Os 120 dias de Sodoma, de Marquês de Sade

Capa de Os 120 dias de Sodoma

“Nós, libertinos, pegamos mulheres para serem nossas escravas; a qualidade delas de esposas as torna mais submissas que as amantes, e você sabe como o despotismo é precioso nos prazeres que saboreamos.”  

Os 120 dias de Sodoma talvez seja um dos livros que mais comprovam o quanto o homem sente nojo, ódio e asco pelas mulheres. O clássico inacabado de Marquês de Sade (1740-1814) é um compilado gigantesco de todos os atos perversos que homens praticam com mulheres – e com homens também, claro, mas elas são o principal alvo de seus libertinos quando falamos de sofrimento. Publicado postumamente em 1904, Os 120 dias de Sodoma (tradução de Rosa Freire D’Aguiar para a Penguin-Companhia) foi escrito durante a prisão do Marquês de Sade na Bastilha.  

Seu objetivo com este romance era descrever todos os tipos imagináveis de perversões que podem ser praticadas pelo homem, classificando-as em quatro tipos de “paixões”: as Paixões Simples, ou de primeira classe; as Paixões Duplas, ou de segunda classe; as Paixões Criminosas, ou de terceira classe; e as Paixões Assassinas, ou de quarta classe. Cada parte reúne descrições de 150 paixões, esquematizadas minuciosamente por Sade.  

Detalhista com sua obra, antes de escrever a narrativa Sade preparou toda a estrutura  de Os 120 dias de Sodoma, deixando no manuscrito avisos e recomendações para ele mesmo. Mas por algum motivo, ele nunca chegou a colocar todos esses planos para o livro em prática. O romance tem completos apenas a introdução e a primeira parte, e o que o leitor recebe a seguir são os rascunhos da história, o que o resto do livro conteria. O que já é o bastante para ter uma noção de que tipos de horrores Sade iria narrar.  

A Introdução, como bem se imagina, é uma apresentação das personagens e do que consiste esses dias de perversões. Quatro amigos libertinos – é assim que a narração sempre vai se referir a eles – decidem preparar um banquete longuíssimo de paixões para saciar os seus desejos. Sade descreve em detalhes cada protagonista, narrando por que são tão horrendos e que tipo de perversões – ou crimes – cada um já praticou em nome do prazer. Esse grupo é composto, claro, por homens ricos e influentes, que sempre escaparam da justiça e que possuem meios de usufruir livremente de suas fantasias. Eles são o Duque de Blangis, 50 anos, e seu irmão, o Bispo, de 55 anos; o Presidente de Curval, de 60 anos; e Durcet, um banqueiro de 53 anos. Sade detalha suas características físicas, suas preferências sexuais, sua iniciação no sexo e na libertinagem e, claro, todas as suas obsessões atuais. Todos rejeitam qualquer tipo de religião, são ateus convictos e acreditam que estão no mundo para tirar vantagem de quem é inferior a eles. Os amigos não possuem empatia ou remorso pelos seus atos: o prazer que sentem está justamente em fazer sofrer.  

Além dos quatro amigos há suas quatro filhas e esposas. Sim, em um acordo entre eles, cada um cedeu sua filha – violentadas pelos próprios pais – a seus amigos como esposas. Assim poderiam continuar abusando dessas jovens após o casamento. Após apresentar as filhas/esposas, Sade introduz as outras peças que farão parte desse jogo, as vítimas e cúmplices do que pretendem fazer durante quatro meses trancafiados em um castelo localizado num lugar remoto da França.  

Sade coloca muita importância na própria narrativa em si, pois tão importantes quanto os protagonistas são as velhas narradoras que vão acompanhar essa empreitada: Duclos, Champville, Martaine e Desgranges, prostitutas e cafetinas entre 48 e 60 anos que serão responsáveis por atiçar o desejo de seus “patrões” com histórias de suas vidas, que vão abarcar todas as 150 paixões de cada tipo. Porque depois de tantas perversões fica cada vez mais difícil saciar o prazer, eles precisam de um estímulo para as ideias, e nada melhor que contratar profissionais da libertinagem para isso.  

Além dessas “historiadoras”, os amigos também contratam quatro aias, que serão responsáveis por cuidar das “vítimas” das orgias: oito meninas e oito meninos entre 10 e 16 anos, provindos de famílias respeitadas, todos virgens e raptados pelas aias para servir aos quatro amigos. E além das crianças e adolescentes, também selecionam oito fodedores, homens com pênis enormes que serão usados tanto para deflorar as esposas e filhas quanto eles mesmos – há, obviamente, uma grande obsessão pelo tamanho do pau aqui, pois homens.  

É na introdução também que Sade descreve toda a organização e preparativos para esses 120 de perversões, pois uma orgia que se preze tem que ser bem organizada. Há guardas cuidando do castelo para que ninguém entre e ninguém saia, e cozinheiras para preparar os mais suntuosos banquetes. E como orgia não é bagunça, cada dia é extremamente regrado, e os próprios amigos devem seguir as regras que se impõem: haverá o tempo certo para deflorar as crianças virgens, assim como eles não podem praticar certos atos até que as narradoras os contem. Todos os participantes – voluntários e involuntários – também estão sob regras restritas, e qualquer passo fora da linha os colocará sob duros castigos. O controle, como se vê, é fundamental, e é controle e poder o que mais excita os protagonistas.  

Por conta de todas essas regras e organização, a narrativa de Os 120 dias de Sodoma está condicionada à repetição. Sade descreve em detalhes na primeira parte, a única completa, cada ação das personagens. Dia por dia, período por período, eles seguem à risca as regras e a agenda estabelecida para os acontecimentos do castelo – inspeção das meninas e dos meninos, café da manhã, necessidades físicas, almoço, ouvir as narrações das historiadoras, jantar e orgias. Isso deixa a narrativa um tanto cansativa, mas não deixa de ser interessante: por ser bem detalhada, é nessa primeira parte que conhecemos a fundo as motivações dos protagonistas.  

O uso do nome de Sade para descrever comportamentos agressivos e violentos que levam ao prazer e à satisfação é bem correto. Eles são o retrato claro do que é o sadismo. Eles não possuem remorso, eles não possuem um pingo de bondade ou compaixão. O que esses homens procuram é o sofrimento alheio, e conforme vão empregando esses sofrimentos nas pessoas, maior a tortura deve ser da próxima vez. Um deles descreve bem como esse prazer funciona:  

“[…] Como é possível que consiga ser feliz se satisfazendo a todo instante? A felicidade não consiste na fruição, mas em desejar, em quebrar os freios que se opõem a esse desejo. Ora, acaso encontra-se tudo isso aqui, onde basta desejar para ter? […] a meu ver falta uma coisa essencial para nossa felicidade: o prazer da comparação, prazer que só pode nascer do espetáculo dos infelizes, o que não vemos aqui. Ao ver quem não goza do que eu tenho e que sofre é que nasce o encanto de podermos dizer: ‘Sou, portanto, mais feliz que ele’. Em qualquer lugar onde os homens forem iguais e essas diferenças não existem, jamais existiria a felicidade.”

É claro, então, que esses homens procuram fazer o outro sofrer para se sentirem superiores, donos do mundo. É o poder sobre o outro que eles procuram, poder para humilhar e subjugar as pessoas a seus desejos. O que procuram não é bem o prazer sexual, a satisfação carnal, mas o encontro com o próprio mal, com o comportamento malévolo. “[…] Sinto tesão em fazer o mal”, afirma um deles, “encontro no mal um atrativo assaz picante para despertar em mim todas as sensações do prazer, e a ele me entrego só por si mesmo, e sem nenhum interesse que não seja o próprio mal”. Sadismo puro e real. A ficção espelha a realidade, e ler isso nas palavras de Sade é entender que o mal existe, que pessoas agem de forma criminosa por puro desejo e vontade. O sexo, para eles, é uma consequência desse mal, mas enxergo isso também nas pessoas que querem manter as divisões sociais, as desigualdades de gênero, de raça, de orientação sexual – a minoria tem que continuar sofrendo, o pobre tem que continuar sofrendo.  

Da primeira parte, então, que versa sobre as Paixões Simples – pedofilia, escatologia, incesto –, Sade passa para as Paixões Duplas, que envolve o estupro, a violência “leve”, a sodomia. Sade faz um resumo do que cada historiadora conta, listando todas as paixões, e também descreve brevemente os acontecimentos de cada dia – quem deflorou quem, quem saciou quem. É aqui que mais aparecem, também, os recados do autor para si mesmo, mostrando o quanto era organizado com suas ideias.  

Na terceira parte, as Paixões Criminosas, o padrão se repete. Conforme o esperado, as atividades descritas pelas narradoras vão ganhando nuances cada vez mais violentas e humilhantes, e é aqui também que as crianças e adolescentes raptados para essa grande orgia sofrem mais nas mãos dos quatro amigos. As torturas começam, os castigos ficam mais pesados, e mesmo seguindo estritamente as regras elas são acusadas de erros pelos libertinos apenas para que possam abusar ainda mais de suas presas.  

Com a quarta parte, então, que dá conta das Paixões Assassinas, é impossível não pensar: Ainda bem que ele não terminou esse livro. As torturas são ainda mais pesadas, a maldade escala a um nível que dá nojo só de imaginar – o que atesta bem a qualidade da imaginação de Sade, já que o horror é o seu objetivo. Impossível negar o nível de criatividade de Sade ao descrever essas torturas que culminam em morte, os horrores criados por ele são, certamente, coisas que uma pessoa pacata jamais conseguiria pensar ou conceber.  

Por que ler um livro como esse? Essa é uma pergunta que me fiz muitas vezes durante a leitura, e acho que vocês podem estar se fazendo agora. Os 120 dias de Sodoma tem um lugar justo no cânone da literatura por ser aquilo que se procura na ficção: conhecer o homem, a mente humana. A sociedade sempre procurou regras para a convivência em harmonia, pois o que levou o animal homo sapiens a dominar a Terra foi justamente a sua capacidade de cooperação. Viver em grupos e harmonicamente é nossa principal característica de sobrevivência, e assim, para a maioria, qualquer coisa que quebre esse arranjo é inconcebível. Por isso nos horrorizamos com assassinatos, serial killers, psicopatas, pois não queremos admitir que essas pessoas, essas coisas, existam.  

Sade nos tira dessa ingenuidade. Sade joga na nossa cara que o mal existe, que pessoas são más apenas pela maldade. A maldade é seu fim, sua razão de viver, e não há apelo para a consciência e a humanidade faça com que deixem de almejar o mal. Pessoas como as personagens descritas por Sade existem. Maldades como essas criadas por ele são reais. E não é ignorando a sua existência que elas deixarão de existir. Ler Os 120 dias de Sodoma é fundamental para entender isso e sermos menos ingênuos quanto a capacidade que nós mesmos temos de sermos cruéis.


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