Cat Person e outros contos

Capa de Cat Person e outros contos

Quando o conto “Cat Person” foi publicado na revista New Yorker, em 2017, foi o maior furor. Muitos leitores se identificaram com o texto de Kristen Roupenian que narra o flerte de uma garota de 20 anos com um cara de 30, de como a relação foi se desenvolvendo via mensagem de texto e como ela desandou completamente após o primeiro encontro. Muitos confundiram o texto de ficção com um relato real – totalmente equivocados. E o texto, claro, gerou toda uma discussão também sobre a dinâmica dos relacionamentos atuais, consenso, expectativas e tudo o mais. Foi o texto de ficção mais compartilhado da New Yorker, então é óbvio que isso chamou a atenção dos editores. Com esse sucesso, Roupenian acabou conseguindo um contrato de publicação, e assim surgiu Cat Person e outros contos.

A coletânea – que aqui foi lançada pela Companhia das Letras com tradução de Ana Guadalupe – reúne 12 contos, entre eles o famoso “Cat Person”. De histórias que vão de relacionamentos, dramas infantis e vontades reprimidas, é uma reunião que não apresenta muita unidade, mas que vale apena pelos contos realmente bons. E quero começar justamente com eles.

Em “Seu safadinho”, Roupenian apresenta o fim de relacionamento pelo ponto de vista de um casal de amigos do recente solteiro. Críticos de sua namorada, com que terminou e voltou várias vezes, eles o acolhem em sua casa enquanto ele tenta se recuperar do término. Mas a boa vontade do casal vai além da amizade. Conforme o amigo passa mais dias na casa, eles passam a fantasiar sobre o amigo ounvindo-os transando, um fetiche que acaba escalando para o voyeurismo e o sadismo. Kristen Roupenian é ótima em criar este tipo de cenário: as coisas começam normais, tranquilas, mas aos poucos os desejos das personagens fazem a carga dramática da história crescer consideravelmente, deixando tudo mais intenso – e interessante. “Seu safadinho” foi um bom texto para abrir o livro.

“Look at Your Game, Girl”, o conto seguinte, cai um pouco em qualidade, mas ainda é promissor. Uma garota de 12 anos de idade é abordada por um homem mais velho em um parque, que começa a puxar assunto sobre música. Ela está claramente assustada em falar com ele, mas responde por educação e curiosidade. A cada semana, ele lhe apresenta um novo CD para ouvir em seu discman, mas ela corta relações com o homem quando ele a chama para se encontrar com ele no parque à meia-noite. Uma garota sensata, claro, mas que acaba entrando em parafuso quando descobre que meninas foram raptadas durante uma festa do pijama exatamente no mesmo dia em que aconteceria esse encontro. Estaria ela em perigo esse tempo todo e não sabia? Teria o homem raptado as garotas por raiva, por ela não ter ido encontrá-lo?

E aí chegamos no pior momento de Cat Person e outros contos, os textos “Sardinha”, “Os corredores noturnos” e “O espelho, o balde e o velho fêmur”. Quero falar especificamente do primeiro e do terceiro conto citado. “Sardinha” começa com um encontro entre amigas após um incidente, que não sabemos o que é ou quando aconteceu, mas sabemos que envolveu seus filhos. O incidente tem ligação com uma brincadeira que virou moda entre eles, chamada Sardinha, que consiste num jogo de esconde-esconde onde apenas uma pessoa se esconde, e as outras têm que procurá-la e, quando acham, se esconder com ela no mesmo lugar, até que todos estejam amontoados no mesmo esconderijo. É uma brincadeira certamente inocente, e eu esperava que algo muito horrível fosse acontecer. Mas aí está a primeira grande derrapada de Roupenian: o desfecho fantástico que ela dá ao conto. Esse desfecho destoa de todo o texto e também de todo o livro.

“O espelho, o balde e o velho fêmur” é outra tentativa de narrativa fantástica que não funciona. Aqui a autora tenta fazer uma espécie de conto de fadas sobre uma princesa que precisa se casar, mas não consegue se decidir com tantos pretendentes. Depois de anos e anos de encontros com príncipes, duques e tudo o mais, ela ainda não toma uma decisão. Mas depois de um encontro fortuito no meio da noite, ela encontra seu amor verdadeiro, porém ele não é uma pessoa de verdade. Esses textos com essa pegada fantástica realmente parecem perdidos na coletânea, como se tivessem sido inclusos apenas para fazer volume. E aí me pergunto: vale a pena publicar um autor o quanto antes para aproveitar o hype?

Literatura é uma coisa que exige mais tempo de construção e produção, e o que aconteceu com “Cat Person” foi algo bem fora da curva. No mercado editorial é comum que editores queiram aproveitar o burburinho para garantir mais vendas dos livros – o que super compreendo –, mas será que vale a pena derrapar na qualidade por esse motivo?

Felizmente, o livro melhora quando “Cat Person” finalmente chega. A história de Margot e Robert continua muito válida para mim. A maneira com que eles se conhecem, como constroem a relação, como Margot se sente acuada e curiosa ao mesmo tempo, tudo isso é bem colocado pela autora, é um retrato fiel de muitos relacionamentos que eu mesma tive. Então adoro esse texto por questões bem pessoais, que acabam falando mais alto para mim do que a literatura em si – mas considero ele um conto bem desenvolvido do mesmo jeito.

O ponto alto de Cat Person e outros contos, para mim, nem chega a ser o conto que dá título ao livro, mas o que vem a seguir: “O cara legal”. Texto mais longo da coletânea, ele apresenta um homem em seus trinta e poucos anos terminando um relacionamento em um restaurante. Ele tenta se mostrar compreensivo, sensível, mas deixa sua agora ex-namorada tão inconformada que ela acaba jogando uma taça de vinho em sua cabeça. A partir disso, ele começa a avaliar todas as suas relações com o sexo oposto, da infância até a vida adulta.

“Será que havia um ponto em que o seu ego ficava tão completamente destruído que acabava morrendo, e aí você não precisava mais arrastar o fardo de ser você mesmo? Deve existir uma palavra em alemão para esse sentimento, para quando as distorções do seu próprio pensamento chegam à superfície e de repente ficam desagradavelmente visíveis.”

Kristen Roupenian brinca aqui com as aparências. O protagonista parece ser aquele tipo de garoto sensível e apaixonado, que se entrega a cada interesse amoroso. Mas já na infância ele percebe que esse jeito efusivo afasta as meninas – ele não é nenhum galã, muito pelo contrário. Sua estratégia para se manter perto de quem ama é, então, virar amigo de seus interesses. E assim passa a adolescência toda apaixonado pela melhor amiga, consolando-a em seus desastres amorosos, mas nunca confessando o que sente. Pobre garoto apaixonado, certo? Não. A personalidade bondosa e sensível é apenas uma fachada para a vingança pessoal que o protagonista trava contra as mulheres, que tem muito a ver com fazê-las desconfiar de seu próprio potencial. Uma boa jogada de Roupenian para mostrar como os relacionamentos são tóxicos sem percebermos.

Os contos depois de “O cara legal” não são ruins, mas não chegam perto de “Cat Person”. “O garoto na piscina”, “Não se macuque”, “O sinal da caixa de fósforos” e “Vontade de morrer” são bem medianos. Para encerrar, temos “Aquela que morde”, sobre uma mulher que tem que refrear sua vontade de morder as pessoas, um texto bem curioso e redondinho.

Vale a pena ler Cat Person e outros contos? Olha, eu acho que vale. Kristen Roupenian é uma escritora que escreve ótimas histórias, e tem coisas bem boas no livro. Mas também tem muitas derrapadas, certamente por conta da edição, que na inclusão de algumas histórias acabou quebrando o ritmo do livro. Mas é alguém para continuar de olho.


Ficou com vontade de ler? Encontre aqui Cat Person e outros contos, de Kristen Roupenian. Ao comprar com o meu link da Amazon você ajuda o r.izze.nhas a ganhar uma graninha. Assim posso me dedicar mais ao blog e comprar alimento para o Horácio e a Dolores. Obrigada!

Leituras relacionadas:
Coração azedo, de Jenny Zhang
Conversas entre amigos, de Sally Rooney

Gosta do conteúdo do r.izze.nhas? Contribua com nosso Padrim a partir de R$1 por mês!