O quarto branco, de Gabriela Aguerre

Capa de O quarto branco

Com cerca de quarenta anos de idade, Gloria está passando por um momento nada feliz em sua vida. Seu pai está hospitalizado, ela perdeu o emprego, mas mesmo antes disso Gloria havia sofrido outro baque enorme: um aborto espontâneo que deu fim ao seu desejo de maternidade. Em meio a tudo isso, ela descobre também que nunca poderá ser mãe. Em O quarto branco, romance de estreia de Gabriela Aguerre (Todavia), acompanhamos Gloria neste momento mais conflituoso de sua vida, onde a protagonista revive  perdas do passado para entender as perdas do presente.

Nascida no Uruguai, mas criada no Brasil desde criança – assim como a própria autora –, Gloria possui vários fantasmas dentro de si para exorcizar, sejam eles sociais ou pessoais. Enquanto mistura presente e passado em sua narrativa, ela discute períodos sombrios de sua terra natal, a ditadura que ameaçou a vida de sua família e a fez fugir para o Brasil. Mas o maior fantasma, a perda que ainda está viva dentro de Gloria, é a da sua irmã gêmea, Gaia, que morreu ainda bebê. De certa forma, ela conecta o aborto que sofreu com a perda da própria irmã, aquela de quem não tem memória, mas ainda assim sente que sua ausência foi definitiva para a sua vida.

Aguerre explora de maneira sensível o sofrimento de Gloria, e o livro jamais cai em sentimentalismo barato. A tristeza que ela sente por não poder ser mãe é palpável, e ressurge toda vez que se lembra da gravidez e toda vez que visita uma de suas amigas que acabaram de ser mães. A todas elas foi concedida a graça da maternidade, mas para Gloria não. Por quê? Ela não esconde essa mistura de inveja com adoração, não tenta jogar para debaixo do tapete a melancolia que carrega. O quarto pintado de branco na casa de vila onde antes vivia, que seria de seu filho, não guarda apenas as tralhas que não possuem lugar fixo – agora ele guarda a promessa do que sua vida poderia ter sido.

A única forma que Gloria encontra para tentar reavivar os ânimos depois de tanta decepção é a volta para as suas origens. E é assim que Gabriela Aguerre faz sua personagem voltar à Montevidéu, despertando nela todas as lembranças de visitas aos avós, lembranças infantis e da adolescência que retratam um tempo onde nenhuma dessas preocupações estavam em sua cabeça. E é bonito demais esse olhar que ela joga sobre a cidade, sobre o lugar dela na formação dessa personagem, um lugar do qual ela foi arrancada, mas que ainda assim faz parte dela. Assim como Gaia lhe foi arrancada e ainda está viva nela, ou como sua maternidade lhe foi arrancada, mas não o seu desejo de ser mãe.

O quarto branco é uma viagem interna pelas memórias e pelos anseios de Gloria. Gabriela Aguerre usa uma linguagem poética, construindo com cuidado cada frase, buscando oferecer uma boa referência visual aliada a uma narrativa simples e bonita. E todo o sofrimento da protagonista, todas as suas perdas, desejos e decepções, são transmitidas ao leitor com sucesso. É o tipo de livro onde toda a ação é interna, ocorre nas lembranças e nos pensamentos de Gloria, e Aguerre consegue traduzir tudo isso em uma bela narrativa.

“Um imenso branco em volta de mim, silencioso, sereno, límpido, com paredes que se misturam do chão ao teto, sem limites nem ângulos retos. Um quarto branco. Uma felicidade do avesso, uma paz triste, uma paz.”


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