Pastoralia, de George Saunders

Capa de Pastoralia de George Saunders

Entre o absurdo e a realidade, os contos de George Saunders estão entre os meus favoritos. Autor de Dez de dezembro (publicado no Brasil pela Companhia das Letras em 2013) e do romance Lincoln no limbo (pela mesma editora no ano passado, e vencedor do Man Booker Prize) ele é considerado um dos principais autores da atualidade. Mas ainda tem coisas do autor não publicadas aqui para se conhecer, que é o caso de Pastoralia, sua segunda coletânea de contos lançada em 2000.

Com uma novela e cinco contos, Pastoralia apresenta um clima semelhante daquele presente em Dez de dezembro. As histórias de Saunders tem aquele quê de fantasia que você leva um tempo para absorver, pois sua narrativa usa um estilo bem realista. A novela que abre o livro – e dá nome a ele – é a prova concreta disso. Sem contextualizar tempo ou cenário, o autor te coloca em uma situação de trabalho inusitada. Narrado em primeira pessoa, um homem descreve seu cotidiano profissional de maneira sucinta, descrevendo o que fez no seu dia e transcrevendo os relatórios diários que envia para a gerência. O inusitado aqui é a natureza deste trabalho: ele e sua colega são “atores” de uma encenação do tempo das cavernas.

Todos os dias, eles saem de suas áreas privadas e buscam por alimento fora da caverna. Matam uma cabra de verdade, procuram por insetos no chão, se comunicam com grunhidos. Os visitantes dessa espécie de “parque” assistem a tudo isso através de buracos nas paredes das cavernas, mas eles devem se manter no papel independente de terem espectadores ou não. Contudo, o narrador está passando por uma crise em seu emprego. Apesar de ele seguir estritamente as regras (não falar inglês, fazer todas as tarefas, não interagir com os visitantes), sua parceira faz o contrário. E com a crise financeira e demissões constantes no parque, ele é pressionado pela gerência a denunciar a falta de profissionalismo dela. O que seria fácil, caso ele não fosse extremamente bondoso e ingênuo – pois se coloca todo o tempo no lugar dela e sabe das dificuldades que têm em sua vida familiar (ela não para de tagarelar sobre isso). O emprego é necessário.

Essa bondade e ingenuidade são características fortes das personagens de Saunders. Ele, que sempre fala sobre a importância de ser gentil e bom, coloca essas figuras em situações muitas vezes dolorosas. É o caso de “Sea Oak”, que acompanha a vida de um jovem adolescente que trabalha em um bar onde todos os funcionários devem estar nus. Ele vive em um bairro miserável com a tia, sua irmã e uma prima (essas duas últimas com um bebê cada) e é o único que leva dinheiro para casa. O cotidiano desse garoto é totalmente melancólico, pois seu trabalho consiste em praticamente se prostituir – o que ele não pode fazer por ser menor de idade. A tia acaba morrendo, e aí o fantástico novamente aparece: seu corpo em decomposição ressurge na casa, e a velha – que sempre foi passiva a vida toda – decide tomar o rumo da casa depois de morta: quer que as sobrinhas trabalhem e que o sobrinho ganhe mais dinheiro para que ela tenha tudo o que nunca teve em vida.

As personagens de Pastoralia procuram uma vida melhor, de certa forma, pois se sentem pressionadas por seus familiares ou abusadas por eles. É o caso de “Winky”, onde um homem participa de um desses seminários de gurus charlatões em busca da “paz interior”. Encontrar essa paz consiste em se livrar das pessoas que causam desconforto e infelicidade na vida, que no caso do protagonista trata-se de sua irmã carola.

“The end of FIRPO in the World” é um dos textos mais curtos do livro, mas também tem a mesma premissa: um garotinho se sente desprezado pela mãe, pelo padrasto e pelos vizinhos, e seu sonho é ser visto como esperto e inteligente por todos – mas a busca dessa aceitação termina no fim de sua própria vida.

Já alguns personagens, mesmo ingênuos, acabam se mostrando intragáveis. É o caso de “The Barber’s Unhappiness”, sobre um barbeiro de quarenta e poucos anos que ainda vive com a mãe e sonha com a mulher perfeita. Ele fantasia essa parceira de forma doentia, julgando e avaliando mulheres exaustivamente. Quando encontra um possível flerte, praticamente a rejeita por ela ser gorda – como se ele fosse um exemplo de beleza. Eu gosto demais da forma com que George Saunders cria suas histórias. Elas tratam de temas íntimos, de anseios e desejos, e mesmo assim são criativas na abordagem e nas situações fantasiosas em que ele as coloca. Ele causa certa estranheza e, ao mesmo tempo, identificação, pois não importa a situação dessas pessoas, elas têm sentimentos comuns que falam a todos. Pastoralia não chega a ser tão marcante quanto Dez de dezembro ou Lincoln no Limbo (que é um dos meus livros favoritos da vida), mas ainda assim é uma ótima leitura. Porque sempre vale a pena ler Saunders.


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Leituras recomendadas:
Dez de dezembro, de George Saunders
Tipos de perturbação, de Lydia Davis
Não há amanhã, de Gustavo Melo Czekster

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