Feel Free, de Zadie Smith

Capa de Feel Free

Quem acompanha o blog faz algum tempo já sabe o quanto gosto da Zadie Smith. Swing Time esteve entre minhas leituras favoritas de 2017, e White Teeth foi igualmente apreciado. No ano passado, a autora lançou mais um livro, mas dessa vez de ensaios: Feel Free, uma compilação de textos publicados em revistas e periódicos, e também discursos e outras falas que a autora concedeu sobre os mais variados temas. A não-ficção de Smith nunca foi publicada no Brasil, fora algum ensaio traduzido para uma revista ou para alguma exposição – como foi o caso de seu texto sobre The Clock, que esteve em cartaz no IMS de São Paulo. Mas, até onde eu sei, não há planos de lançar uma coletânea com sua não-ficção por aqui.

Logo na introdução Zadie Smith afirma não ser expert em nenhum dos assuntos que trata nesses ensaios – fora literatura. Ela vai discutir política, economia, arte, cinema e pintura, mas por serem temas que a interessam pessoalmente, não por serem suas áreas de atuação. Ela pode estar certa ou errada, e o leitor não precisa tomar nada do que ela diz como correto e definitivo. Já gostei logo de cara dessa abordagem da autora, se colocando como uma pessoa com interesses variados que usa a escrita para refletir sobre eles, mas sem querer impor sua visão ou opinião. É, mais ou menos, como eu me sinto fazendo esse blog.

Feel Free é dividido em cinco partes: “In The World”, onde discorre sobre temas sociais e políticos, como as eleições norte-americanas e o Brexit; “In The Audience”, com textos sobre filmes, programas de televisão e dança; “In The Gallery”, sobre exposições e instalações artísticas; “On The Bookshelf”, sobre livros e autores, e também textos que escreveu em sua coluna na Harper’s Magazine; e por fim “Feel Free”, que reúne seus textos mais pessoais.

Seguindo essa ordem, meu ensaio favorito da primeira parte é justamente o primeiro, “North-west London Blues”. Aqui Zadie Smith trata de um dos estabelecimentos mais importantes para qualquer leitor: as bibliotecas. É uma visita ao bairro onde cresceu que desencadeia sua reflexão sobre a importância desses espaços para uma comunidade, reflexão essa feita justamente porque a biblioteca onde ela se refugiou durante sua juventude será fechada e transformada em um condomínio. Smith entende que bibliotecas não geram lucro, e que são facilmente deixadas de lado por conta disso. Mas, como ela bem ressalta, são esses lugares que reúnem pessoas, que guardam a sua memória, que estão sempre abertos para qualquer tipo de cidadão justamente por serem um dos poucos espaços públicos fechados onde você pode entrar sem precisar pagar nada.

Ela enxerga as bibliotecas como lugares que não se resumem apenas aos livros, mas que contribuem ativamente para uma sociedade mais informada e unida. Certamente um texto que todos deveriam ler por conta da paixão com que a autora fala sobre as bibliotecas.

“Neglected libraries get neglected, and this cycle, in time, provides the excuse to close them. Well-run libraries are filled with people because what a good library offers cannot be easily found elsewhere: and indoor public space in which you do not have to buy anything in order to stay.”

Outro texto interessante da primeira parte é “On Optimism and Despair”, um discurso de Smith ao receber um prêmio literário na Alemanha. Ao analisar as diferenças entre seu primeiro livro, White Teeth, e seu último, Swing Time, Smith fala sobre como sua obra foi “perdendo” o otimismo que tinha no primeiro romance, se tornando mais crítica. A explicação estaria na própria maneira da autora de interagir com o mundo: até seus vinte e poucos anos, sua visão de comunidade era a de um lugar plural, com pessoas de todas as origens, culturas e crenças que convivem pacificamente. Mas ao ter contato com o mundo, ela enxerga o bairro onde viveu como um “experimento”, um lugar fora do padrão.

Smith percebeu que a configuração social do seu bairro não se reflete em outros lugares, principalmente nas cidades do interior. Essa comunidade plural não é a realidade, o que predomina é a homogeneidade, onde todos seguem as mesmas crenças e modos de viver, e por terem pouco contato com o diferente, o rechaça. O fim dessa homogeneidade é a grande ameaça dessas comunidades. O desespero que Smith enxerga no mundo, agora, são as pessoas que não tolerarem o diferente, as pessoas que querem tirar os direitos de quem tanto lutou para conquistá-los por se sentirem ameaçadas. Apesar dessa visão mais pessimista, ela escreve que o otimismo ainda resiste: as coisas não regridem, só avançam. Momentos sombrios surgem, mas saímos deles mais fortes do que nunca.

No cinema

A segunda parte de Feel Free começa com uma análise da autora sobre o filme A rede social. Mas no lugar de ser uma crítica ao longa, o texto dela se converte em crítica ao próprio Facebook, e é impossível terminar a leitura sem ter vontade de deletar seu perfil. Para ela, o Facebook nada mais é do que o molde com que seu criador, Mark Zuckerberg, enxerga a vida:

“Shouldn’t we struggle against Facebook? Everything in it is reduced to the size of it’s founder. Blue, because it turns out Zuckerberg is red-green colour-blind. ‘Blue is the richest colour for me – I can see all of blue.’ Poking, because that’s what shy boys do to girls they are scared to talk to. Preoccupied with personal trivia, because Mark Zuckerberg thinks the exchange of personal trivia is what ‘friendship’ is. A Mark Zuckerberg Production indeed! We were going to live online. It was going to be extraordinary. Yet what kind of living is this? Step back from your Facebook Wall for a moment: Doesn’t it, suddenly, look a little ridiculous? Your life in this format?”

Há, claro, vários outros problemas envolvendo o Facebook, como o vazamento de dados, a bolha que se forma por conta dos algoritmos e que leva a gente a receber o mesmo tipo de conteúdo o tempo todo, sem contato com o diferente. Mas essa visão de organizar sua vida online nos moldes do que Zuckerberg pensa que a vida é, certamente, é bem triste.

Ao falar de antigos musicais do cinema, a autora discute também sobre literatura. Em “Dance Lessons for Writers” Zadie Smith compara os movimentos de grandes dançarinos com diferentes tipos de escrita e autores. Smith tem um interesse grande por todo o tipo de arte, e a dança não fica de fora. É nesse texto que se vê ideias que ela apresenta em Swing Time, onde a dança é parte importante do desenvolvimento de sua protagonista. Escrita e dança parecem bem diferentes entre si: uma exige o movimento do corpo e uma desenvoltura que não permite inibição, enquanto a outra é introspectiva e solitária, parada, se formos pensar no movimento corporal do escritor. Mas ainda assim ela consegue conectar muito bem literatura e dança, um texto que qualquer aspirante a escritor deveria ler.

No mundo da arte

A terceira parte do livro começa com um ensaio que já tinha lido antes: “Killing Orson Welles at Midnight”. Nesse texto ela fala sobre a obra The Clock, cuja tradução foi publicada no folheto da exposição quando ela esteve em cartaz em São Paulo. Em The Clock, Christian Marclay produz um filme sobre a passagem do tempo. São 24 horas de exibição, cada minuto sendo retratado por uma imagem de um relógio, um diálogo que diz as horas ou uma cena onde há alguma marcação da passagem do tempo. É uma grande colagem de filmes exibida conforme as horas passam no tempo real. Smith fala sobre o quão marcante é a experiência de sentar numa sala para ver as horas passarem, como Marclay conecta cada cena em temas ou faz a trilha sonora de um take invadir o outro. Não é uma montagem preguiçosa, mas algo extremamente estruturado e, apesar de não apresentar uma narrativa, ainda assim é coerente. E o que fica é a vontade de ter todo o tempo do mundo para conseguir dar conta de ver The Clock por completo – pois é realmente hipnotizante.

Esta terceira parte foi a que menos falou comigo pessoalmente, pois não sou a pessoa mais ligada em arte e pouco frequento exposições. Mas ela encerra justamente com um texto maravilhoso sobre Get Out, o filme de Jordan Peele – a segunda vez que ele aparece no livro, pois Smith também falou de sua série humorística para a TV, Ken and Peele, em “Brother from Another Mother”. Além de falar sobre todas as sensações causadas pelo filme, ela o usa como pano de fundo para comentar questões de apropriação cultural tão discutidas nos últimos anos.

“The White people in Get Out want to get inside the black experience: they want to wear it like a skin and walk around it. The modern word for this is ‘appropriation’. There is an argument that there are many things that are ‘ours’ that must not be touched or even looked at sideways, including (but not limited to) our voices, our personal style, our hair, our cultural products, our history, and perhaps more than anything else, our pain and sorrows. A people from whom much has been stolen is understandably protective of its possessions, especially the ineffable kind.”

A questão da apropriação cultural é bem delicada, na visão de Smith. Uma pessoa branca tem a liberdade de escrever sobre um personagem negro? Zadie Smith é filha de mãe negra com pai branco, então ela, sendo bi-racial, tem “propriedade” sobre a narrativa. Mas ela se pergunta: e seus filhos, que são também filhos de pai branco e têm a pele clara, possuem menos direito de contar a história de seus antepassados? “There is no getting out of our intertwined history”, ela diz.

Sobre os livros

Em “On The Bookshelf”, é a vez de Smith falar do assunto que realmente diz ser especialista: literatura. Ela discorre sobre a estranheza de Crash, de J. G. Ballard, e de como The Buddha of Suburbia, de Hanif Kureishi, despertou a adolescente Zadie para a literatura e a fez se identificar com a escrita. Em “The Harper’s Columns”, reúne os seis meses de textos sobre suas leituras, que vão de Paula Fox a Thomas Bernhard. Algumas das resenhas de Smith fizeram minha lista de leitura aumentar, pois ela fala sobre os livros com tanta clareza que desperta a vontade de ler tudo o que comenta.

Um dos melhores trechos dessa partes discute o ego feminino na literatura. Ao falar sobre uma novela de Mela Hartwig, que retrata uma mulher autodestrutiva – nem bonita nem feia, às vezes repugnante –, Smith ressalta que o ego na literatura escrita por mulheres se distingue muito do ego masculino:

“[…] there is no clear feminine language for triumph, no ‘bragging rights’, no external symbols that bespeak luck and power. We can’t, as the saying goes, pull it out and slap it on the table. The male narrative ego has never lacked avatars – from the labours of Hercules to the complaints of Portnoy – but female egos, for so long without access to mainstream narrative avenues, seem to have compensated by charting strange and indirect side roads. Heroic tales that don’t sound heroic, self-performance that looks like self-obliteration. But egos we do have. We want, and we get. It’s simply a devious sort of wanting, always changing, adapting to circumstance – or, better put – always apparently reacting.”

Homens na literatura não se diminuem, mas se afirmam, enquanto mulheres estão sempre ajustando seu ego – e sua percepção de si mesma – de acordo com seu interlocutor. Como a autora diz, nunca tivemos uma figura representativa que se afirmasse pelo talento que tem, sem condescendência e sem medo, ou uma personagem feminina que sirva de espelho para a ambição. Felizmente, isso está mudando na literatura atual.

Questões sobre a liberdade para criar e para escrever estão presentes em muitos desses ensaios. No último texto da parte sobre livros, Zadie Smith discorre sobre as diferenças entre escrever em primeira e em terceira pessoa. Seus primeiros romances, como White Teeth, O caçador de autógrafos e Sobre a beleza, são todos narrados na terceira pessoa. O motivo, segundo ela, é evitar que leitores leiam sua obra como se fossem um mero reflexo de sua vida. Que a confundissem com suas personagens. Mas em seu último livro de ficção, Swing Time, pela primeira vez ela muda a narrativa para a primeira pessoa, criando algo ainda mais intimista e profundo. Para ela, ser capaz de escrever neste estilo a fez se colocar ainda mais na pele do outro, entender suas diferenças e pensamentos. Uma liberdade que não existe na narrativa em terceira pessoa.

Engraçado ela dizer isso sobre confundir o real com a ficção. Ultimamente, com a proximidade que temos com autores, é difícil separar o autor real daquilo que ele cria. Invariavelmente, ele vai usar acontecimentos reais, sentimentos reais, para criar sua obra – não podemos escrever sobre aquilo que ignoramos totalmente. Eu fiz isso ao ler Zadie Smith, mesmo nos livros em terceira pessoa, e ela mesmo fez isso, confessa, com os romances de Philip Roth. Mas ao conseguir escrever em primeira pessoa, tanto ficção quanto ensaios, ela afirma que conseguiu tomar ainda mais posse da escrita, de afirmar que ela lhe pertence e é esse o seu assunto de maior expertise.

Sobre ser livre

É na última parte, intitulada “Feel Free”, que estão os textos mais pessoais de Smith. É aqui que ela mais reflete sobre sua escrita, sobre a vida de mãe, de casada, sobre os lugares onde viveu, sobre ser mulher e negra. Há um ensaio bem curioso em que ela faz um paralelo entre Justin Bieber, o cantor, e Martin Buber, o filósofo judeu, discutindo o fenômeno pop usando a teoria do filósofo sobre como interagimos com o mundo. Há outro em que faz um relato do tempo em que viveu com o marido na Itália, e de como viu toda a sua vida (ou melhor, seu apartamento) pegando fogo – as memórias que se perderam, as lembranças que viraram cinzas.

Em seu último texto, “Joy”, a autora procura diferenciar o prazer da alegria. A alegria seria a forma mais intensa de prazer e aquilo que mais perseguimos na vida. Mas para Smith, pequenos prazeres são muito mais manejáveis do que a alegria, tão complexa e rara de se conquistar. Esses pequenos prazeres podem não resolver nossas ansiedades e medos, mas eles estão mais ao nosso alcance, como o picolé de abacaxi que acalma a autora: “Even the great anxiety of writing can be stilled for the eight minutes it takes to eat a pineapple popsicle”.

Feel Free é uma ótima leitura que vai te levar a outras leituras. Impossível não querer ler o que Zadie Smith leu, conhecer as exposições que ela viu, ver as séries e filmes que ela assistiu. E é também uma ótima maneira de entrar em contato com a obra da autora, se você ainda não a conhece. Seus textos conversam de verdade com o leitor. Ela não é arrogante nem te trata como se você fosse ignorante. Ela sabe que tem falhas e não conhece profundamente tudo o que lhe interessa, mas isso não a impede de fazer perguntas, de buscar saber mais. E o principal: ela enxerga a literatura como algo inseparável de si mesma. É na escrita que ela encontra toda a liberdade que procura em conhecer o outro, ser o outro e conhecer a si mesma. Escrever é ser livre, ler é ser livre, e através desses livros – e da arte como um todo – podemos nos desprender de qualquer amarra. É para isso que os livros servem.


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