O verão sem homens, de Siri Hustvedt

Capa de O verão sem homens

Após trinta anos de casamento, Boris deixa Mia. Segundo Boris não é um fim definitivo, é apenas uma pausa. Uma pausa, Mia sabe, que tem nome, sobrenome, emprego e idade: uma colega de laboratório do marido vinte anos mais nova do que ela. Poeta e professora, Mia tem um background bem diferente de Boris, um conhecido neurocientista, mas isso nunca foi um problema no casamento que lhe deu uma filha. E a injustiça dessa troca, a impossibilidade da vida sem o marido, leva Mia a um estado catatônico, uma dor que ela nunca pensou que poderia ter.  

De início, O verão sem homens, de Siri Hustvedt (Companhia das Letras, tradução de Alexandre Barbosa de Souza), lembra bastante Dias de abandono, de Elena Ferrante. Mulheres que sempre foram fiéis e cuidadosas com seus maridos e que, de repente, se veem largadas por causa da famosa crise da meia-idade, trocadas por mulheres mais jovens e menos vividas, deslumbradas com a experiência do homem mais velho. Mas o drama criado por Hustvedt é bem diferente daquele narrado por Ferrante, principalmente por se passarem em épocas tão diferentes – uma no século XX, outra no XXI. Diferente da protagonista de Ferrante, Mia tem mais liberdade para perseguir a paz mental no lugar onde ela quiser, e longe dos homens.  

Ao deixar a clínica psiquiátrica depois de seu surto nervoso, Mia decide voltar para a sua pequena cidade-natal, onde ainda vive a sua mãe. À guisa de férias, consegue um trabalho temporário para dar aula de poesia à adolescentes, e passa os dias entre essas aulas e as visitas à sua mãe e amigas na casa de repouso onde vivem. Essa viagem é tanto uma volta às origens quanto uma reavaliação da própria vida da protagonista – e também do que será o seu futuro.  

Nos encontros com a mãe e as outras mulheres, Mia percebe o quanto elas foram presas a seus maridos durante a vida de casadas. Tudo se resumia a cuidar da casa, do homem, dos filhos, deixando de lado as aspirações pessoais. A viuvez – caso da maioria delas – é uma espécie de liberdade, onde podem, finalmente, viver para si mesmas, mesmo que seja só na reta final de seus dias. Em contato com essas mulheres, ouvindo suas experiências e a voz de quem já viu muita coisa na vida, Mia parece estar mais confortável com sua situação atual, mais inclinada a olhar para a liberdade que agora tem do que lamentar o casamento quebrado. Depois de tanto chorar e gritar por Boris, o que ela precisa é de distância dele. Mas, mesmo assim, não deixa de se abalar quando ele lhe manda um e-mail, ou quando a filha lhe passa relatórios de como anda a vida do ex.  

Com suas alunas de poesia Mia parece querer exercer o efeito que as amigas idosas da mãe exercem sobre ela. Enquanto tenta incutir nessas cabeças jovens a inspiração poética, ela analisa como o grupo de meninas age entre si, observando quem sempre está junto de quem, quem é a líder, quem é a outsider, e também como elas se comportam quando o assunto é garotos. É como se Mia olhasse para elas dizendo “isso, vão se apaixonando, vão treinando, que daqui para frente é só drama”.  

Lidar com esse oposto de idades – as adolescentes que estão começando seus flertes com o sexo masculino e as idosas que já tiveram sua cota de homens – mostra a Mia como o peso que se dá a um homem, a um relacionamento, é desproporcional. Como é injusta toda essa relação entre os dois gêneros. Além das velhas e das jovens, Mia ainda cria laços com sua vizinha, mãe de duas crianças com um marido violento e ausente, e tem aí outro exemplo da relação conturbada que existe entre homens e mulheres.  

Por mais que ainda tenha sentimentos por Boris, sentimentos genuínos, uma raiva começa a crescer em Mia. Não esteve ela sempre ao lado de Boris? Não foi ela quem sempre o ajudou em casa e até no trabalho? Grandes ideias utilizadas em sua tese de neurociência não foram incentivadas por Mia? E é desse jeito que ele retribui, abandonando sem nem ao menos agradecer tudo o que fez por ele?  

Há um trecho importante de O verão sem homens onde Mia se ressente por todas as mulheres que apoiaram seus maridos – ajudando-os em suas profissões – e nunca foram reconhecidas por isso. Mulheres inteligentes e tão importantes quanto eles, mas que, por serem as esposas, ficaram relegadas apenas a esse papel. Como as mulheres de grandes escritores que dedicaram anos de suas vidas datilografando e revisando seus manuscritos e nunca nem foram agradecidas por isso, Mia também deu grandes contribuições para Boris em seu trabalho, mas jamais chegou a receber crédito. O abandono, depois de todos esses anos de dedicação, soa como uma piada de mal gosto. Se fossem 10 anos, ok, ela entenderia, mas trinta anos é tempo demais para seguir em frente como se nada tivesse acontecido.  

“Afinal, Caro Leitor, pergunto-lhe quantos homens agradecem suas esposas por esse ou aquele serviço, geralmente ao final de uma longa lista de colegas e fundações? ‘Sem o incansável apoio e a inestimável paciência de Muffin Pickle, minha esposa, e de meus filhos Jimmy Jr. E Topsy Pickle, este livro jamais poderia ter sido escrito.’  

Sem o córtex pré-frontal bilateral de minha esposa, Mia Fredricksen, este livro não existiria.”  

Apesar de conviver esses dias muito mais próxima das mulheres, Mia mantém contato com pelo menos um homem. Ninguém, um anônimo que começa a mandar e-mails para a poeta assim que ela chega na cidade, geralmente fazendo troça de seu talento como poeta e professora, muitas vezes até a ofendendo. Ainda fragilizada com toda a rejeição que sofreu, Mia engata numa troca de e-mails com esse anônimo que logo deixa de lado os ataques e passa a conversar com Mia educadamente. Uma troca que acontece, certamente, pela necessidade de atenção que Mia ainda sente. E, ainda assim, uma troca já marcada por uma relação de poder, onde ele sabe quem Mia é, e ela não tem nem pista de quem ele seja. Onde ele se sente no direito de ofendê-la e ao seu trabalho, e ela não tem nenhuma informação sobre ele para revidar.  

Há muita reflexão de Siri Hustvedt sobre a maneira que a sociedade enxerga os homens e as mulheres. Pegando emprestado a área de atuação de seu marido, Mia faz toda uma reflexão sobre como a mente feminina foi vista durante anos como inferior, fraca, segundo afirmações da própria ciência. Uma das minhas partes favoritas de O verão sem homens é quando ela compara Cristóvão Colombo e Renalduls Columbus, dois “descobridores” que possuem esse título por serem 1- homens e 2- brancos. Pois os indígenas já estavam na América quando Colombo a “descobriu”, assim como as mulheres já sabiam para que serve um clitóris quando Columbus o “descobriu”. “Não se trata da inexistência de diferenças entre homens e mulheres”, diz Mia, “mas da diferença que tais diferenças representam, e de como escolhemos classifica-las”.  

O verão sem homens, ao mesmo tempo em que sustenta o rancor de sua narradora pelo sexo masculino – rancor esse desencadeado não só pelo marido, mas também pelos homens que conheceu através dos relatos das amigas de sua mãe ou pessoalmente –, este não é um romance “contra os homens”, vamos assim dizer. Mia não quer que Boris e todos os outros homens sumam da face da Terra, ela só quer que eles percebam. Percebam que as mulheres são intelectualmente tão capazes quanto eles, e que não estão ali apenas para enfeitar. Percebam o quanto elas se sacrificam e se dedicam, e não as tomem como algo que sempre estará ali, esperando seus maridos voltarem do trabalho com comida quente na mesa e roupa de cama lavada.   

Siri Hustvedt é uma autora que sabe narrar muito bem essas diferenças de percepções entre os sexos na arte, no trabalho e na vida pessoal. Ela já ouviu muitas vezes que as grandes ideias de seus romances vieram de seu marido escritor famoso. Assim como outra protagonista sua, a artista de O mundo em chamas, ela tem que trabalhar centenas de vezes mais para ser reconhecida, enquanto seu marido não precisa se esforçar o mesmo. E em O verão sem homens, mais uma vez ela mostra como as mulheres são facilmente deixadas de lado, sem reconhecimento e sem consideração. Mas apesar da dor, da saudade, do amor que ainda tem, Mia não fica só choramingando. Ela grita, ela briga e ela mostra o quanto os homens são umas crianças perto de uma mulher.  

“Tosquiada a intimidade e vistos de uma distância considerável, somos todos personagens cômicos, bufões farescos e errantes através das nossas vidas, armando belas confusões no caminho, mas quando se chega mais perto, o ridículo rapidamente se revela ora sórdido, ora trágico, ou meramente triste.”


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Leituras relacionadas:
Dias de abandono, de Elena Ferrante
O mundo em chamas, de Siri Hustvedt

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