Pastoral americana, de Philip Roth

Capa de Pastoral americana

“A vida de Sueco Levov, até onde eu sabia, fora a mais simples, a mais comum e portanto fora ótima, bem de acordo com o temperamento americano.” Nathan Zuckerman, o alter ego de Philip Roth, tem uma opinião bem formada sobre a vida do herói de sua infância e adolescência. Seymour “Sueco” Levov foi o grande nome do esporte nos seus tempos de colégio: bom no basquete, no beisebol e no futebol americano. Não havia nada que o Sueco pudesse fazer sem que fosse bom em tudo. Cinquenta anos depois, com toda a experiência de vida, é essa a imagem que Zuckerman ainda nutre de seu herói – alguém que conquistou o que quis na vida: admiração.

Em Pastoral americana, um dos grandes romances de Philip Roth (Companhia das Letras, tradução de Rubens Figueiredo), o que o autor nos mostra é que podemos estar completamente enganados sobre os outros. Após um breve reencontro com Levov, Zuckerman percebe que seu ídolo não é assim tão extraordinário, mas um homem simples e comum na concepção mais americana possível. Depois de ouvir de Jerry Levov, seu irmão, sobre a morte do Sueco, o escritor passa a investigar os acontecimentos passados que ele nunca teve conhecimento sobre a vida dele. Tudo o que o Sueco queria era ser um típico americano, e conseguiu manter essa imagem nas aparências. Contudo, dramas familiares abalaram para sempre a vida desse ilustre cidadão.

“[…] Viver é entender as pessoas errado, para depois, reconsiderando tudo cuidadosamente, entender mais uma vez as pessoas errado. É assim que sabemos que continuamos vivos: estando errados. Talvez a melhor coisa fosse esquecer se estamos certos ou errados a respeito das pessoas e simplesmente ir vivendo do jeito que der. Mas se você é capaz de fazer isso… bem, boa sorte.”

Zuckerman certamente não é uma dessas pessoas que ficam satisfeitas com a ignorância. A devoção que sempre teve pelo Sueco não permite que ele receba a notícia de sua morte de forma neutra, não deixa que ele siga em frente sem tentar entender quem foi Seymour Levov e o que de tão horrível aconteceu com ele.

Na primeira parte, o narrador mostra certa melancolia com a vida. Com mais de 60 anos, ele não tem mais o viço da juventude e pensamentos sobre seu tempo de vida começam a se tornar frequentes. Amigos estão ficando doentes e morrendo. Antigos colegas de escola já não estão mais aqui. O próprio Zuckerman se pergunta quanto tempo ainda lhe resta, o quanto ele ainda pode aproveitar a vida. Ver a imagem heroica de Sueco desmoronar é só mais uma de suas decepções, talvez a mais dolorosa por ser tão simbólica, por ele ser uma lembrança carinhosa dos tempos onde tudo era bom e mais fácil.

Saber que Seymour Levov não teve uma vida tão tediosa quanto ele achou que pudesse ter basicamente desperta algo em Zuckerman. O comentário de Jerry sobre sua sobrinha ingrata e perigosa é o que move o narrador a tentar, nas suas palavras, reescrever a história do Sueco e entender de fato quem ele foi. É a partir daí que Pastoral americana salta para o passado, para os EUA dos tempos da Guerra do Vietnã.

Casado com a ex-miss Nova Jersey, Levov é pai de Merry, uma adolescente deslumbrada com os protestos contra a guerra e que questiona tudo à sua volta. Não fosse a teimosia de Merry, ela seria uma personagem gostável, mas não consegui deixar de sentir raiva de suas atitudes. Com sua mãe nutre uma relação de desprezo. Enquanto Dawn ainda conserva a beleza da juventude que a levou à decisão do título de Miss América, Merry é gorducha, desengonçada, e de certa forma troça da mãe por esse feito que ela prefere esquecer. O diálogo entre as duas parece impossível. Muito mais próximo da filha, Levov tenta se mostrar como o pai compreensivo e amoroso, que nunca grita, nunca ameaça. Só que é justamente esse tratamento polido que parece despertar em Merry a vontade de contradizer os pais em tudo. Ela não busca por compreensão, ela quer confronto.

O que perturba muito o Sueco é essa transformação de Merry de criança amorosa – mas espevitada – a adolescente rebelde. Ele se pergunta em que momento a filha virou a chave na sua mente para mudar tanto de uma hora para outra. Seria algo que ele fez – e aqui Roth apresenta uma relação que quase escala para uma situação problemática – ou seriam suas novas amizades? Por vezes ele se culpa pelo temperamento de Merry, por ser tão permissivo e compreensivo. Mas ele não consegue exercer nela a autoridade que gostaria de ter. Isso vai contra suas ideias de paternidade, o aproximaria do próprio pai controlador que ele teve.

O que abala a vida do Sueco, de sua esposa e de toda a sua família é um atentado à bomba em um mercadinho da pequena comunidade onde moram. Uma bomba explode, matando o médico que estava ló só para postar uma carta nos correios. Merry some, e é ela a pessoa apontada como responsável pelo atentado. E é aqui que a vida perfeita de Levov se despedaça. Ele, filho de imigrantes judeus que fez de tudo para se encaixar no padrão de vida americano, criou uma pequena terrorista, uma garota que odeia tudo o que é patriótico. Philip Roth aqui mostra como essas diferenças são importantes para a relação: ele acredita no sonho americano; ela acredita que esse sonho está causando todos os males do mundo. Ele, apesar de ser contra a guerra do Vietnã, não concorda com depredações ou violência; ela quer ver o mundo pegar fogo. O apelido de “Sueco” parece que incutiu em Levov uma vontade ainda maior de ser visto como um exemplar cidadão, e sua filha, com seus caprichos de revolucionária, destruiu toda essa imagem.

Todavia, ao mesmo tempo, Seymour não consegue deixar de amar a filha e de se preocupar com ela. Ele deseja tanto encontrá-la que se deixa enganar por outras pessoas, pessoas que dizem conhecer Merry e saber onde ela está. Há o conflito entre condenar o que Merry fez e também querer protegê-la desse mundo. Mas o que Levov mais procura são explicações sobre por que sua filha se tornou o que se tornou. Por que é tão crítica com a vida que seus pais lhe deram, por que fugiu e nunca mais entrou em contato. Durante anos, a cada bomba que explode nos EUA, a cada protesto pelos mais diversos motivos, Levov imagina que Merry esteja por trás desses acontecimentos. E enquanto procura, de alguma forma, se conectar com a filha, a vida doméstica, seu casamento com Dawn, vai sofrendo seus abalos.

Pastoral americana é um livro muito mais contemplativo do que Complô contra a América, primeiro romance que li de Philip Roth. Em Complô, narrado por um Roth de sete anos de idade, tudo é um acontecimento, coisas acontecem o tempo todo, seja na realidade ou na mente de criança. Mas aqui os pensamentos de Levov traduzidos ou inventados por Zuckerman fazem com o que o livro tenha uma pegada muito mais mental. As coisas acontecem dentro da cabeça de Levov e de Zuckerman. As ações diretas são mais esparsas, mas a mente dos dois não para de trabalhar. E assim você vê as situações surgindo lentamente, as conclusões se constroem devagar, mas a força das ideias de Levov e Zuckerman é tão grande que você nem percebe as páginas passando.

Por algum motivo que não sei explicar direito, sempre pensei que os livros de Roth falariam muito sobre o drama do homem branco. Sim, de certa forma, esse drama está aí. Mas há coisas maiores sendo discutidas no livro além do homem e suas neuras: o sentimento de pertencimento, o legado histórico e familiar, a visão de mundo, as revoluções que surgiram naquela época, o choque entre o tradicional e o novo. Mesmo com toda a sua aura pacificadora, Levov não foi capaz de conciliar o mundo em que cresceu e viveu com o mundo novo em que sua filha se criou. Seu sonho mais profundo, o de ser um homem bom de vida tranquila, desapareceu juntamente com o mercadinho que sua filha explodiu. É interessante notar que foi justamente uma jovem, uma adolescente, a mensageira dessa mudança dos tempos. Pastoral americana é realmente um romance fabuloso.  


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