Humilhados e ofendidos, de Fiódor Dostoiévski

Capa de Humilhados e ofendidos

Em 1859, quando retorna a São Petersburgo após ficar quatro anos preso na Sibéria, Fiódor Dostoiévski começa a idealizar seu próximo romance: Humilhados e ofendidos (Editora 34, tradução de Fátima Bianchi). O título certamente ilustra bem o que ele passou em seus dias de prisioneiro, mas aqui ele retrata o povo. Diariamente ofendidos em seus direitos, humilhados pelas circunstâncias da vida, as personagens do romance são uma reunião de pessoas pisoteadas pela sociedade, por mais trabalhadores e honestos que sejam.

Fiquei muitos anos sem ler nada de Dostoiévski – li Crime e castigo há dez anos –, então nem lembrava exatamente como era a narrativa do autor. Fiquei bem tranquila ao começar Humilhados e ofendidos e ver que a leitura fluía facilmente. O romance é como se fosse um grande dramalhão russo, com vários núcleos de personagens que se esbarram e encontram por conta de um elo em comum. Aqui, no caso, o elo é o seu narrador.

Ivan Petróvitch, uma espécie de alterego de Dostoiévski, é um jovem escritor que conquistou certa atenção com seu primeiro romance – que se assemelha muito com Gente pobre, primeiro livro do autor. Órfão, ele cresceu na casa dos Ikhmiêniev junto de Natacha, a filha do casal. Dono de terras humildes em uma província próxima de São Petersburgo, Nikolai Ikhmiêniev sempre foi um homem trabalhador, direito, orgulhoso de suas terras, funcionários e da vida que construiu pra si. Vida que acaba sendo abalada pelo príncipe Valkóvski após anos de serviços prestados a ele administrando suas terras.

Quando começa a narrar, Petróvitch está procurando um novo apartamento onde possa se concentrar na escrita, pois “numa casa apertada até os pensamentos se estreitam”. Mesmo adoentado, ele segue sua busca e acaba topando com um velho maltrapilho e seu cachorro esquelético quando entram em um café alemão. A figura desses dois seres emociona Petróvitch, ele quer entender quem é aquele velho e o que faz parado, olhando fixamente, naquele café todos os dias. Dostoiévski já começa o romance com uma boa carga de sofrimento, pois o que se segue é a morte do velho e de seu cão. Apesar da tragédia, o caso acaba levando o jovem escritor até sua nova morada, o apartamento do velho morto.

Ao voltar um pouco no passado, Petróvitch conta como se apaixonou por Natacha e como planejavam se casar, o que aconteceu logo depois dos Ikhmiêniev se mudaram para São Petersburgo. Mas nenhum pai ou mãe permitiria que a filha se casasse com um escritor pobretão, e na espera do sucesso que foi parco, Natacha se apaixona por Aliócha, filho de Valkóvski, com quem seu pai trava uma batalha judicial – mais pela honra do que pelo dinheiro. E é aí que todo o drama na vida do narrador começa.

Mesmo ainda apaixonado, Petróvitch é incapaz de abandonar Natacha. Ele a ajuda a fugir com Aliócha a contragosto dos pais, e é ele quem repassa mensagens de um para o outro, quem aconselha e ouve suas lamúrias. Ivan tem esse espírito acolhedor, e por mais humilhado que se sinta, por mais que lhe doa, ele não abandona nem Natacha nem Aliócha, não importa os erros que cometam – que são muitos.

Ao mesmo tempo, aparece em seu novo apartamento uma garota de 12 anos que ele descobre ser Elena, neta do velho que viu morrer. Desconfiada e assustada, Nelli perdeu a mãe alguns meses antes e, sozinha, era forçada a trabalhar para uma matrona que a explorava. Numa das noites em que a garota seria oferecida a um dos “senhores” de São Petersburgo, Ivan a resgata, e assim ela passa a conviver com o escritor. Uma relação conturbada, onde ela não se acostuma com a bondade alheia, tão familiarizada estava com as agressões e reveses da vida. Tantas que fizeram nascer na menina um orgulho enorme, e ela teima em rejeitar gestos de bondade e caridade de quem a acolhe.

Cada personagem tem seu orgulho ferido de alguma forma. Ikhmiêniev se ressente pela desconfiança de Valkóvski e pela fuga da filha, a quem chega a renegar. Nelli, apesar de uma criança, tem o orgulho de uma mulher adulta e independente, que quer trabalhar para pagar pelas coisas que ela teria o direito de receber na sua idade – como casa, comida e educação. Natacha perdoa cada erro de Aliócha, dos esquecimentos às traições, e engole esse orgulho para evitar que ele a deixe. Petróvitch é o único que, apesar da rabugice de Ikhmiêniev, da desconfiança de Nelli e das lamúrias de Natacha, é o único que se mantém firme para ajudar a todos.

De longe, a personagem mais irritante de Humilhados e ofendidos é justamente aquele que nunca se humilha nem nunca se ofende – não seriamente. Aliócha é o típico jovem protegido pelo dinheiro e pela nobreza. Tudo o que faz é impensado, e as consequências não o atingem, respingam apenas naqueles que estão à sua volta. Quantas vezes ele deixa de visitar Natacha e é Ivan quem tem que consolar a amiga. Quantas vezes ele a traiu e fez promessas vazias de que a ama, e a mais ninguém, mas quebrou a promessa logo no dia seguinte. É por isso que, quando surge uma pretendente rica, bonita e bem educada, Natacha nem nutre esperanças de que conseguiria manter Aliócha ao seu lado. É irritante ver tanto chororô por causa de uma personagem tão infantil – mais infantil que Nelli. E tão irritante quanto é ver como ele é protegido e amaciado por Natacha e Ivan.

Valkóvski, por sua vez, é bem o contrário do filho. Quer usá-lo para recuperar sua fortuna, e o faz fingindo ser um pai amoroso e que aprovaria sua união com Natacha. Mas ele é calculista, sabe manipular o filho e quem mais estiver a seu lado. Com exceção de Ivan e Natacha, que logo nos primeiros encontros com o príncipe já desconfiam de suas intenções. Ele é quem deveria ser o grande vilão de Humilhados e ofendidos, masnão desperta tanta antipatia quanto seu próprio filho mimado.  

Como Fátima Bianchi escreve no posfácio do livro, Humilhados e ofendidos é um romance de transição na carreira de Dostoiévski. Além de retomar temas de seu primeiro livro, Gente pobre, é aqui que aparecerão também alguns temas que o autor abordará em seus mais famosos romances, como Irmãos Karamázov e Crime e castigo. Então é uma leitura que mistura esses dois lados de um autor tão consagrado pelo cânone. Um clássico com gostinho de novela da Globo, onde você xinga as personagens e se descabela com suas atitudes.

Rixas familiares, romances proibidos, miséria e abandono: o narrador se vê envolvido no meio disso tudo e tenta lidar com esses problemas do melhor jeito possível. Por mais ferrado de dinheiro que esteja, sem trabalho e quase sem tem o que comer, Petróvitch está lá para apoiar todos. Se a honra e a moral são importantíssimas para Valkóvski, Ikhmiêniev e Nelli, para Ivan o importante é livrar um pouco seus amigos dessas humilhações e ofensas que os perseguem.

“[…] não fora abandonada nem largada por ninguém à própria sorte: não fora de opressores cruéis que fugira, mas de seus amigos, que a amavam e mimavam. Parecia querer deixar alguém assustado ou assombrado com seus atos; era como se quisesse se gabar diante de alguém! Alguma coisa secreta amadurecia em sua alma… Sim, o velho tinha razão; havia sido ofendida, sua ferida não podia cicatrizar, e ela, como que de propósito, tentava avivar sua ferida com esse mistério, com essa desconfiança que sentia de todos nós; era como se se comprazesse com a própria dor, com esse egoísmo do sofrimento, se é que é possível expressar-se assim. Esse avivamento da dor e esse deleite me eram compreensíveis: era o deleite de muitos insultados e ofendidos, oprimidos pelo destino e conscientes de sua injustiça.”


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