Não há amanhã, de Gustavo Melo Czekster

Capa de Não há amanhã

Gustavo Melo Czekster lançou sua primeira coletânea de contos, O homem despedaçado, em 2011 (Dublinense). Foi uma ótima estreia, e até hoje está entre meus livros favoritos de literatura brasileira. “Os textos de Czekster falam da fragmentação do homem, dele se separando dele mesmo na tentativa de se entender. Um exercício de autoconhecimento solitário e, na maioria das vezes, destrutivo”, escrevi sobre o livro na época. Em 2017, o segundo livro do autor foi lançado pela editora Zouk, Não há amanhã, com tema diferente de sua primeira obra, mas ainda com a narrativa afiada e inventiva que me fez gostar de seus contos.

Há um tema comum por trás de todos os contos de Não há amanhã, como o autor sugere em um dos textos. Diferente de O homem despedaçado, aqui as histórias são mais curtas, histórias que podem continuar nos contos seguintes, apresentando diferentes pontos de vistas de um mesmo acontecimento – como os textos de “Efemeridade”, onde um porteiro fica perturbado e obcecado com o ciclo da vida das borboletas, gerando consequências trágicas. É a morte, ou a sombra da morte, ou ainda o desaparecimento, que ronda essas personagens que vivem entre a realidade e as perturbações da mente, perturbações essas que levam a um flerte com a própria morte ou despertam loucuras que ameaçam a vida de outras personagens.

Os textos mais longos foram os que eu mais gostei em Não há amanhã – o que não quer dizer que os contos menores sejam piores, é mais uma preferência minha. Um deles é “A passionalidade dos crimes”, onde um ex-aluno encaminha a seu professor uma carta de ameaça, relatando todos os abusos e humilhações que ele o fez passar enquanto foi seu orientando. Mas esta não é uma mera carta, e sim uma vingança: elencando uma lista de autores suicidas, ele usa da teoria do próprio professor para matá-lo, e essa teoria diz que cada escritor possui uma palavra, a palavra definitiva, que quando encontrada por ele o leva à morte. Por isso grandes autores como Virginia Woolf e Ernest Hemingway se mataram, por terem encontrado suas palavras definitivas. Anos de pesquisa – e de planejamento de uma lenta vingança – levaram o narrador a encontrar a palavra de seu professor, e sua vingança é justamente colocá-la no meio da carta para desencadear a sua morte. Me agrada muito essa inventividade de Czekster e de como ele usa seu próprio conhecimento literário para criar um conto fantástico e perturbador como esse.

“Palavras também não são puras. São repletas de passionalidade, de intenções ocultas ou claras, de espinhos e pontas e carícias e dores. Toda palavra que sai do nosso corpo é uma flecha e, às vezes, acertar o alvo é somente um detalhe. Assim como cortam o ar, as palavras rompem a tranquilidade do universo e distorcem o mundo, fazendo-nos viver um emaranhado incessante de atordoamentos. ”

Outro destaque é “Os que se arremessam”, que me arrancou um grande riso ao começar com uma citação da apresentadora Angélica, no programa Estrelas, em que diz: “Me diz aí, você é um daqueles homens que se jogam?”. A frase tem ligação direta com o conto, mas em uma interpretação bem literal: é um texto sobre uma seita secreta de pessoas que se arremessam, se jogam em situações de perigo para testar seus próprios limites (pular de cachoeiras ou prédios, em frente de trens ou carros, ou se jogar em cima de outras pessoas). O conto tem o formato de depoimento, onde um pesquisador que escreveu um manifesto sobre essa seita está sendo acusado de incentivar o suicídio das pessoas. O texto é a sua defesa, mostrando que todos possuem dentro de si esse ímpeto de “se jogar”, só falta descobrir o prazer que isso promove.

“[…] cedam ao desejo e abram a janela. São doze andares até o chão. Um pequeno passo para o homem pode ser um salto para dentro da eternidade.
Agora, pulem.”

“O problema de ser Claudia” é um conto curioso sobre uma mulher, chamada Claudia, que se desdobra em várias outras mulheres, outras versões de si mesma. Sobrecarregada com a casa, o filho e o trabalho, a cada dia novas Claudias vão aparecendo e assumindo as suas tarefas, deixando que a Claudia original tenha tempo para se dedicar a outras coisas e também descansar. A Claudia que levanta cedo para fazer o café da manhã e levar o filho para a escola, a Claudia que toma o seu lugar no trabalho, até o momento em que surge a Claudia que transa com seu próprio marido.

Como Gustavo Melo Czekster é, além de ótimo autor, um grande leitor, os livros têm papel importante em vários de seus contos. É o caso de “A ingrata tarefa das esfinges”, onde essas mitológicas criaturas estão desaparecendo e perdendo sua principal função – proteger o conhecimento. “[…] somos nada que um dia retorna ao nada”, escreve Czekster, “e o sentido final de tudo é desaparecer no vazio. Afinal, se um livro pode morrer, qualquer coisa pode morrer.

Outro conto que está entre meus favoritos é “Ivan Ilitch, o paciente da cela 5”, sobre um paciente psiquiátrico colocado em uma cela contendo apenas um exemplar de A morte de Ivan Ilitch, de Tolstói. No transcorrer da história o leitor descobre que outros pacientes recebem diferentes livros, e tudo não passa de um tratamento de choque em que, ocupados apenas com a leitura de um único livro por um tempo longuíssimo, os pacientes se tornam as personagens, adquirindo suas características e agindo como elas. Um jeito bem curioso de ficar louco e perder sua própria identidade – o mesmo, no caso, que desaparecer.

Mas minha história favorita dessa coletânea é “Mercúrio deve morrer”, e considero que esse é o texto que mais define Não há amanhã. Neste conto, o auge da carreira de um ator é interpretar a peça Mercúrio deve morrer, onde o personagem de Shakespeare é reinterpretado por Czekster. O conto é uma crítica comemorativa aos 20 anos do espetáculo, que é apresentado apenas uma vez por ano e coroa os grandes atores de suas gerações. Isso porque, se um ator é escolhido para ser Mercúrio, significa que ele está pronto para morrer pela arte, pois o auge da peça é justamente o assassinato real do ator no palco. Esse ator, ou atriz, deve morrer para dar lugar ao outro. Na vida não há eternidade, tudo morre para que as coisas se repitam de novo e de novo, e no máximo haverá a lembrança de alguém que já viveu, ou então não haverá nada, apenas o total esquecimento e desaparecimento do mundo e da história.

Esse é o sentido que se repete nos contos de Não há amanhã: algo surge, acontece, desaparece e é substituído por outra coisa. As situações se repetem, pessoas vêm e vão e o mundo continua existindo, independente da nossa presença. “[…] o ser humano por trás do ator ou da atriz é engrenagem em uma gigantesca máquina sem propósito”, o autor escreve em “Mercúrio deve morrer”, “e […] morrer é o único destino aceitável para quem está vivo.

Na orelha de Não há amanhã a escritora Daniela Langer diz que leitores buscam encontrar sentido para a vida na literatura, e Gustavo Melo Czkester oferece esse sentido de forma simples e fatalista: se suas personagens têm medo de que não há sentido algum na vida ou se se convencem de que a vida não precisa ter sentido, uma coisa que fica clara é que todos nós nascemos para morrer. Se não há amanhã, não há vida. Mas o amanhã continua a chegar independentemente de estarmos aqui ou não. Leitura mais que recomendada.


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Leituras recomendadas:
O homem despedaçado, de Gustavo Melo Czekster
Breves entrevistas com homens hediondos, de David Foster Wallace

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