciam umas às outras é possível encontrar alguém bom. 

Mikhail Bulgákov terminou de escrever O mestre e Margarida pouco antes de morrer, em 1940 – foram cerca de dez anos de trabalho no manuscrito. Ele sabia que, no regime soviético, sua história sobre o diabo em Moscou e sua sátira da vida artística presa a associações e sindicatos provavelmente seria censurada. Tudo o que envolve a arte neste livro parece saído de uma repartição: reuniões, requerimentos, assembleias, como se não houvesse liberdade para apenas criar. E, realmente, o livro só se tornou conhecido pelo público mais de 20 anos após a sua morte.

Mas diferente dessa descrição da classe artística que ele apresenta no romance e de toda essa organização soviética, O mestre e Margarida não tem nada de burocrático. Sua narrativa é pura diversão, desde o diálogo entre Berlioz e Bezdômni, passando pela encenação de magia no teatro da capital russa até o baile demoníaco que reúne os vivos aos mortos. Viv Grokop, em seu texto, afirma que Bulgákov ensina ao leitor que ele não deve se levar muito a sério, não importa quão ruim as coisas estejam: “everything is better if you can inject a note of silliness and of the absurd. Not only is this a possibility at any time; occasionally, it’s an absolute necessity: ‘You’ve got to laugh. Otherwise you’d cry’.

Em tempos como esse, onde a vontade realmente é chegar em casa, deitar em posição fetal e chorar, o melhor a se fazer é encontrar motivos para rir do absurdo das coisas. E aqui coisas absurdas não faltam.


Ficou com vontade de ler? Encontre aqui O mestre e Margarida, de Mikhail Bulgákov.

Para ler mais: 
– Reflexões do Gato Murr, de E.T.A. Hoffmann
– Avenida Niévski e Notas de São Petersburgo, de Nikolai Gógol